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Estudante Com Livros Na Mão – Element5 Digital   Unsplash

E agora? Tornei-me professora

Dina Mara Pinheiro Dantas*

Quando alguém afirma que a vida de um professor é fácil, é porque não a vivenciou! Vou relatar uma pouco da minha trajetória que me fez voar pelo Brasil à procura de realizar um sonho: ser professora universitária. Pois bem, resgatarei, em poucas linhas, momentos e reflexões de como me tornei professora. Voltando ao passado, ao passado mesmo, recuperei momentos da minha trajetória como estudante desde o ensino médio até aquele exato momento. Comecei me lembrando das minhas aulas no colégio durante o Ensino Médio em que eu sentia muita dificuldade em entender o conteúdo de alguns professores e, para isso, precisava da ajuda dos colegas da turma. Depois, já no último ano, prestes a fazer o vestibular, resolvi escolher uma profissão que poderia ajudar as pessoas a superarem seus bloqueios na escola, pois eu me considerava uma pessoa inteligente, porém com dificuldades em entender as aulas de alguns docentes. Encontrei na Pedagogia a opção de curso que me faria feliz e realizada. E assim foi feito. Tirei o primeiro lugar no vestibular. Foi como escolher o jogo e ser a primeira a jogar. Era a Educação a área de conhecimento escolhida para que eu conquistasse todas as fases para conseguir a vitória!

O curso foi de muita valia! As primeiras disciplinas me deixaram confusa sobre o que eu havia escolhido. Na minha cabeça nada fazia sentido! Estava em uma turma com mais 39 colegas. Os professores se apresentavam e iniciavam a aula sem muita interação ou explicação sobre a relação do que estava sendo abordado e o curso. Percebia que não se tratava de uma limitação só minha, mas de toda a turma. Assim, o primeiro semestre foi concluído. No segundo, já imaginava que algo semelhante fosse acontecer e se suportaria ficar decorando conceitos sem qualquer relação de sentido com o curso. Aconteceu pior do que eu imaginava! O reflexo foi notado na evasão de alguns colegas quando percebia que alguns professores nem sabiam o que estavam fazendo naquele espaço da docência. Assim, cheguei ao terceiro semestre do curso e a evasão continuava! Buscava ansiosamente entender o porquê de alguns professores interferirem negativamente no meu aproveitamento escolar. Foi nesse semestre, com as disciplinas específicas do curso, especialmente a Didática, que fui me apaixonando e entendendo o sentido dos conteúdos anteriores e a fundamentação que eles davam para traçarmos as habilidades e competências necessárias para a nossa formação docente. Tivemos uma miscelânea de professores, alguns bons e outros não, mas nenhum buscou nos explicar o currículo do curso e a importância e necessidade de termos esses conhecimentos como pré-requisitos para a formação. Assim, somente quando os professores pedagogos assumiram as disciplinas tivemos a clareza sobre a importância do caminho percorrido até então. Esse entendimento sobre a importância do conhecimento, adicionada a outros capitais culturais, como a pesquisa, estudos e línguas, monitoria e tudo mais que a universidade poderia oferecer, somaram à base da minha formação inicial. Em seguida, senti necessidade de pensar como seria a vida desse docente em um universo que chegava à escola, com computadores e internet. Se no tempo do colégio, utilizando recursos analógicos, ele (professores e professoras) sentiu (sentiram) dificuldade de transmitir, construir, quiçá mediar o conhecimento, imagine com as tecnologias que chegavam a todo momento à escola? Mesmo discutindo nas disciplinas que abordavam o uso das Tecnologias na Educação, de Currículo, de Didática e seus temas emergentes, como o meio ambiente e a tecnologia, não foi possível resolver essas lacunas. Após concluir o curso de graduação em Pedagogia, ingressei no mestrado em Educação Brasileira.

E vamos nós a mais uma etapa de recordação! Paralelo às disciplinas da graduação, eu fazia cursos de línguas e fui selecionada para participar de uma pesquisa. Essas atividades preenchiam todos os horários da minha rotina. Passava mais tempo na Universidade do que em casa. Lembro como tudo era prazeroso para mim. Eu amava tudo aquilo! Eu pesquisava os games e como eles poderiam ser utilizados como recurso pedagógico nas escolas com a chegada dos computadores. A construção docente passa por um processo de internalização de experiências vividas e com isso começa a fazer parte da nossa estrutura e formação. Adoro quando as coisas fazem sentido, a praxis! As questões foram resolvidas com o desenvolvimento de recursos que possibilitaram a utilização, por parte dos professores nas escolas e com os recursos do computador e da internet. Agora, eu havia se tornado mestra. Estudando sobre as tecnologias digitais e toda sua implicação na estrutura do currículo do curso de Pedagogia é que surgiu a possibilidade de prestar concursos. Esse processo é desgastante! Requer muita dedicação aos estudos: a elaboração de pontos, a organização do currículo, o planejamento das aulas para cada ponto (tema/conteúdo) que poderia ser sorteado. Acho que são poucos os que conseguem se manter bem durante esse processo seletivo. As pressões vêm de todos os lados, financeira, concorrência, familiar, dentre outras. É um processo doloroso, tanto para quem foi aprovado como para quem ficou de fora das vagas. Devemos ter humildade em reconhecer que todos aqueles que não tiveram a mesma oportunidade ou aprovação em concurso, não são profissionais inferiores a você. Hoje, diante de todos os desafios da carreira docente me pego pensando se todo esse investimento valeu. Foram anos de dedicação para me tornar uma professora universitária, mas não consegui ser efetivada em uma universidade pública. Agora me faço a pergunta: O que fazer com o Currículo Lattes? Se hoje, fora da rede pública, em muitos casos, vale mais uma indicação e não a sua qualificação. Priorizei o profissional ao pessoal e hoje estou passando de “futuro do país” para me tornar um “problema social”.

*Pedagoga com mestrado em Educação Brasileira na Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisadora do Laboratório de Pesquisas Multimeios Faced/UFC.


Imagem de destaque: Element5 Digital / Unsplash

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