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Cotas como pretexto (2) – exclusivo

   Juca Gil

Seguindo o raciocínio desenvolvido em artigo da edição 77 do Boletim Pensar a Educação em Pauta vamos para o ataque, agora adentrando o terreno pedregoso das hipóteses, das suposições, beirando a futurologia. Mas refletir sobre prognósticos também exige correr esse tipo de risco, e como tenho boa intimidade com os erros vou seguir roçando minhas mãos neles.

Não tenho ilusões de que o cumprimento da nova legislação sobre cotas nas universidades será pacífico ou tranquilo. Reservar metade das vagas para ingressantes nas instituições federais aos estudantes oriundos de escolas públicas é realmente uma mudança radical. Isso atingirá ao menos dois grupos: a academia, representada por professores e funcionários; e as classes médias e altas que ambicionam as vagas das instituições federais para seus filhos. Os que se sentirem atingidos não ficarão quietos, cordatos e vão se mexer.

Na academia os conservadores não engolirão o fato de terem que educar o povão, em especial nos cursos mais tradicionais e elitizados, basicamente porque isso exigirá que a universidade se adapte ao novo público. E os conservadores acadêmicos só aceitam que o mundo – e em particular os estudantes – se adapte a eles, não o contrário.

Estas pessoas estão acostumadas a trabalhar com gente que teve muito suporte para se formar, passou pelas melhores escolas, teve acesso a cursos de idiomas, professores particulares, estudou em cursinhos, além de ter experiência e vivência sociocultural das classes dominantes, como viagens de férias pelo Brasil e pelo exterior, TV paga, jornais e revistas de grande circulação, teatro, cinema, clubes, dedicação integral aos estudos, ‘paitrocinadores’ etc. E não aturarão ver o status de seus estudantes cair drasticamente, tendo que educar pessoas que não compartilham dos mesmos padrões, linguagens e lógicas de ver e estar no mundo.

Os boicotes já estão ocorrendo e temos que nos preparar para muita sabotagem. Uma excelente estratégia é e será colocar esse povo todo pra dentro e fazê-los perecer. Sem moradias estudantis suficientes, restaurantes universitários, bolsas de estudos (para garantir renda!), transporte gratuito, recursos para materiais, equipamentos, livros e outras necessidades básicas para sua manutenção, essa moçada terá que se virar sozinha na jaula dos leões, o que é prenúncio de desastres.

E claro que os beneficiários das cotas não sofrerão apenas com as omissões por parte dos membros reacionários da academia. O preconceito, a discriminação e o ódio por estarem ali também se manifestará em ações, em olhares, em dar de ombros e até pelo bullying tanto de colegas quanto de professores. E serão vítimas dos mesmos moedores de carne já em funcionamento há tempos: currículos travados, montados para estudantes ideais, cheios de pré-requisitos, com regras que punem quem não anda na linha reta e pouco flexível traçada pelos cursos, avaliações tacanhas, conteudismo, professores sem didática alguma, arrogantes etc. E depois de tudo ainda vão ouvir: “tá vendo, isso aqui não é o teu lugar”.

Por outro lado, os papais e mamães das classes médias e altas também irão à luta para retomar o privilégio de disputar em condição de “igualdade” com outros candidatos – representantes da maioria da população – que tiveram uma escolarização estatal tão desigual e inferior, ao menos sob o prisma do que é requisitado por vestibulares e ENEM.

Esse caldo de atos de ataques e defesas pode gerar o que chamo de “efeitos colaterais” das ações afirmativas. Seriam alterações que não compõem o escopo de objetivos das propostas em implantação com as cotas. Neste artigo vou tratar de três potenciais efeitos inesperados que podem ter enormes impactos, na verdade até muito mais expressivos do que as ações afirmativas em si.

Um primeiro efeito colateral (não em ordem de surgimento – apenas de minha lista argumentativa) seria derrubar o ENEM e os vestibulares. Levanto a hipótese de que a desconstrução proporcionada pelas ações afirmativas, detonando a máxima de que as citadas avaliações tradicionais são objetivas e isentas, pode abrir espaço para se pensar estruturas inovadoras de ingresso no ensino superior, questionando a noção vigente de mérito. Por exemplo, os arautos da meritocracia, os Estados Unidos, usam um leque muito mais abrangente de critérios para a alocação de vagas universitárias. Por lá o histórico escolar é essencial; a inserção sócio política conta (participação em associações, agremiações, trabalhos comunitários e voluntários etc); as atividades artísticas e esportivas são relevantes; os contatos acadêmicos e o reconhecimento junto a professores, diretores de escolas e outras autoridades são analisadas, dentre outros aspectos – todos desconsiderados em absoluto no Brasil. Não estou dizendo que nos transformaremos no Tio Sam acadêmico do hemisfério sul. Lembro apenas que é possível e legítimo pensar outros critérios sem ter que inventar a roda.

Um outro efeito colateral seria magnífico – e proponho desde já a campanha: Educação Superior Pública como direito de todos! Sim, de acesso universal, gratuita, laica, democrática e com qualidade social. Quem encabeçaria essa campanha? As classes médias e altas cujas vagas foram drasticamente reduzidas pela adoção das cotas. Essas sofrerão ao acompanhar seus filhotes penar muito mais do que atualmente para “disputar” um lugar nas melhores instituições educacionais. Então, ao invés de brigar pelo cobertor curto que tal exigir cobertor para todos? Seria irônico que interesses estritamente privados impulsionassem a ampliação de direitos universais, mas…a história também é composta de ironias.

O terceiro efeito colateral me faz perder o sono – de felicidade. Seria uma brusca valorização das escolas públicas de educação básica em médio prazo. Como? Outra vez ironia do destino… A classe média – e até parte da classe alta – voltaria a estudar nas  escolas públicas. Por que fariam isso? Oportunismo escancarado. Entre verem seus filhos naufragarem na tentativa de disputar parcas vagas universitárias federais na mesma arena das escolas de elite os pais da garotada leite A preferirão tentar a sorte entre o grupo dos desvalidos, onde a concorrência poderá os favorecer. E como isso melhoraria a escola pública? Tenho a impressão de que eles não gostarão do que vão encontrar e passarão a disputar qualidade para estas escolas, vão pressionar os poderes públicos, reclamar mais na imprensa e na justiça, se organizar para botar de pé a escola dos seus filhos! Que será também a escola de suas empregadas… Taí um sonho de escola republicana que me faz delirar.

Admito que esse artigo pode ser considerado um delírio absoluto, repleto de insanidades e utopias. Mas assumo minha inspiração em alguns malucos beleza da humanidade: Galileu, Gandi, Da Vinci, Darwin, Mandela, por exemplo. E tenho duas vantagens sobre estes: não sou gênio – logo tenho mais direito a dizer bobagens – e também não estou inventando nada novo! Daqui a alguns anos voltamos a conversar e ver no que deu.

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