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Crise e sintomas

Alexandre Fernandez Vaz

Na tarde de dezoito de maio, uma quinta-feira, quando o presidente “em exercício” Michel Temer fez um pronunciamento à Nação por meio do qual negou seu envolvimento na interminável cadeia de negociatas e corrupção que constitui a medula da “política” entre nós, eu estava no Café do CFH, o Centro de Filosofia e Ciência Humanas da UFSC. Entre aulas da graduação e da pós-graduação, conversava com um orientando quando, de repente, um grupo expressivo de alunos se juntou próximo à televisão. Volume aumentado pelo atendente, aparece na “telinha” a imagem do ex-vice que, esperavam todos, estava próximo de se tornar ex-presidente. O coro reagia às gargalhadas e vaiando o conferencista. Havia mesmo algo de bizarro no velho político cuja imagem, segundo seu próprio marqueteiro, não teria sido utilizada com frequência nas campanhas presidenciais por sugerir relação com o “satanismo”. Golpeando a mesa para dar ênfase à suposta indignação, o síndico do condomínio de poder (tomo emprestada a ótima metáfora de Marcos Nobre) parecia não convencer nem a si mesmo. Golpe por golpe, um lembrou o outro. Mais ou menos como descrito no Dezoito Brumário, mas agora tudo como pura farsa.

​Temer não anunciou a renúncia que todos ali esperavam. Certo desapontamento tomou conta do grupo que foi se dissipando naquela tarde nublada que, mesmo assim, convidava ao Bosque logo ao lado. Parece que ficou, no entanto, um pouco de esperança. A ingenuidade é uma (às vezes bela) marca da esquerda festiva. Anistia, Diretas Já, Lula Lá, finalmente um operário na presidência…sempre se renova a esperança, como o bar do livro de Antônio Callado. É da tradição do Socialismo apostar na utopia, já que outra face política do Iluminismo, o Liberalismo, há longo tempo dela desistiu. O problema extra é que muitos também desistiram do Socialismo. Em país tão perverso como o Brasil, em que a democracia não goza de boa reputação e o republicanismo é apenas uma palavra distante, sim, é preciso não ter medo de ser “anacrônico”: Democracia, República. Anticapitalismo, Socialismo.

​Suponho que houve otimismo exagerado em relação aos avanços que tivemos na década de Lula. Não me refiro apenas à expressiva melhoria nas condições de vida de um contingente enorme de pessoas que saíram da miséria, algo que, no mais das vezes, poderia ser encampado por políticas liberais democráticas – de certa forma, elas foram isso mesmo, nunca chegaram a apontar para uma reforma social de fato, muito menos para uma transformação. As mudanças na cultura política também pareciam ter alguma expressão e, de fato tiveram, principalmente, e seguindo uma tendência do mundo ocidental, no que se refere a grupos com representação social insuficiente. Bastou, no entanto, que as condições se dificultassem um pouco, o que inclui a investigação dos crimes de corrupção, para que o desmonte, coincidente com a emergência do potencial fascista algo adormecido, começasse. Ações preconceituosas de todo tipo ganharam corpo e uma certa “classe média” se sentiu revigorada no que lhe parece mais importante: não ser confundida com os “pobres”. É sintomático que o ímpeto direitista tenha se acanhado com as notícias das últimas semanas, inclusive entre jornalistas da “grande” mídia. É impactante que uma de suas protagonistas afirme ter conversado com o “espírito” de Tancredo Neves.

​O clima entre os “progressistas” não tem, de qualquer forma, sido dos melhores. O partido que fez uma parte expressiva da população supor que o futuro enfim chegara, não consegue explicar, muito menos justificar, muitas de suas práticas, algo fundamental para a vida pública. Nos círculos de esquerda vige a desorientação e o sentimento de desamparo. Parece haver, aqui e ali, duas situações sintomáticas desse mal-estar. A primeira é o aprofundamento do fanatismo esquerdista, cujo desserviço– com consequências desastrosas para a Universidade – para o desenvolvimento de uma perspectiva de fato crítica é amplamente conhecido; a segunda é uma espécie de estado bipolar, que vai da euforia por novamente se detectar claramente um opositor (algo suspenso nos governos de coalizão liderados pelo PT) à anomia e à busca de respostas meramente individuais, esotéricas e sentimentalistas. Não há política que resista a isso.

​As crises, mesmo que sejam às vezes desesperadoras, costumam ser um convite a novas perguntas e a novas práticas. Ao que parece, uma esquerda que leva a sério sua tradição, mas especialmente que enfrenta as questões do seu tempo, se está novamente gestando. Façamos isso com interesse e calma, com decisão e autocrítica. Uma desesperançada esperança, como propôs Adorno. Lembremos que Temer, Cunha e tantos outros com quem a esquerda se meteu já eram conhecidos de longa data. Não foram mera ingenuidade as alianças, nunca programáticas, com essas forças retrógradas. Tática por tática, deu no que deu.

​Um texto cheio de aspas, este meu. “Satanismo”, “conversa com mortos”. Uma nação entre aspas. Não dá mais.

São Paulo, junho de 2017.

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