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Ivane Perotti – Confrarias – Quadro Negro

Confrarias – visões sobre a etimologia das palavras conchaves

Ivane Laurete Perotti

 

 

_ Cum chaves…

_ Fulano! Atenção à forma escrita!

_ Não perciso escrevê, professor. Tamo tudo ligadude um tudo!

_ Nem tudo…

_ … tudo! Inda mais agora!

_ As ideias devem ser suas, Fulano. Suas ideias! Sua escrita! Palavras suas…

_ Minhas? Ah! Tá de zorra!

_ Ter palavras que representem o seu pensamento, as suas ideias é import…

_ Nem isso percisa, pró! Nem isso… os compadre pensa por nóis!

_ Como é? Seus padrinhos?

_ Que padrinho, meu! Os cumpadre…entendeu?

_ Não!

_ Voano, né profes!?

_ Não compreendi a quem você se refere.

_ Tá vendo? Adianta sabê a fórmula?

_ Forma…forma padrão da escrita…

_ Pois é, a fórmula não vale…é psor e num sabe!

_Vamos começar do início?

_ Bora!

_ Quem são os compadres?

_ Os mano, véi! Tá ligado?

_ Não… não entendi…

_ Intendê, ocê intendeu, né psor!? Não qué é si compremetê, né?

_ Já estou comprometido. Escolhi esta profissão.

_ Aí que tá o erro, mano! não iscoieu nada… eles iscoieram ocê, sacô?

_ Hum…não é bem assim!

_ Mais pió do que ansim…

_ Não podemos simplificar as questões.

_ Qui questão?

_ As questões da vida, da profissão que se desenvolve.

_ Vai me dizê que se ocê tivesse nascido bom di bola não ia virá o…o…

_ Eu sou bom de bola, você sabe disso. É o meu esporte favorito. A minha profissão…

_ … foi o qui deu prá ocê fazê!

_ Não! Eu tive outras opções! Ser professor é uma escolha!

_ Voceis tudo diz a mesma coisa!

_ Por ser a verdade…

_ Não simprifica, psor.

_ Voltando… a palavra “compadres” significa “padrinhos” e…

_ Cumpadri, cunfradis…tudo dá no mesmo!

_ Você conhece o significado da palavra “confrades”?

_ Óbvio…nóis tem fé, ó profe!

_ Não… não…você está confundindo com uma…

_ As palavra é tudo ingual… servi prá fala i servi prá iscrevê!

_ Correto! Isso mesmo! E existe uma diferença entre…

_ … entre quem fala: elis e quem ôvi: nóis

_ Não gosto de sua forma de simplificar as coisas, Fulano! Precisamos ter entendimento sobre as relações e discutir os fatos. Aprender a escrever é fundamental.

_ É não!

_ Argumente sobre isso, por favor. Me convença de sua ideia.

_ Tamo aí! BH é nóis!

_ …

_ Sim! E…

_ Tamo aí!

_ Qual o seu argumento para…

_ Ó profe! Quem argumenta não é nóis…nóis só faiz!

_ E faz o quê?

_ Que nem ocê… o que pintá!

_ Certo! Vamos por aí! Então… se você pudesse fazer outras escolhas, o que estaria fazendo agora?

_ Ah! Nem! Tá pareceno cufradi, agora? Essas quebrada de psicólugu? Ah! Nem!

_ Isso! É isso! Você percebeu? A língua falada provoca…provoca esse tipo de…

_ Provoca mermu! Nuuu! Ôtro dia, já qui ocê mudô de assunto, psor...

No final da noite, o professor procurava os espaços de sua alma na dobra do quarto direito da lua crescente. A face cansada escondia um bolsão de palavras sem chaves, prontas para driblarem a goleada em sala de aula. Anotara no fundo dos olhos: as palavras são traiçoeiras, conchavam contra quem as usa no contexto da alegoria. Operários da língua não dormem…

 


Imagem de destaque: Katie Phillips / Pixabay

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