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Criança Com Um Computador Na Cama – Ludovic Toinel Unsplash

Acabemos com a escola – Tentativa 5

Dalvit Greiner

Acabar com a escola para acabar com o pensamento. O aprendizado do alfabeto pode ser uma desgraça para comunidades oralizadas, diria o deus egípcio Teth, porém na nossa sociedade a escrita é fundamental. Apesar de estarmos cada vez mais lendo imagens do que letras em função da internet, a leitura e a escrita de letras, sílabas, palavras e frases ainda é fundamental para um melhor entendimento do mundo. É claro que a leitura do mundo supera isso tudo, mas sem essa ferramenta, o mundo fica menor.

O que a escola promove com essa ferramenta é a possibilidade de ler algo que foi escrito a muito tempo, pois a internet com suas imagens é um meio que se dedica muito mais ao presente do que ao passado. Em geral, o que foi escrito ontem na internet, além de ser passado,  já saiu do ar, sumiu… enquanto um livro, uma carta ainda se fazem presente toda vez que os quisermos. Eles não saem do ar. E, qualquer coisa que se escreva com ferramentas antigas – vejam só – como a tinta e o papel, pelo seu custo, necessita sempre de uma mediação antes de ser posta em circulação. Na internet, eu sou editor de mim mesmo e, sem critério nem mediação alguma, dirijo-me ao distinto público com as minhas bobagens. Sequer preciso saber ler e escrever para estar lá, no mundo virtual.

Se a internet é um espaço de liberdade de expressão é porque a liberdade de expressão foi confundida com o direito de falar qualquer coisa. Falar qualquer coisa não representa nada mais do que apenas a opinião individual de quem fala. E quem fala por si, sem mediação alguma, nem mesmo do seu passado que nos diz do seu senso ético, torna-se portador de uma fala idiota. Ou seja, sem responsabilidade alguma com o público.

Imagine: quem tem internet nem precisa de escola. Qualquer um é capaz de produzir conteúdo para essa ferramenta de divulgação. Uma ferramenta do presente: não tem passado, não tem futuro. Tudo que se publica se perde na nuvem. Então, para acabar de vez com a escola, que é uma antítese da internet, é preciso acabar com toda e qualquer forma de pensamento. Sim, porque a escola não ensina apenas a ler e escrever: uma escola ensina a pensar. E pensar significa escolher. E escolher significa ter liberdade. E ter liberdade significa ser.

Nenhum robô de internet – as máquinas e os humanos que assim agem – são capazes de fazer política. Em geral, eles não vão às ruas, pois não existem ou estão presos à máquina. O contrário são os estudantes: basta ver as suas mobilizações. Basta ouvir as suas reivindicações. Basta sentir os seus movimentos. Como são perigosos, justamente porque fazem política, é preciso liquidá-los. Essa é a expressão correta: é preciso liquidar com os estudantes e junto com eles, a escola.

É isso que propõe os nossos governantes: da sandice do presidente e do ministro da educação em mandar nossos meninos de volta à escola em plena pandemia do corona; em realocar o dinheiro das escolas públicas para a saúde, o que é muito bem vindo, porém, veio porque apesar de “expressamente consignados para ações e programas, não foram executados até o momento”, ou seja, o Ministério da Educação não tinha e não tem nenhum programa para aplicar o valor destinado no orçamento. Isso, deliberadamente, são formas de acabar com a escola das maneiras mais perversas possíveis.

E como se não bastasse atentar contra nossas crianças, atentam também contra aqueles que pesquisam na Área das Humanidades. A Portaria 1122 do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações ignorou que Ciências Humanas são CIÊNCIAS. Ora, e como são! E para continuarmos pensando esse país, corrigindo os governos – muito mais o atual governo – também depende de investimento público. E, apesar de corrigida alguns dias mais tarde, ficou claro que falta ao MCTIC uma definição de ciência. Mas, creio que não falta, não! Essa definição já existe: ciência = patente.

As Ciências Humanas tem uma tecnologia importantíssima para uma sociedade: a crítica. E com a crítica, a capacidade de pensar um futuro diferente.

Fiquemos, por ora, nesses dois exemplos de como se acaba com a escola, no presente e no futuro. No presente, mata-se os cientistas e os estudantes; no futuro, todo o povo!


Imagem de destaque: Ludovic Toinel / Unsplash

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