Distúrbios sexuais na capital federal – “Tudo pequeno aí?”

Joaquim Ramos

Por curiosidade, realizei uma busca sobre os pronunciamentos da classe política brasileira em torno das questões da sexualidade. Queria saber se sempre falaram “merda” sobre o assunto e como as questões de gênero (incluindo o tratamento sobre as diferenças) apareciam nos discursos oficiais.  Havia adiado essa busca por falta de “saco”, até que recentemente o filho de uma figura importante da política afirmou que as Ciências Humanas servem apenas para ensinar como praticar o sexo anal, sem dor.  Tanta asneira como essa, fez crescer meu desejo de saber mais sobre o que essa turma já disse e está dizendo sobre o assunto. Pronunciamentos maldosos como desse rapaz me fazem acreditar que há algo muito esquisito e podre com os meus contemporâneos da política.

Ao fim e ao cabo, depreendi de minha pesquisa que em nenhum outro momento da nossa história, a sexualidade de homens e mulheres brasileiros serviu para escamotear de modo tão grosseiro os assuntos mais sérios da nação. Para além das questões sexuais – tão em voga no Brasil do atual governo – há incontestes interesses para deixar implícitas inúmeras mudanças que visam apenas apequenar o país. Por detrás de discursos com abordagens estranhas, os caras almejam arrasar a própria política e tornar o território brasileiro cada vez mais atrofiado em relação ao pensamento crítico. Querem um lugar pobre, desprovido de inteligência. Terra de ninguém. Deste modo, para alcançarem seus intentos, usam as redes sociais e disseminam falsas notícias ou qualquer coisa do tipo. Em especial, a intenção dessa gente é injetar veneno na população contra o Partido dos Trabalhos que, em seus 39 anos de existência, nunca foi tão caluniado e de maneira tão vil.

Penso que essa minha inquietude começou no momento em que um parlamentar – diga-se de passagem, pouco proeminente em suas funções “profissionais” – com fúria insana, disse que não estupraria uma colega de trabalho porque ela era feia. Obviamente, de modo algum, essa moça ameaçada merecia ser estuprada. Afinal, mulher nenhuma merece tratamento tão desonroso, especialmente quando essa ameaça parte de um representante do povo. Seria ele, um estuprador, em potencial, eleito com o voto popular? Estaria ele à espreita de uma parlamentar bonitinha para estuprá-la?

Instigado sobre essa questão, tendo em vista quem pronunciou tal impropério, cheguei a seguinte conclusão: o cara não estupraria nem essa moça, nem outra mulher qualquer. A razão é muito simples: somente por meio de verborragia ninguém é capaz de estuprar outra pessoa. Para consumar esse desejo, esse senhor teria, necessariamente, de possuir mais do que uma fantasia. Para este ato, não basta apenas querer. E nunca ouvi dizer que alguém estuprasse outra pessoa com a língua. Esta ameaça me pareceu coisa de falastrão! Ainda que pronunciamentos estúpidos consigam fazer outros tipos de estragos… dependendo do conteúdo pode acarretar danos irreparáveis. A partir destes pensamentos, cheguei a seguinte conclusão: ao ganhar as eleições, no plano simbólico, o cara não apenas estuprou aquela parlamentar, mas conseguiu, com sua política misógina, estropiar todas as minorias e, nesse grupo, todas as mulheres.

Minhas elucubrações não pararam por aí. Fiquei pensando na existência de uma sanha coletiva, de estuprador, disfarçadamente, habitando a mente de quem ajudou a elevar esse senhor ao cargo mais alto da política brasileira. Daí, me perguntei: o que pensam as mulheres que, mesmo sabendo que o sujeito gosta de ameaçar  e maltratar outras mulheres,  num explícito gesto misógino, ainda levantaram bandeira e o chamaram de m… Nem vou escrever essa palavra. Ficam as reticências, pois me recuso. Seria desonesto comigo mesmo. E os homens honrados, contrários à violência contra a mulher? Ou qualquer outro tipo de violência, incluindo as simbólicas, como as arminhas feitas com as mãos… De qualquer maneira, todos sabem que para estuprar alguém, não basta apenas uma ideologia, o sangue tem que ferver para acionar aquela outra parte do corpo. Cá entre nós, tenho duvidado que “aquilo” deste improvável estuprador seria acionado para cometer essa façanha! Puro show. Puro mico!

Pior, com essa ameaça, ele virou a bola da vez.

Depois de eleito, o suposto estuprador não parou com o desejo de estuprar o país. Para auxiliá-lo enfiou em uma importante pasta de seu governo, uma dona que só fala bobagem. Uma senhora com sérios problemas sexuais. Ao invés de buscar ajuda para os seus problemas mentais/sexuais, num momento de insanidade, essa dona afirmou que para ajudar às meninas da Ilha de Marajó que, em suas palavras, eram assediadas por causa de calcinhas, a saída pouco convencional proposta por ela foi a de levar uma fábrica destas peças íntimas para o território onde viviam as meninas. Pensa bem! É de rir até mijar nas calças! Pena que não se trata de algo nonsense, para um programa humorístico de tv. Ela falou com tal veracidade que “de cômico” foram apenas os comentários sobre o assunto. Uma triste verdade, por sinal. Esta senhorinha não parou por aí… diz cada uma que a gente pensa que ela está de zoação… mas ela leva o que diz a sério,  a coisa fica chata e ela totalmente sem noção.

Não fica somente nisso… como se não bastasse, o suposto estuprador da parlamentar, de modo pitoresco, fez piada com o pênis de um jornalista oriental. Rindo, ele perguntou ao moço “tudo é pequenino aí?”. Numa clara demonstração de superioridade. Será? O dele será maior ou, de novo, apenas desejo de ter um membro avantajado? Coisa mais sem lógica para falar num espaço público, com a imprensa presente, né não? Contudo, “deixemo de coisa e falemo da vida!”. Como divulgado num blog, o cara perdeu a compostura diplomática que o cargo exige, mas não perdeu a piada (sem graça, para variar).

Ou seja, para essa gente, é interessante evidenciar os problemas alheios. Sem qualquer tipo de altruísmo. Desta forma, a mulher não merece ser violentada porque é feia; as meninas da Ilha de Marajó são a causa do desrespeito humano; o outro é que tem o membro pequeno. Sempre jogando para o outro a causa da própria incompreensão de mundo. Contudo, por detrás de tantas “abobrinhas”, há um discurso de desconstrução. Assim, junto à falácia em relação à família brasileira, surgem os adeptos da “Escola sem Partido”, da “Doutrinação Ideológica”, da “Ideologia de gênero” e afins! No discurso miúdo (ainda lembramos-nos da tomada de três pinos?) e sem lógica, escondem as atrasadas mudanças que tendem a afetar a todos! Neste sentido, a dramaturgia e a arte teriam de dar conta de explicar estas esquisitices que aparecem em forma de eufemismos. Seria bom se conseguissem explicar. Bem… pensando melhor, acho que nem as pessoas envolvidas com  arte e com a cultura dão conta de entender tanta sandice. Ninguém consegue explicar essas bizarrices.

Estes protagonistas da nossa política estão envolvidos em outros tantos episódios relacionados à questão da sexualidade, mas parecem saber tão pouco da própria vida. Viraram piada de mau gosto. É tanto vexame que o mundo inteiro parece ter pena de nós, brasileiros. Estamos em meio a uma política extremista e miúda!

 Não bastasse, um filho do pseudo estuprador – aquele que dizem ter uma relação homo afetiva com um dos “primos” (pelo menos, é isso o que dizem – o que também pouco importa) este menino também gosta de fazer piada com o ânus alheio. Seria legal demais poder falar em amor (entre iguais) em meio a tantas babaquices e banalidades, contudo, para não perder a chance de ficar calado, em recente rompante de maldade, esse filho do suposto estuprador afirmou – em declarada depreciação dos cursos de Ciências Humanas – que o pai investe em mais recursos para pesquisas de verdade e não em pesquisas que ensinam como queimar a rosca sem sentir dor. Assim, fica difícil!!! É o fim da picada!!!

Com tantos problemas sociais a serem resolvidos, o gerenciamento do país passou para as mãos de quem tem enormes problemas sexuais. E o pior, esses problemas dominam a agenda pública do país. Analogias como essa, feita por este rapaz, é tacanha demais. Que curso superior este cara tem para atacar as Ciências Humanas? Melhor deixar isto também para lá.

Enquanto isso, para não deixar a leveza da poesia esquecida – pois esses caras detestam tudo que fala de amor e de arte – podemos nos deliciar com o Poeminha do contra, de Mario Quintana:

Todos esses que aí estão/
Atravancando meu caminho,/
Eles passarão…/
Eu passarinho!


Imagem de destaque: YouTube/Reprodução

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *