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Educação e folclore nas trilhas do turismo pedagógico

Vagner Luciano de Andrade

 

No âmbito da complexidade humana existem valores que identificam, complementam e diferenciam a especificidade de territórios e culturas: festas, solenidades, tradições. O folclore, a gastronomia e o artesanato são algumas das muitas expressões da existencialidade humana. Como experienciá-los e transpô-los às pessoas alheias às realidades nos quais se materializam? O turismo pedagógico pode ser uma ótima possibilidade de ofertar de maneira ética e sustentável essas máximas da comunidade humana.

Quando se concebe o território turístico como recurso pedagógico é indispensável analisar os diferentes fatores histórico-culturais e suas influências na atividade turística. Um espaço turístico apresenta diferentes atrativos, recursos e valores inseridos no âmbito do patrimônio histórico e cultural. O Brasil é uma riqueza e diversidade no que se refere ao patrimônio arqueológico, paleontológico e posteriores releituras arquitetônicas da denominada barroco europeu cuja concepção cultural foi influenciada pela colonização portuguesa. Os fatores culturais englobam uma ampla variedade de recursos monumentais, museísticos, gastronômicos, arquitetura popular, artesanato e festas sintetizados, em grande parte, nos âmbitos geográficos de paisagens naturais e/ou humanas, em diferentes recortes urbanos e/ou rurais.

O folclore abrange culturalmente todas as manifestações tradicionais, aspectos religiosos, de economia produtiva, esportivos, gastronômicos, sociopolíticos e, muito frequentemente, lúdicos que caracterizam determinado grupo humano.  Na atual sociedade urbano-industrial capitalista, muitas das manifestações folclóricas, usadas como formas de reafirmação de culturas, genericamente conhecidas como festas, desapareceram ou se modificaram principalmente por se oporem as ideias de homogeneização e personalização cultural oriundas da massificação, da aculturação e da globalização. Podem-se diferenciar vários tipos de festas tradicionais que se tornam turísticas, com destaque para Carnaval, Corpus Christi, Natal, Santos de devoção local e Semana Santa. Festejos e folclore são então recortes pedagógicos de um lugar a serem experienciados.

Um novo olhar sobre as características folclóricas regionais.

 

No folclore é possível enveredar-se educativamente por muitas trilhas existenciais e fenomenológicas: asfalto, terra, mata e água são alguns dos caminhos educacionais perceptivos possíveis. Pelas Trilhas do Asfalto e suas diferentes paisagens urbanas, percebemos os caminhos que nos conduzem à Cidade, como espaço que acolhe e educa para a Diversidade Cultural através das tradições, do patrimônio, da memória, da oralidade e do folclore. Um exemplo, é o “Arraiá de Belô”, em Belo Horizonte/MG, onde a quadrilha nos leva às nossas origens rurais povoadas pelo imaginário popular: Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Saci-Pererê. Pelas Trilhas da Terra, e suas incontáveis paisagens rurais, meditamos no imaginário e na sabedoria popular dos saberes e fazeres camponeses, indígenas e quilombolas que nos relacionam com a terra: o adobe (pau-a-pique), o cultivo, o sotaque, o fogão à lenha, a gastronomia nos remete à riqueza cultura mineira e à preservação de nosso folclore.

Pelas Trilhas da Mata, e seus múltiplos elementos bióticos, podemos pensar no folclore a parir do saber medicinal, do conhecimento ecológico e etnográfico de plantas aromáticas, condimentares, medicinais, simpatias, rezas e benzições. Pode-se refletir na ancestralidade e na conexão com a mata, ecossistema mantenedor da qualidade de vida. Vamos lembrar saudosos, da história do Curupira, em suas tarefas de proteção da fauna e flora e entendermos sua releitura na contemporaneidade urbano-industrial capitalista. Pelas Trilhas da Água, viajamos no folclore e na imaginação dos povos de todo o mundo: a simbologia do Batismo para os cristãos, a água como elemento da integração e da purificação. Símbolo de sacralidade, de ecumenismo, de diálogo entre diferentes tradições. Água que circula todo o planeta, num ciclo sem fim que une Oriente e Ocidente numa única conexão. Vamos lembrar-nos de histórias como Caboclo d’água, Iara, a Dança da Chuva dos indígenas norte-americanos e a lenda da vitória-régia dos índios amazônicos.

Aspectos didáticos-pedagógicos do folclore em diferentes partes do Brasil.

O folclore nos levar a educar-se pelos sentidos: ver, ouvir, cheirar e experimentar novos saberes e sabores. A gastronomia, ou seja, o sentido e a forma de alimentação é considerada um valor turístico, por consolidar diferentes níveis e fatores culturais e territoriais, identificando unidades geográficas e espaços regionais. Pratos típicos são concebidos, materializando saberes e técnicas a partir de aspectos geofísicos do cotidiano. Quanto ao artesanato, este apresenta valores similares aos descritos na arquitetura popular quanto ao uso turístico atual e potencial pedagógico. Nesse ponto de vista, o artesanato tem um grande efeito educativo na atividade turística, pois representa obras únicas ou não que é expressões dos diferentes jeitos de ser/estar de determinado lugar. Por artesanato entende-se aquele produto, feito à mão, com uma repetição de produção e que na origem tenham função utilitária. É dos poucos elementos tangíveis que o aluno-turista leva para casa como lembrança da estadia.

 

A ruralidade e a historicidade de cada prato regional.

O artesanato retrata elementos de empoderamento e ancestralidade ao perpetuar modos de vidas, conhecimentos e fazeres repassados de geração em geração. Outro elemento relevante refere-se ao existencialismo impregnado em cada peça produzida. No trabalho manual finalizado vai um pouco da pessoa que o produziu: seus pensamentos, angústias, expectativas e decepções. Trata-se de um fator que sofreu uma grande reconversão e um renascimento como fruto do turismo, no sentido de que as peças tradicionais se adaptaram ao consumo turístico ampliando percepções e valores. Com a consequente revalorização e o renascimento da cultura dos souvenirs, o turismo ajudou a recuperar artesanatos que se perderam, recuperando identidade perdidas. Assim o folclore, o artesanato a culinária no âmbito do turismo pedagógico educam e reeducam culturalmente para a percepção de múltiplos saberes e fazeres.

 

 

 

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