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É preciso parar

Combate entre rebeldes e legalistas na luta dos Afogados.
Exército Imperial do Brasil ataca as forças confederadas no Recife,durante a Confederação do Equador, em 1824.

Dalvit Greiner de Paula

“É preciso parar o carro da revolução!” afirmou a nossa elite política no início do século XIX quando o Império ameaçava degringolar com suas pequenas guerras das províncias contra a Corte. Eram os desejos das elites locais, formadas com a mentalidade dos capitães-generais que não se se adaptavam às ideias de província, legislação, poder legislativo e outros avanços liberais da época. Eram as lutas da casa, nos diria Ilmar Mattos, tentando se ajeitar para não perder o poder. O problema das elites é que tinha um povão que não estava nem aí para essa ideia de ser brasileiro e, na falta de diálogo, quebrava o pau na tentativa de achar o seu lugar, o que comer e uma forma de viver melhor.

Lá e cá, brigando do Rio Grande do Sul até o Pará, povo e elites locais não se viam no imperador ou nos regentes. Queriam se separar. Separações litigiosas que eram resolvidas com o corte de cabeças, no sentido figurado e no sentido real. A Corte, onde se fazia a política imperial, detinha o controle sobre as armas – econômicas, militares e legislativas – e, às duras penas mantinha o controle do Império. Era um horror pensar na fragmentação que ocorrera no restante da América Latina. A propriedade deveria ser mantida a qualquer custo.

Como dom Pedro I vinha perdendo o apoio e a luta contra essas os separatistas, as elites representadas na Corte resolveram tirá-lo do trono. Diziam que ele estava mais preocupado com Portugal que com o Brasil. Aceita-se qualquer desculpa. A abdicação ao trono deu aos brasileiros um rei brasileiro, dom Pedro II. Chamaram o movimento de Revolução do Sete de Abril tamanha a importância do fato. Era comemorado como a verdadeira independência do país. Revolução que as elites fizeram contra o rei que elas haviam colocado no poder. Já pensou como essa situação se encaixa bem em nossa política atual?

O povo? Esse continuava perdido nos sertões, buscando sofrer o mínimo possível para conseguir sua sobrevivência. Virava e mexia, esquentava a cabeça e pegava em armas – espingardas, garruchas, velhas espadas, lanças de pau, etc – para confrontar sua elite local que insistia em funcionar como os velhos capitães-generais da Colônia. Aquelas elites locais só conversavam com a elite imperial, ou seja, nunca se “curvavam” para ouvir as pessoas comuns, eleitoras, pequenos comerciantes e pequenos proprietários, fazedores e carregadores, mulheres, jovens. A História oficial deu conta de esconder todos eles, mas só no Rio de Janeiro, no ano de 1833, eles se levantaram mais de trinta vezes. Já leu sobre alguma no seu livro de História? Nem vai ler.

Era esse povo, que não encontrava um caminho para se apresentar e se representar, que se agitava cada vez mais em todo o país. Esse povo, considerado bruto e incapaz, não fazia parte da Nação, dita assim com letras maiúsculas, diferenciado por uma outra cor e uma outra cultura queria apenas isso: ser igual perante a lei, conforme determinava a Constituição. O movimento desse povo era chamado anarquia, no pior sentido possível. Eram atacados não em palavras ou atos, mas com fogo, pólvora e espadas. Um povo que queria uma outra independência para construir uma verdadeira soberania.

Sem ter como controlar esse povo, a elite disse para si: “É preciso parar o carro da Revolução”. Centralizar tudo e voltar ao que era antes. Era preciso concentrar esforços para impedir que o poder fosse tomado, fosse nas províncias ou no centro, das mãos da elite. E dessa forma, a elite concentrou todas as forças contra a anarquia, contra a democracia – ser democrata naquela época já era muito perigoso. Como hoje. O Império que tinha eleições demais precisava do contrário: eleições de menos, pancada de mais. Era preciso regressar à etapa anterior.

E regressamos. E continuamos a regressar. As frases feitas de nossa política são reações ao movimento popular em busca do poder político. Na década de 1830, era preciso parar o carro da Revolução; no fim do século XIX, ordem e progresso; três décadas depois, o povo não era um caso de política, mas de polícia; logo depois, nossa elite fez a Revolução antes que o povo a fizesse; em 1964, marchou com Deus e a família pela liberdade; em 1979, essa elite foi ampla e irrestritamente anistiada pelos crimes que cometeu contra o povo.

Quando, democraticamente, o povo começou a caminhar, seguindo todas as regras da democracia burguesa, foi alijado da possibilidade de continuar disputando sob as mesmas regras. Sintoma de uma elite que insiste em controlar o jogo, o Partido dos Trabalhadores foi “convidado” pelas Organizações Globo a voltar a campo. A elite, magnanimamente, quer que o PT volte às eleições controladas pelos seus como única forma de se legitimar no poder.

Pode jogar. Só não pode ganhar!

 

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