Editorial 228

As respostas às demandas por violência

Um ataque contra a vida de estudantes e profissionais da educação, como o desferido esta semana em Suzano (SP), nos comove e mobiliza a todos. O drama das famílias e da comunidade escolar envolvidas é enorme e merece todo nosso respeito e solidariedade. A tragédia suspende nossos afazeres cotidianos e nos levam a fazer interrogações sobre a escola e a sociedade da qual a instituição faz parte.

A violência que ocorre no ambiente escolar e em seu entorno é objeto de estudo e discussão de vários grupos de professores, pesquisadores e  alunos, dos quais resultaram uma considerável bibliografia e muitas sugestões de políticas e práticas para o enfrentamento do problema. No entanto, tragédias como as ocorridas no dia 13 último extrapolam, em intensidade e impacto, as dimensões da violência escolar anteriormente experienciada, estudada e debatida.

Há que se considerar, a respeito do ocorrido, que, na sociedade brasileira, a violência tem sido, ao longo de nossa história, demandada e mobilizada como um modo cotidiano de resolver os conflitos.  Sob o arrepio da lei ou, em boa parte, sob a tutela do Estado, há um grande investimento de parte significativa de nossas elites econômica e políticas na utilização da morte,  do extermínio dos adversários como forma de fazer valer os seus interesses. Mas há, sempre houve, uma grande legitimidade da violência no cotidiano da casa e no seu entorno, nas relações domésticas e familiares, em que as grandes vítimas são as crianças e as mulheres.

Mas, felizmente, mesmo em uma sociedade atravessada de alto a baixo pelo culto e pela prática da violência e em que aos “outros” – mulheres, crianças, negros, índios, pobres… –, sempre foi ofertada uma “pedagogia da violência”, mesmo nesta sociedade, tragédias como as de Suzano chocam.

Chocam pela brutalidade, pela falta de sentido, pelas vidas interrompidas. Chocam pelos dramas familiares e comunitários que estabelecem. Chocam pela visibilidade da violência e de suas consequências imediatas. Chocam pelo armamento utilizado e apresentado pelos assassinos. Chocam…

Chocam,  também, porque em sociedades altamente escolarizadas como as que vivemos na contemporaneidade, a instituição escolar é representada no imaginário coletivo como um lugar seguro de guarda e educação das novas gerações. A morte de crianças e adolescentes na escola rompe, pois, com esta idealização de uma escola que estaria a salva da enorme violência que assola nosso país.

Mas a tragédia choca e mobiliza parte significativa da sociedade brasileira porque ela parece dialogar, conjunturalmente, com uma demanda e um investimento apresentados pela família Bolsonaro e pelos grupos que o apoiam. Não é sem sentido ou ilegítimo  considerar que o ocorrido na Escola  Estadual Raul Brasil esta semana,  seja uma resposta à demanda de violência – e de mais armamento – apresentada publicamente pelo hoje Presidente Bolsonaro ao longo de sua vida e, mais recentemente, em sua campanha eleitoral.

Ou seja, vivemos um tempo em que a violência amplamente institucionalizada e legitimada como modo de ação “contra os outros”, encontra uma celebração pública e cotidiana nas falas e imagens do Presidente da República, de seus Ministros e Ministras e seus apoiadores.  São tempos sombrios em que as tragédias se avolumam, a violência campeia, as milícias tomam conta do Estado, a ignorância é elogiada e a vida dos “outros” é  desvalorizada.

Contra este estado de coisa, a solidariedade pessoale de pequenos grupos é fundamental – ninguém solta a mão de ninguém! –, mas é insuficiente. Aumentar e fortalecer a ação política coletiva e democrática contras as desigualdades e todas as formas de violência e  a favor das diversidades e de maior igualdade é imperativo.

Mais do que um caso em meio a tanta violência, a tragédia ocorrida na escola paulista deveria nos fazer perguntar, societariamente, pelos caminhos trilhados para chegarmos até aqui e nos fazer tomar consciência sobre a imperiosa necessidade de abandonarmos imediatamente o modelo de Estado e de Nação que vem sendo defendido e implementado pelos milicianos que hoje ocupam o poder da República.


Imagem de destaque: Facebook/Reprodução

This Post Has 2 Comments
  1. Ufa, ainda bem que culparam o Bolaonaro depois de uma longa choradeira sem sentido molhada por uma cusparada sentimentalista de uma moral do oprimido que só uma boa luta de classes é capaz de gerar, ao mesmo tempo próprio em que reforça a lógica de opressão e faz com quem mais violência caia na esteira de produção quando quem escreve não se percebe, ironicamente, como a elite própria que reclama, aquando de sentado num gabinete mesquinho, de livros mesquinhos, companheiros mesquinhos, ideias mesquinhas.

    Imagina sem bolsonaro. Quem iríamks culpar? O “ódio”? Os vídeo-games?
    Quando não tem um inimigo certo, fica difícil, mas ainda bem que já temos uma ordem a culpar:
    Bolsonaro
    Igreja
    Homem branco
    Patriarcado
    Homofobia
    Racismo
    Armas
    E se nada der certo, culpa vídeo-game.

    Ainda bem que a gente teve muitas opções.
    Ufa
    Obrigado universidades públicas por ensinarem o professor que o aluno é oprimido da sociedade e assim quando ele se revolta na sua psicose, ele revolta contra os outros achando que tem total razão.
    Até porque se tem uma lógica no assalto, por que não no massacre?

    CRE TI NOS

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