Antonio Carlos WillLudwig – As Razões Da Militarização Do Ensino

As razões da militarização do ensino: da Antiguidade à Modernidade

Antonio Carlos Will Ludwig

Embora o conceito de militarização possa ser variado, parece que o adotado neste texto não deve causar sérias divergências. Assim sendo, e de acordo com o vocabulário político vigente ela diz respeito à existência em uma determinada sociedade de Forças Armadas permanentes, dotadas de grandes contingentes de soldados bem adestrados e possuidores de armamentos ultramodernos, a qual é apoiada em um discurso que apregoa uma mudança nas crenças sociais necessárias para legitimar o emprego da violência. Este discurso geralmente enfatiza a necessidade de expansão das fronteiras geográficas, a imprescindibilidade da projeção do poder ou a premência da organização de uma defesa contra inimigos potenciais ou reais. Ao emergir e se firmar como resultado de uma decisão política, seja por parte de governos democráticos ou não democráticos, ela passa a ser vista como o aspecto principal e destacado de uma determinada sociedade, e, em decorrência adquire o poder de influenciar todos os setores que a integram,especialmente a educação que costuma beneficiá-la.

Com efeito, a sua forte presença no âmbito social pode ensejar iniciativas consoantes, tais como, a militarização do espaço público, a militarização da polícia, a militarização das empresas, a militarização da educação, etc. Em decorrência deriva-se naturalmente de seu advento a ideia de que a militarização dos diversos setores da sociedade se refere à presença ativa de militares em tais setores e/ou como o emprego neles de concepções militares. Isto não significa que a ocorrência da militarização nas várias instâncias da comunidade só possa acontecer se o fenômeno da militarização se encontrar manifestado. De fato, ocasionalmente, outros fatores podem provocá-la. É o caso, por exemplo, de uma determinada empresa que por motivos endógenos resolve contratar militares para gerenciá-la ou colocar em prática alguma concepção militar em seu funcionamento.

Vale realçar que o conceito de militarização difere da concepção de militarismo. O militarismo, cujo significado se mostra menos polêmico, é pertinente ao domínio dos militares sobre os civis por meio da intervenção direta na esfera política. Quanto a isso é do conhecimento de muitos que no decorrer do século vinte emergiram muitos golpes aplicados pelos servidores fardados na forma de um exercício do poder moderador, sendo que em um determinado momento eles resolveram permanecer por vinte anos no governo. A causa dessa permanência se deveu à inexistência de um regime democrático vigoroso e enraizado, à ausência de mecanismos de controle da instituição militar e à incapacidade dos setores dominantes de conquistarem a hegemonia.  Observe-se que o militarismo pode ensejar tanto a militarização no sentido de poderio bélico quanto à militarização de outras áreas da sociedade tal como a educação que aqui constitui objeto de análise.

Colocada esta diferença esclarecedora voltemos ao tema da militarização do ensino. A esse respeito convém deixar claro que no decorrer do tempo ela tem se mostrado como uma ocorrência intimamente relacionada ao fenômeno da militarização conforme o significado exposto. Além disso, ambas se mostram como algo abrangente e  contam com uma idade bastante longeva conforme se verá a seguir.

O primeiro advento da militarização do ensino talvez seja a que se manifestou na Pérsia alguns séculos antes de Cristo.  À frente de um enorme exército seus reis Dario e Xerxes comandaram inúmeras campanhas de conquista territorial. A educação oferecida nesta época prestou um inestimável auxílio á manutenção desse exército, haja vista que os alunos de então eram divididos em grupos de quinze integrantes para realizar longas marchas diárias, praticar a ginástica, a corrida, a equitação e o disparo de flechas e dardos. Ao atingir os vinte e cinco anos recebiam um cinto que simbolizava a virilidade, prestavam juramento de servir lealmente ao Estado e se tornavam soldados.

Nessa mesma época na cidade Estado de Esparta que tinha os persas como inimigo principal emergiu um exército pouco numeroso, porém praticamente imbatível na guerra. Para garantir a sua reprodução, na escola, os jovens praticavam a luta corporal, a corrida, o salto, o arremesso do disco e do dardo, a natação e a equitação. Ao atingir os doze anos era dado a eles um manto da virilidade. Mais adiante recebiam a missão de patrulhar o espaço territorial vivendo em acampamentos e posteriormente frequentavam os quartéis para praticar a ginástica, o manejo de armas e os exercícios destinados ao combate.

Na Idade Média a situação mudou totalmente no que diz respeito à civilização ocidental porquanto a grande novidade foi a emergência do feudalismo. Neste lapso da história inexistiam as pré-condições que tornam possível a militarização do ensino. Mais adiante, em fins da Idade Moderna tais pré-condições emergiram, pois os Estados e os Exércitos Nacionais foram criados. No entanto os militares encontravam-se totalmente preocupados com a organização e o fortalecimento do poder bélico nacional em ascensão e a preocupação dominante na educação era a de extirpar a doutrinação religiosa e instituir a formação do homem racional.

Somente num período mais recente da contemporaneidade é que a militarização do ensino voltou a se manifestar na Alemanha nazista e na Itália fascista.  Na Alemanha uma gigantesca Força Armada foi montada para garantir a criação do III Reich, o novo império ariano. As escolas de então foram mobilizadas para ajudar. Nelas, bem como nos movimentos juvenis  os discentes praticavam a ginástica sueca, a saudação nazista e o juramento ao Führer, vestiam uniformes vistosos, desfilavam marcialmente entoando hinos e canções, armavam acampamentos, efetuavam longas marchas, manuseavam armamentos e realizavam jogos de guerra.

Na Itália Mussolini apregoou o ideário fascista justificador do conflito armado uma vez que segundo ele a guerra e a construção de um império são indispensáveis ao rejuvenescimento de uma nação. Também neste país a educação apareceu como recurso destacado da epopeia imperialista.  A educação física sueca despontou como prática relevante ao preparo do corpo e da mente para o empreendimento guerreiro. Integrados nos grupos juvenis da época os alunos vestiam uniformes, entravam em formação militar, exibiam insígnias fascistas e prestavam juramento a Mussolini. Periodicamente realizavam acampamentos, evoluções militares e marchas, manuseavam armas, treinavam posturas de tiro e aplicavam táticas de guerra.


Imagem de destaque: Kevia Tan / Unsplash

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