Editorial 251

Educação, histórias para compreender o presente

No período de 02 a 05 de setembro ocorreu, na Universidade Federal do Pará, em Belém, o X Congresso Brasileiro de História da Educação. Em um importante ato de resistência e criatividade de professoras(es), alunas(os) e pesquisadoras(es) da área ao investimento do governo Bolsonaro contra o pensamento crítico e a pesquisa científica, foram apresentadas no evento centenas de investigações que buscam construir a história da educação brasileira em suas múltiplas dimensões e, ao mesmo tempo, ajudam a entender a profunda crise que vivemos hoje no Brasil.

Os trabalhos apresentados, se levados em consideração, nos ajudam a desconstruir certos mitos e tantas meias verdades que são usados, ainda hoje, como razões para o investimento em educação ou, numa versão complementar a estas justificativas, as razões para a suposta falta de qualidade da educação pública no país.

Algumas das pesquisas demonstram, de forma cabal, como a ideia de que a educação deve seguir e servir à racionalidade econômica – formação de mão de obra para o desenvolvimento do país e seus corolários mais ou menos sofisticados. Significa, na verdade, numa brutal redução das potencialidades da escola e uma submissão da educação pública aos interesses privados.

Ao fazerem uma história da escola e, de maneira mais geral, da educação, tais investigações mostram que vários sujeitos e movimentos se organizaram e lutaram para defender o direito das novas gerações a uma formação que ultrapasse a mera formação para o mercado de trabalho. Tal luta, em muitos casos, foi obstaculizada pelos empresários e, mesmo, pelos gestores das políticas educacionais que, não apenas hoje, tendem a defender uma educação que não crie, nas populações subalternas, aspirações outras que não a inserção no trabalho e uma passiva vida política.

No Brasil, o entusiasmo com que os empresários e seus representantes no executivo e no parlamento defendem a educação, demonstram vários trabalhos, é o mesmo com que eles defendem a transferência de recursos públicos para a iniciativa privada, a redução do Estado, a perseguição ao corpo docente pela polícia, a redução de direitos dos trabalhadores. A defesa da educação funcionaria, assim, como uma cortina de fumaça que encobriria, na verdade, um muito pequeno apreço pelas condições que, de fato, permitiriam a construção de uma verdadeira educação de qualidade para todos e para todas.

Não menos importante é a ideia sustentada por outros tantos trabalhos a respeito da importância das professoras e dos professores para a garantia do direito à educação no país. Demonstram as pesquisas, que não é recente o investimento das várias esferas de governo contra as professoras e os professores e as tentativas de reduzir ao mínimo possível seus direitos e sua autonomia. Culpabilizadas(os) quase sempre pelas mazelas da educação, jamais tiveram, as(os) docentes da escola básica, reconhecidos seus direitos a carreira e salários dignos, do mesmo modo que suas longas experiências na sala de aula quase sempre foram secundarizadas a favor de cursos de reciclagem e formação rápidos e organizados sem diálogo com aquelas e aqueles que deveriam frequentá-los.

Muitos outros aspectos da densa e tensa história da educação brasileira foram trazidos à luz durante o X Congresso Brasileiro de História da Educação. É impossível repertoriá-los todos aqui. No entanto, não se pode deixar de mencionar aqueles que mostram com muita clareza que a construção das redes de escolas públicas, que hoje atendem a quase 90% do alunado brasileiro, é fruto muito mais das lutas seculares dos trabalhadores e das populações das periferias, que desde muito acreditam que a escola pode mudar, para melhor, as vidas de seus filhos e filhas. É a certeza de que esta luta continua em todo o território brasileiro que nos dá alento neste momento em que o bolsonarismo tenta nos impor uma política de ignorância e medo.

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  1. A educação brasileira vem sendo dilacerada pela opinião pública e pelo Governo Bolsonaro, pois identifica na profissão do EDUCADOR a única forma de manifestação e resistência ao “LOUCO”. Sou vice diretora de uma escola estadual e o massacre vivido também pelo governo estadual tem sufocado os gestores em cursos e exigências burocráticas e contábeis que vem diminuindo o trabalho pedagógico das escolas, com projetos que não valorizam a realizadade da escola pública e a identidade de cada região. HOJE somos apenas números, mais um ou na verdade menos um que participa do processo de doutrinação, tanto pregado pelo governo. Somos , hoje, a caça. que é perseguida e violentada pelo discurso de que servidor público não trabalha. Nas escolas, infelizmente ainda (digo isso horrorizada) existem bolsolixos que vigiam e denunciam qualquer tentativa de suspiro contra toda esta hipocrisia instalada no país. Mas, resistimos, ainda que calados, ainda que timidamente, a RESISTÊNCIA CRESCE. E junto com ela, a vontade de muitos, de lutar e buscar uma educação de qualidade que sele por vez, a honra àqueles em outros anos também foram resistência.

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