Desperdícios de infância nos achadouros de Manoel de Barros – exclusivo

Sandro Vinicius Sales dos Santos

Joaquim Ramos

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas (BARROS, 2015).

Embriagados pela poética de Manoel de Barros – e pelas formas singelas de (des)escritas de quem se pretende apanhador de desperdícios – nós também, como mensageiros de coisas simples, procuramos incansavelmente por espaços de sociabilidade (e por que não, sensibilidade?) das crianças. Nós que já fomos crianças, ao lermos esses fragmentos poéticos os percebemos como se recebêssemos uma sacudidela das mãos do poeta, com gosto de infância (recheada de lembranças do menino pantaneiro). Com sabor de saudade, esses versos nos tocam e ao saboreá-los, indagamos sobre como acontece e em quais espaços de convivência está circunscrita a criança dos tempos modernos. A resposta, espasmódica e conhecida, também nos incomoda, como algo que não deveria ser, como um soco “na boca do estômago”. A criança de hoje se encontra em entre lugares, isto é, em muitas partes e em lugar nenhum. Em alguns casos, perdida por aí e necessitada de achadouros.

Ao rememorar experiências que lhe foram narradas pela negra Pombada – descendente de escravos do Recife como ele insiste em nos lembrar – o poeta nos diz que os achadouros eram buracos feitos por holandeses nos quintas de suas residências quando da sua retirada do Brasil. Tais buracos tinham como objetivos guardar os tesouros dos estrangeiros que aqui residiam. A partir dessas lembranças, ele problematiza o que seria, em sua leitura lírica da vida das crianças, os achadouros de infância. Aqui, importa-nos problematizar, antes de qualquer coisa, os encontros geracionais (entre o menino Manoel e Pombada – mulher adulta que lhe narra tais experiências), ou seja, a forma como as experiências de crianças e adultos historicamente se entrecruzam para a transformação de ambos.

Quando juntas, as crianças coletivamente instituem, (des)instituem e reinstituem, vertem, revertem e subvertem, produzem e reproduzem a cultura societal em que estão inseridas. Isso consta nas escritas de um amplo grupo de teóricos das ciências sociais e humanas da atualidade e, para muitos deles, o modo singular das crianças ocuparem o mundo é evidenciado em formas de tratados e pesquisas. Assim, achadouros de infância eram (e ainda podem ser compreendidos como) todas as descobertas que as crianças realizavam e continuam realizando quando se relacionam entre si, e na interação com os adultos, com a cultura, com a natureza. Essa capacidade das crianças tem recebido, na contemporaneidade, diversas nomenclaturas: culturas da infância; cultura de pares ou cultura infantil, dentre outras tentativas de conceituação da experiência social de meninos e meninas. Todas essas formas conceituais são unânimes em evidenciar a capacidade das crianças de perceberem o mundo natural e social em seu entorno e de se relacionarem com ele. Nesse movimento, as crianças nos informam suas experiências por diversas vias – e não somente por via da linguagem oral – com a destreza de quem “não gosta de palavras fatigadas de informar”.

Manoel de Barros, com perspicácia, sabedoria e sensibilidade de quem se propõe a narrar a vida de meninos e meninas pelas lentes da poesia, percebe nas crianças a capacidade de fazerem o verbo se desgarrar da lógica, num misto de criatividade, ludicidade e mimese, levando-o, desse modo, a pegar delírio:

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.

E pois.

Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer nascimentos —

O verbo tem que pegar delírio (BARROS, 2015)

Com a potência, compreendida, aqui, como um misto de inocência e bravura, de quem possui a capacidade de fazer delirar os verbos – isto é, de quem brinca com a linguagem (e com a cultura) – a criança se projeta no mundo simbólico e permite que sua experiência seja lida pelo outro – num simples e belo exercício de alteridade. Desse modo, podemos compreender os achadouros de infâncias como as descobertas culturais que as crianças realizam na interação com o mundo (natural e social, tanto em seus aspectos matérias quanto simbólicos). Podemos, ainda, compreender os achadouros como a capacidade dos adultos “lerem” – como quem lê uma poesia – as narrativas das crianças. Ou seja, os achadouros de infâncias surgem quando os adultos aprendem com as crianças, com as suas experiências, com o seu linguajar, as formas de redesenhar o mundo de maneira simples. Portanto, os achadouros são, por parte dos adultos, a possibilidade da descoberta de grandes tesouros escondidos na criança – por vezes, na própria criança que eles mesmos foram um dia.

Outra maneira de compreender e dar sentido aos achadouros de infâncias encontra-se nos espaços de sociabilidade e de convívio de crianças – que têm, na contemporaneidade, sofrido transformações radicais e aligeiradas em suas formas de vida e de interlocução com a cultura – vide, a interatividade com os espaços virtuais. Os achadouros de crianças estavam, em outrora, espalhados pelos quintais, pelas ruas, pelas ladeiras – com carrinhos de rolimãs morro abaixo – pelas praças, pelo pomar, pelas multifacetadas formas de conceber o mundo. Dessa maneira, os quintais – todos eles – eram maiores, muito maiores do que a nossa “vã filosofia” poderia sonhar. Neles, haviam tesouros escondidos por todo canto. Ainda assim, não conseguiam ser maiores do que a cidade – essa, para nós, crianças, traduzia a clara representação grotesca do incognoscível… mas os quintais, ah, os quintais… eram os territórios conhecidos e seguros, extensão da própria imaginação.

Na atualidade, pelo o que nos consta, os espaços de sociabilidades infantis têm diminuído cada vez mais. Uma grande parcela de crianças não ocupa mais os espaços públicos. Em comparação com outros tempos (até recentes), é insignificante o número de meninos e meninas nas brincadeiras de ruas – em função, dentre outros fatores, da violência e de tudo aquilo que se quer e pode intitular de inominável e que afeta, em maior ou menor intensidade, os grandes centros urbanos, as pequenas cidades e suas áreas rurais. Brincar tornou-se perigoso? O melhor é deixar os achadouros serem desvelados pela tela da televisão e do computador? Não há mais necessidade de tocar a terra com os pés, com as mãos, com os sonhos? Parece pouco importante deixar o tesouro escondido onde ele se encontra. As telinhas – sejam quais forem – cumprem os papéis de desvendar os mundos, de reconfigurar os sonhos e de obscurecer nossas potencialidades de comunhão com a alteridade. Os quintais – quando existem – tornam-se cada vez menores e muito mais enigmáticos. Quando estão lá, aos olhos de muitas crianças, transformam-se em espaços insondáveis e amorfos.

Ainda assim, como propagadores da esperança, não perdemos a crença de que os tesouros escondidos nos achadouros ainda se encontram em espaços de socialização infantil. Mesmo que as mudanças radicais ocorridas na contemporaneidade queiram trancafiar a vida. Elas (a vida e a infância) ainda pulsam em quintais desabitados de fantasias e sonhos. Mas pulsa e…

“Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa” (BARROS, 2015).

E nesses tempos de tecnologias mil, se cavarmos um buraco até o mouse de um computador, lá estará um guri a clicar pelo cyberespaço; se cavarmos até um smartphone, lá estará um guri a dominar um novo aplicativo… não nos importa; o que nos interessa é saber que, de uma forma ou de outra, as crianças continuam a reconfigurar os seus achadouros.

Afinal, nos constituímos na e pela palavra e, com a mesma inteireza de criança que aplica o verbo escutar à cor dos pássaros, tentamos nesse texto fazer “o verbo pegar delírio” e habitar entre nós.

*Os poemas aos quais fazemos menção se encontram reunidos em uma antologia recente do poeta. A esse respeito ver: BARROS, Manoel de. Meu quintal é maior do que o mundo. 1ª. ed. – Rio de Janeiro : Objetiva, 2015.

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