A Universidade “invade” a Escola Básica: o programa Pensar a Educação Pensar o Brasil na Escola Municipal Dinorah Magalhães Fabri – exclusivo

Joaquim Ramos

Sandro Santos

“A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca” (Jorge Larossa).​

A Escola Municipal Dinorah Magalhães Fabri (EMDMF) e as turmas externas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) vinculadas à Escola Municipal Ana Alves Teixeira – ambas localizadas na regional Barreiro – receberam, no dia 06 de junho de 2016, a equipe do Programa Pensar a Educação Pensar o Brasil (PEPB) para realização e transmissão do Programa, da Vila Cemig.

Para que o Programa fosse transmitido da Escola Municipal Dinorah Magalhães Fabri, a equipe do “Pensar” reuniu-se com os responsáveis das duas escolas para elaborar o roteiro da programação. Entre algumas tensões e muita expectativa por parte das pessoas vinculadas às escolas, tal preparação contribuiu para consolidar uma proposta que envolveu os diversos segmentos das comunidades escolares: educandos jovens, adultos e idosos, professores e outros profissionais, crianças e adolescentes, artistas locais, lideranças comunitárias, visitantes e ainda com a participação dos diretores dessas instituições educativas.

Como sabiamente afirma Jorge Larossa na epígrafe que abre esse texto, a realização do “Programa Pensar a Educação Pensar o Brasil” no espaço da EMDMF, seguramente, afetou e deixou marcas nas pessoas presentes no local do evento e naquelas que tiveram a oportunidade de ouvi-lo através da rádio UFMG Educativa. Partindo do princípio de que a experiência é aquilo que nos passa, buscamos nesse texto, ainda que de modo breve, apresentar aquilo que “toca” as pessoas que partilharam daquela experiência (tanto da comunidade escolar quanto da equipe – diga-se de passagem, competentíssima – do Programa PEPB). Assim, propusemo-nos ouvir alguns depoimentos “produzidos” por diferentes sujeitos que explicitaram as marcas da experiência da participação em um programa de rádio que esses eles próprios ajudaram a executar.

Iniciamos pela fala da coordenadora da escola que relata ter partilhado, no início do programa, das mesmas tensões e emoções que membros da equipe do programa:

“Eu, Valéria e Floriza sentamos perto umas das outras. Nós estávamos muito nervosas, porque íamos fazer uma coisa que não estávamos acostumadas que é falar no ar. Em programas de rádio, a gente não pode errar, você tem que pensar e fazer uma fala precisa e sem erros. Mas uma coisa me impressionou bastante: a apresentadora, Yolanda, que está acostumada com a situação – eu achava que isso não acontecia – quando começou a chamar: dez… nove… oito… aí, ela ficou fazendo assim [Sibele balança a cabeça e os braços, numa demonstração de distensionamento do corpo] e falou: ai, gente, esse momento é muito tenso! Eu achei isso muito impressionante, porque é também para ela uma novidade, apesar de não ser. Isso eu queria relatar. Tudo foi maravilhoso, mas para ela é sempre uma emoção… aquele começo, aquela adrenalina, tudo isso é muito emocionante. Para mim, foi maravilhoso poder vivenciar esse momento” (Maria Sibele Carneiro, coordenadora e professora da EMDMF).

Sentimentos parecidos com os expressos por Sibele também foram relatados por Valéria Cardoso Guedes (diretora da EMDMF). Além disso, Valéria ainda afirma ter compartilhado suas impressões sobre a experiência de realização do programa na instituição que dirige juntamente com outras gestoras escolares da rede municipal de ensino:

“Eu achei a experiência muito bacana. Coloquei até no grupo (WhatsApp) dos outros diretores de ver a possibilidade de realizar a mesma atividade nas outras escolas… porque montar, trazer a rádio para dentro da comunidade e as pessoas poderem se manifestar sobre as questões diversas, os projetos e história da escola e ainda ser transmitido no mesmo momento para os ouvintes, é muito bacana! Experiência fantástica… sem contar a equipe e a forma de conduzir o Programa… Eu estava nervosíssima de falar e saber que tem muitos ouvintes escutando, mas eles conseguem, de maneira cuidadosa com a gente, fazer a interlocução e possibilitar que a gente seja mais sucinto nas colocações e eu só tenho elogios para fazer… foi muito bacana mesmo!” (Valéria Cardoso Guedes – diretora da EMDMF).

O professor Arlindo Machado (docente das turmas da EJA externa da Escola Ana Alves) ao se deixar levar pela riqueza da gravação do Programa de rádio – e pela leveza da condução dos membros da equipe – percebe, via de regra, que seus educandos, assim como ele próprio, se sentiram tocados por aquela experiência:

“Achei assim… espetacular. Foi uma experiência ímpar! Eu não tinha nenhuma noção de como isso funcionava… estava muito nervoso, num primeiro momento, se vai dar certo, se não vai dar certo. Houve toda uma preparação anterior, mas na hora de fazer mesmo, a gente fica nervoso. Foi espetacular, pois a Yolanda e o Tarcísio –apresentador do programa – deixam a gente muito à vontade…Isso foi muito bacana. O envolvimento dos alunos foi além das expectativas e eles gostaram bastante. E o depois também… o depois foi muito interessante. Muitos elogios e os alunos pediram para fazer novamente, foi muito bacana. Acho que é isso que tem de ser feito mesmo. Esse envolvimento dos alunos… a universidade vir até as escolas… isso dá visibilidade ao nosso trabalho. Eu achei que foi muito bom” (Arlindo Machado, professor das turma externa da EM Ana Alves).

Isabel Góes Cupertino – líder comunitária – afirma que o encontro de duas escolas no programa de rádio, evidenciou, dentre outras coisas, a riqueza cultural dos jovens-adultos, presente nas práticas pedagógicas da EJA:

“Esse Programa foi maravilhoso e o próprio nome dele, “Pensar a Educação Pensar o Brasil”, bastante tempo e profundo… pensar a educação neste momento é necessário e tudo de bom. Esse Programa conseguiu se relacionar com várias escolas, corpo docente, direção, alunos, direção… e conseguiu dar uma pequena mostra da grandiosidade da Educação de Jovens e Adultos! Foi maravilhoso! Precisamos fazer mais vezes”! (Isabel Góes Cupertino – cabeleireira e líder comunitária).

Essa riqueza cultural também foi percebida e expressa pelos educandos da EJA. Rodrigo Leandro e Jandir João Matias Lima (educandos das turmas externas da Escola Ana Alves). Rodrigo, por exemplo, afirma ter ficado “radiante” e muito emocionado com a parceria musical “improvisada” com a coordenadora da EMDMF, Maria Sibele. Jandir, por sua vez, expressa como a EJA promove a inserção sociocultural dos educandos em outros espaços de socialização:

“O programa foi show de bola, foi bacana demais. Vou te falar com toda a sinceridade, não tive uma emoção tão gostosa como eu tive aquele dia! Quando eu cheguei em casa, eu estava tão emocionado e radiante que tive dificuldade até para dormir, você acredita? Eu achei muito bacana e isso, querendo ou não, engrandece a gente de tal forma… e veja que aprendi a tocar violão, sozinho! Dentro do meu salão, comecei a treinar e tenho muito dom para a música… além de que meu pai acordava a gente de manhã nos dias de domingo e colocava boa música para a gente escutar! Peguei a cifra da música pela internet e acho que a nossa parceria (Sibele e eu) ficou bem encaixadinho, mesmo sem ensaios e fazendo de improviso. Foi muito intenso, quando eu cheguei no salão no outro dia, os meninos tinham escutado e acharam muito interessante”! (Rodrigo, educando das turmas externas da EM Ana Alves).

“Eu fiz parte da percussão e no meu modo de sentir foi muito emocionante… Eu nunca pensei em participar de algo tão maravilhoso assim! Eu sou um cara humilde lá da roça e sempre tive menos oportunidades do que muitos… não sei se foi falta de interesse ou porque tive que começar trabalhar muito desde cedo para ajudar dentro de casa, já que éramos pobres de tudo, até de cultura. Hoje, eu vejo que tenho oportunidade de conhecer pessoas novas e tenho oportunidade de participar de eventos culturais bacanas como esse que aconteceu lá no programa entre as duas escolas Ana Alves e Dinorah”! (Jandir João Matias Lima – educando das turmas externas da EM Ana Alves).

Partimos do pressuposto de que toda experiência é educativa (embora nem toda prática educativa se torne uma experiência). Assim, para Dewey3 (2010), a experiência possui duas importantes dimensões: “o aspecto imediato de ser agradável ou desagradável e o segundo aspecto que diz respeito a sua influência sobre experiências posteriores” (DEWEY, 2010, p. 28). Para ele, é a noção de continuum das experiências (essa interconectividade entre elas) que as tornam relevantes para o campo da educação. No relato de Cleiber Neves dos Santos (educando da Escola Ana Alves) fica evidente esse princípio de continuidade das experiências, ao afirmar que adorou cantar a música “trono de estudar” que foi criada no contexto das ocupações das escolas de São Paulo:

“Participei do Programa Pensar a Educação Pensar o Brasil. Cantei, junto com outros alunos, a música “O trono de estudar”, participei do vocal. Eu gostei muito! Nunca tinha participado e me senti útil ao divulgar do estudo e da EJA, em prol da nossa escola. Foi interessante cantar com o grupo de estudantes. A música “O trono de estudar” tem a ver com os cortes do governo em relação à educação. Achei bonito a professora cantando com o aluno. A organização da rádio é muito legal! Uma coisa assim… como posso dizer? mesmo faltando mais tecnologia, eles fizeram com pouco recurso um show maravilhoso! Foi impressionante”! (Cleiber Neves dos Santos – educando das turmas externas da EM Ana Alves).

Uma egressa da EMDMF, Soraya Aparecida dos Anjos, também deixou registrado como ela foi afetada pela experiência de participar de um programa de rádio na escola onde estudou. Segundo Soraya, até seu marido – que ouvia o programa de casa – também se sentiu tocado por aquela experiência;

“Gostei de participar do Programa. Foi bom ter a possibilidade de reunir com outras escolas e outros alunos… Achei muito instrutivo e fiquei emocionada demais de participar… dá um calafrio e a gente fica meio nervosa… dá aquele medinho! Eu nunca tinha participado de nada parecido e o nervosismo é por causa de não saber como fazer direito e o que vai perguntar! Em compensação, o apresentador é o cara! Tem o dom! Tem uma voz maravilhosa e uma maneira bacana de falar. O Tarcísio sabe conduzir bem os trabalhos. Meu marido escutou e achou muito bacana”! (Soraya Aparecida dos Anjos, ex. aluna da EMDMF).

Pessoas que não estavam presentes na escola, mas ouviram o programa pela rádio, partilharam também da experiência. Os relatos de Vandilza Aparecida de Castro, Gislaine Cristina e Denise Alves (profissionais da EMDMF) ilustram essa afirmação:

“Eu ouvi o Programa e amei! Foi chique demais! A fala da Sibele me chamou muito a atenção! Ela é muito descontraída e engraçada! Eu não ouvi até o final e não escutei a Sibele cantando… todo mundo falou muito bem! Estão de parabéns”! (Vandilza Aparecida Andrade de Castro – Auxiliar de biblioteca escolar/EMDMF).

“Eu gostei demais, até para tomar banho eu levei o rádio pro banheiro… gostei de tudo, da participação dos alunos, dos professores! A Sibele arrasou! Deu vontade de estar aqui, participando! Se tiver novamente, eu fico à noite! Eu só achei uma coisa negativa, havia muita gente que não sabia! Você me mandou e eu repassei para um monte de gente”! (Gislaine Cristina – gestora administrativa da EMDMF).

“Nós três escutamos o programa e comentamos, via WhatsApp… Ficamos encantadas com o pessoal que cantou. O moço que cantou a música da Maria Gadu brilhou! Eu estava com o fone, mas coloquei no viva voz para os meninos ouvirem… as entrevistas com as direções! O Tarcísio é muito bom! A Yolanda também”! (Denise Magalhães Alves – Secretária/EMDMF).

Por fim, apresentamos o relato de Nilo José Martins, taxista e assíduo ouvinte do Programa “Pensar a Educação Pensar o Brasil”:

“Eu costumo ouvir “O Programa “Pensar a Educação”, apresentado às segundas-feiras. Ouvi o Programa que aconteceu na Escola Dinorah… as músicas, as novidades das escolas, as entrevistas… tudo, muito interessante! Pude saber de coisas legais das duas escolas! O legal desse Programa é que ele apresenta a realidade das escolas, fala realmente do que ocorre no interior das instituições escolares. Desta vez, eles saíram para a rua e fizeram um bom programa nesta escola da Vila Cemig! Foi um programa dinâmico e gostoso de escutar”. (Nilo José Martins – taxista).

Em síntese, consideramos que essa experiência nos “toca” a partir de um duplo movimento realizado pelo Programa “Pensar a Educação Pensar o Brasil”: primeiro, pela aproximação da universidade com a escola da educação básica e com os sujeitos “de carne e osso” que, efetivamente, contribuem para fazer funcionar essa complexa engrenagem institucional e; segundo, pelo fato de o programa possibilitar que a efervescência cultural que ocorre na comunidade – muitas vezes, distante das escola – possa pulsar no interior delas e ser divulgada para fora de seus muros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *