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Caucasian Designer Creating New Design

Como se inicia uma caminhada?

Glauciene de Oliveira

A pergunta parece simples e a resposta óbvia seria: com o primeiro passo. O que muitas vezes não paramos para pensar é o quanto este primeiro passo é importante para a tal caminhada. Nele está implícito o teor da vontade de se desbravar o caminho, a direção para onde se vai, a necessidade e o amor pelo objeto que se encontra (ou ao menos se almeja) no final desta caminhada.

“Garota de talento!” É o que me diziam desde criança ao verem meus desenhos e trabalhos manuais. Em 1996 minha cidade natal somente me permitia continuar os estudos nas áreas de Direito e Administração. Justo eu que sempre sonhei em viver de meu talento… Mas como dar o primeiro passo na direção certa?

Terminando o ensino médio em uma cidade do interior, com poucas possibilidades de crescimento profissional, fui trabalhar no Sindicato do Vestuário, vislumbrando um aprendizado na área. Nesta época a cidade já dava pistas de um crescimento latente do setor confeccionista. Lembro-me como se fosse hoje de minha empolgação ao receber em uma visita técnica a este local, alguns professores do Curso de Estilismo da UFMG. O primeiro passo da caminhada foi dado fazendo o processo seletivo. Ainda sem a mínima noção de como seria o trajeto, eu sabia que um sonho me movia para a realidade.

O  curso de Estilismo e Modelagem do Vestuário da Escola de Belas Artes da UFMG foi criado em 1986, no formato de extensão, sendo o primeiro curso oficial de moda do país. Após muito contribuir com o setor confeccionista de MG, o curso se despediu em 2009. Momento em que abriu espaço para, em 2010, ter início a primeira turma do curso de graduação em Design de moda.

Quando olho para trás é impossível não lembrar com muita ternura do curso de estilismo. Da professora Dulce Gomes e sua excelente técnica para o ensino do desenho de croqui e sua habilidade para o planejamento de coleções. Do professor Décio Noviello e seus desenhos de história da indumentária feitos a mão, no quadro negro. E ainda seu enorme conhecimento sobre cenografia e figurinos.

Fonte: Acervo da autora

Apesar da pouca credibilidade dada a um curso de moda naquela época, graças ao empenho dos professores, foram muitos os projetos pedagógicos como intuito de integrar o curso e o mercado de trabalho. Na memória ficaram os desfiles e suas roupas feitas de papel e materiais reciclados – uma boa alternativa para o pouco dinheiro, e ainda um ótimo recurso para exploração da criatividade. As participações em feiras como Mercado Mundo Mix, um movimento de vanguarda que explorava a criatividade em suas várias formas. E ainda o evento VIP – patrocinado por empresas de tecidos e aviamentos – que reunia empresários para apresentação de tendências de moda.

Lembro ainda da relação intensa, quase difícil, entre os alunos do curso de belas artes e os alunos da moda: cartazes de protesto com frases do tipo: “as máquinas de costura não poderão substituir os cavaletes”. Uma clara resistência ao desconhecido… Era a moda, a passos lentos, enfrentando obstáculos para abrir seu espaço na academia. Desde então, em um período relativamente curto, os cursos de moda se espalharam pelo país.

Foram várias as pedras nesta caminhada: vinda de origem humilde, as condições financeiras faziam com que fosse necessário dividir o tempo entre trabalho e estudos. Uma realidade vivida não só por mim, mas por grande parte da turma. Muitos buscavam oportunidade de emprego em qualquer área, pois o objetivo principal era ter grana para bancar os estudos. Nesta época eu jogava o “jogo do contente” que me fez entender, apesar das dificuldades, o quanto importante era eu já estar trabalhando na área – coisa que poucos colegas haviam conseguido – e assim vivenciar o que eu aprendia no curso.

Apesar da saudade da família e das questões financeiras, o que mais me marcou negativamente foram as críticas vindas de familiares, por eu acreditar que um curso de moda – em uma época em que pouco se falava no assunto – poderia ter sido uma boa escolha.

Ao longo dos dois anos de curso, fiz amigos a quem devo muitos ombros de aconchego. Tive a oportunidade de viver experiências profissionais com alguns ao reencontrá-los no mercado de trabalho e alguns ainda estão por perto graças às tecnologias modernas.

A escolha pela docência veio sete anos depois, ao retornar à minha cidade natal e sentir que o conhecimento e experiências poderiam contribuir com o setor confeccionista, que neste período já se encontrava mais amadurecido, e em busca de formar profissionais através dos cursos técnicos de nível médio e da graduação.

A caminhada nunca termina, mas posso dizer que graças ao curso de Estilismo da UFMG, minha trajetória tem uma direção segura. Posso dizer ainda que esta trajetória nunca foi e nunca será somente estudantil ou profissional, pois ela se move como trajetória de vida, na qual é impossível separar o amor da profissão!

Dê o primeiro passo sempre certo de onde deseja ir, a trajetória fluirá plena e harmonicamente pela sua conexão com seu sonho.


Imagem de destaque: rawpixel.com / freepik

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