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Parede Branca Sendo Pintada – David Pisnoy   Unsplash

As cores das manifestações, uma ausência sentida e a necessidade de educar nossa ação

Daniel Machado da Conceição

Ao observar o embate que cada vez mais acirra uma polarização, percebo que muitos símbolos e sinais acabam surgindo ou ressurgindo com força, marcando espaços de poder. Sou sincero em dizer que muitos acabam por me assustar, digo isso independentemente do lado. Meu atual desconforto está relacionado ao uso ou desuso de uma cor que sempre simbolizou e sensibilizou as mobilizações e manifestações. Tenho observado que a cor branca passou a ser pouco utilizada em protestos, cartazes, vestimentas e mesmo em discursos ou pronunciamentos. Faço referência à cor branca que no mundo está relacionada à paz e ela deu significado a grandes manifestações como ponto de união e convergência dos interesses.

Não posso esquecer que no Ocidente a cor branca significa alegria e nascimento, enquanto em países asiáticos é geralmente identificada com a tristeza e a morte. Dependendo da cultura, a cor branca significa vida ou morte, momentos de ruptura e transformação capazes de permitir reflexão sobre a própria existência do ser. Nesse momento entre o início e o fim de uma jornada terrena, o questionamento sobre o propósito da existência individual é confrontado, colocando por terra as ideologias mais egoístas, mesmo que só por um momento.

Pergunto, antes de falar mais sobre meu desconforto: qual o conceito de paz? Estritamente, posso descrever como um ideal a ser alcançado que, para muitos, apenas indica a ausência da guerra ou de conflitos. A paz estaria simplificada na inexistência de disputas e na redução das desigualdades, ao criar um acordo ou concordância coletiva.

Quando estava ponderando sobre o uso da cor branca e o seu declínio em movimentos que defendem apoio ou oposição a determinados ideais políticos, partidários etc., só pude relacionar com os novos simbolismos e fragmentações de interesses que as cores passam a carregar e representar para determinados movimentos.

Em um mundo globalizado que possui a questão identitária como um dos principais temas de discussão, nos perguntamos: como pensar as reivindicações? Parece contraditório operar no sentido de uma cidadania universal, pois ela entra em choque com interesses particulares e plurais. Talvez por essa razão tantas outras cores ganhem cada vez maior relevância, pois parecem ser melhores representantes de movimentos que se fragmentam em ideais e propósitos que necessitam ser identificados nas cores: vermelha, azul, preta, lilás, laranja, verde, amarelo, preta, rosa etc…

Nessa ponderação sobre a ausência da cor branca e a utilização de outras cores como identidade de inúmeros movimentos, algo eu pude aprender. Lembrei das minhas aulas de Educação Artística no Ensino Fundamental, em especial aquela específica sobre as cores. A imagem da minha professora ensinando sobre a paleta de cores foi um estupor. Enquanto nós, crianças, seguíamos suas orientações e combinávamos cores que acabavam por produzir outras, o espanto infantil era um encantamento. O toque final era aprender que a cor branca não significava ausência de cores, ela surge da combinação e união de todas as outras cores.

Aqui está o sentido deste apelo, a volta da cor branca não deve representar apenas valores que afirmem o fim ou ausência de conflitos. Como um princípio religioso, deve religar as diversas pautas de reivindicações em um vórtice de interesses coletivos. A cor branca deve simbolizar o ato político em sua plenitude, pois só pode ser atingida em interação com outras. A cor branca da paz significa ação coletiva, união de todas as cores em prol de um objetivo comum, o direito à vida.

As muitas cores utilizadas e que atualmente simbolizam movimentos diversos, apenas refletem a fragmentação de apelos e o desejo de ter sua pauta evidenciada. Isso favoreceu uma perda a partir da geração de conflitos internos que deixaram de ser universais para se tornarem cada vez mais particulares ou específicos dos muitos grupos. A fragmentação permite ouvir as vozes de muitos que em suas singularidades não são ou não foram contemplados nos interesses e desejos. Porém, a polissemia sem um aglutinador, sem combinação, apenas fragmenta, tornando-se uma grande Babel. Se as muitas cores podem identificar interesses particulares, talvez tenha chegado o momento de tirá-las de seus compartimentos na aquarela e colocá-las em um único recipiente capaz de aglutinar a todos. Não se trata de simples mistura, pois não basta colocar todas em um mesmo pote. É necessária uma ação para combinação e aglutinação dos interesses em um único propósito. Tal compromisso só pode ser atingido através de um processo que permita educar a ação.

Uma proposta para dar vazão às singularidades e unificar as pautas está na adoção da cor branca como símbolo de tal cooperação, pois sua essência não significa a ausência de conflito, mas uma constante ação política de mediação. A cor branca pode voltar a significar mediação e acordo. Palavras que estão relacionadas ao conflito, só que a um conflito de ideias, pensamentos, proposições, ações e que no devido tempo, após sua aglutinação, precisam sinalizar para decisões coletivas voltadas para o bem comum. O apelo ao uso da cor branca em manifestações significa a volta da união coletiva e a unificação das muitas cores que, sim, identificam pautas de grande importância. O retorno da cor branca precisa significar um religar de propósitos, de interesses, de matizes e, principalmente, de representatividade pelo direito a uma sociedade mais justa e digna para todos. Um educar das ações que não se restringe ao conhecimento e a sua transmissão, o que significa uma práxis transformadora e tão necessária no momento atual.


Imagem de destaque: David Pisnoy / Unsplash

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