Alexandre Vaz – Defender A Razão, Ocupar A Polis – Thiago Rosado – Bandeira Do Brasil

Defender a razão, ocupar a Polis

Alexandre Fernandez Vaz

A democracia nunca foi no Brasil um bem de grande valor. Foram poucos e geralmente periclitantes os períodos democráticos de nossa República, e não é casual, embora lamentável, que com tanta frequência se coloque em dúvida sua pertinência. Fica muito difícil manter os debates e as práticas políticas se a todo momento é preciso reafirmar a necessidade de um regime não autoritário.

As práticas democráticas demandam liberdade de opinião, respeito à diversidade, ampliação de direitos consolidados, invenção de novos. Disso deriva que uma posição que coloque em jogo as próprias bases da democracia não é legítima. Assim, afirmações racistas, homofóbicas ou machistas, por exemplo, não podem ser toleradas, já que qualquer uma delas vai na direção contrária à convivência democrática. Da mesma forma, é absurdo que se tolere, em ambiente que se pretende democrático, a defesa da ditadura e da tortura como práticas legítimas – ou, ainda pior, que se digaque tanto ditadura quanto tortura, ou não existiram, ou foram obra de eventual excesso.

À situação acima se junta à proliferação de gritos e sussurros nas redes sociais. Potencializados por celulares e tablets, computadores e outros aparatos a produzir novas e complexas subjetividades, os gritos podem dizer qualquer coisa a qualquer momento, sem grandes responsabilidades, como se todos (e não se sabe bem quem são todos) estivessem em torno de uma mesa de bar. O maior problema, no entanto, é uma das formas de especificação desse processo, que é a disseminação de falsas informações e de mentiras. Entre as várias consequências de tal propagação, está a necessidade de constantemente desmentir, corrigir, contra argumentar, empreendimentos que amiúde se mostram inúteis, visto que o pensamento vem perdendo força e o convencimento não se dá com ênfase na consciência, mas nos afetos e identificações. Isso dificulta sobremaneira a construção de pauta e de agenda construtivas, de um projeto alternativo ao que vivemos hoje, já que parece que nossa energia é drenada para a resistência e a crítica. Os sussurros, por sua vez, são os mexericos e as informações privilegiadas, cujo cultivo é um dos nossos esportes nacionais. Deles estamos sabendo por meio de uma situação exemplar, estampada todos os dias nos jornais. Ela é estarrecedora.

Por isso tudo e por muito mais há que se exercitar a defesa da democracia, ação que passa por muitas práticas possíveis. Nunca foi tão importante apostar na razão e na ciência, já que se diz que a escola deve ficar à mercê das crenças privadas, que a Terra talvez seja plana, que a vacinação é perigosa, que a temperatura global não vem aumentando. Se a defesa e o cultivo da razão são fundamentais, é preciso que mais gente saiba disso, incorporando de forma mais decisiva a ciência como modus operandi da escola e da formação de professores, mesmo que seja o discurso científico merecedor da crítica mais radical – crítica que deve ser feita nos marcos da razão e não do obscurantismo. Um passo a mais em direção a todos os seguimentos sociais, em especial aos de estrato de classe mais baixos, deve ser dado pela Universidade: mostrar que o conhecimento não é algo das elites – de intelectuais, de funcionários públicos, do que seja – para as elites, sejam estas quais forem. O conhecimento tem que ser, em uma democracia, de todos.

Socializar o conhecimento, acolher novos atores no processo de sua produção, reconhecer-lhe como direito, são passos importantes para ampliar o espaço público, tornar a Polis um lugar de todos. Mas é preciso muito mais, como, por exemplo, ocupar as ruas. Por isso, amanhã, sexta-feira, 14 de junho, é dia de retomar a cidade, fazer de corpos e vozes política de resistência. Seria dia de trabalho, mas é preciso parar, juntar-se na solidariedade de trabalhadores e trabalhadoras, de todos os grupos sociais irmanadas na luta democrática e republicana. A desobediência civil, a Greve, é parte essencial da vida democrática, e é movimento acionado quando as condições assim o exigem, ao se observar que a resposta deve ser forte, tanto ou mais do que a agressão sofrida. E a violência contra a democracia neste país não tem sido pouca.

É, portanto, momento de não perder a hora.


Imagem de destaque: Thiago Rosado

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