Aleluia Heringer – Crianças Brincando

Do bicho-de-pé às marcas na alma

Aleluia Heringer

Dizem que a instituição escolar é a que menos mudou nos últimos cem anos. Concordo, no geral sim, mas os estudantes são completamente diferentes! Quem é mais vivido irá lembrar que as marcas e os problemas que acometiam as crianças eram: furúnculo; bicho-de-pé; berne; piolho; roxo na perna e braços; cicatrizes e marcas de pontos; braço e dentes quebrados. Fora a dor de pisar em “lagarta-de-fogo” ou de ser vítima de alguma “mamona perdida” vinda de um estilingue.

Reparem que todas essas doenças ou intercorrências falam de onde a vida acontecia: na rua, no caminho indo a pé para a escola ou no contato direto com a natureza. A casa era para tomar banho, comer e dormir. E os pais? Não faziam parte desse cenário, entretanto eram os guardiões dos princípios e das grandes regras. Diziam sem dizer: vai! Indicavam que os filhos precisavam sair e resolver seus próprios problemas. Para sobreviver nessa vida infanto-juvenil, a dispersão e a hiperatividade eram uma vantagem competitiva. Era preciso ser esperto e desembestado enquanto as fibras da coragem cresciam e nos capacitavam a cada dia para o enfrentamento da vida adulta.

Está aqui, a meu ver, a chave para o entendimento da mais drástica mudança que a escola tem vivido. Um número cada vez maior de crianças e adolescentes não mais traz marcas de vida no corpo. São filhas e filhos do monitoramento ostensivo dos pais, das câmeras, dos apartamentos e das casas com grades. Seus corpos estão sempre banhados e limpos, tudo está no lugar, só não têm histórias de aventura para contar. Ao contrário, é preciso fazer silêncio para ouvir os sussurros que saem do fundo da alma. É quando conseguimos notar a existência do tédio existencial.

Um professor do século passado seria totalmente ignorante em relação a todos os transtornos, espectros ou deficiências que chegam com as crianças. Eles também não entenderiam: o sedentarismo e o sobrepeso; nem a necessidade de tantos objetos e aparatos no entorno desse ser. Logo perguntariam o que significa aquele fio que sai do ouvido e que objeto é aquele que todos carregam o tempo todo.

Muitas coisas do tempo do bicho-de-pé precisavam mudar, só não poderíamos ter deixado para trás o nosso corpo. Ele é o meio por onde seremos atravessados e tocados pela experiência da dor, da frustração, da altura, do ritmo, da sensação do leve e do pesado, da percepção da visão difusa, da antecipação dos gestos, da autoproteção que previne uma queda ou para atravessar uma rua, da sensação de equilíbrio, noção espacial, e tantas outras sensações que nos conectam com o mundo, com as pessoas e com a gente.

Infelizmente, tem crescido entre nós um discurso de escola e de educação familiar que suprime a experiência que passa pelo corpo, bem como os espaços de sociabilidade. A infância não vale por si, virou uma mera passagem que dará acesso ao adulto “de sucesso”, provavelmente entediado e deprimido. No emaranhado de assuntos que nos interpela a pensar os rumos que a escola tomará no século XXI, a dimensão da experiência do corpo e das relações humanas precisa ser considerada. Não precisamos ter “bicho-de-pé”, mas está faltando às crianças viver aquilo que é próprio da infância para então poder contar as próprias histórias.


Imagem de destaque: ORHAN KAYA / Unsplash

This Post Has One Comment
  1. Que bom, Aleluia! Acreditava que só a minha família era doida. Nossa mãe, a guardiã das grandes regras, nos ensinou a viver na rua. Brincamos, vivemos, aprendemos, fomos meninos e meninas da rua em que moramos até hoje. Uma das experiências pedagógicas de minha irmã (aqui em casa somos muitos professoras e professores) é recriar as brincadeiras de nossa infância com as suas crianças. Para quê? Para aumentar-lhes a infância.
    Abraços!

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