Bolsonaro Na ONU Alan Santos PR – Agencia Brasil

A Universidade e a defesa do legado iluminista

Alexandre Fernandez Vaz

Há pouco mais de uma semana o Brasil foi reconduzido, por votação, ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU). Segundo se pôde ler na grande imprensa, o assento foi obtido na base de muita negociação, o que incluiu a troca de compromissos com promessas de votos para pleitos de outros países. Não foi pequeno, portanto, o esforço da diplomacia brasileira para garantir uma posição de poder que possa interferir em uma pauta que, ao que parece, é de muita importância para o atual governo.

O Presidente Jair Messias Bolsonaro possui pouco apreço pela tradição dos direitos humanos, que para ele devem ser destinados apenas a algumas pessoas, as de bem, segundo seu juízo. Pode, portanto, parecer contraditório que seu mandato tenha buscado a posição no Conselho da ONU. Mas não é assim que as coisas acontecem. Segundo vem sendo repetido por nossa Chancelaria, a proposta brasileira é, entre outros tópicos, defender a imposição da heteronormatividade como modelo familiar, propor limites ainda maiores aos direitos reprodutivos e à autodeterminação feminina, asfixiar com mais rigor os movimentos migratórios. Ou seja, uma pauta que restringe direitos e oprime grupos sociais vulneráveis, sendo, para dizer o mínimo, antidemocrática e contrária aos princípios dos direitos humanos.

A propósito, não deixa de chamar a atenção que tudo isso receba como verniz a evocação da tradição cristã. Sim, é verdade, a história do Cristianismo, que pelo menos até certo ponto é a história do Ocidente, é formada por uma série ininterrupta de documentos de barbárie. Por outro lado, tudo que é acolhimento, compreensão, amor, desprendimento, valores que, até onde sei, são também cristãos, é deixado de lado¹.

Não é novidade o posicionamento do governo brasileiro, cujo mandatário maior é contumaz defensor da tortura como método de estabilização social, tampouco ele é o único a se posicionar dessa forma. Primeiros-ministros e presidentes que se reúnem sob o guarda-chuva do autoritarismo são tão diversos quanto assustadores. No entanto, talvez seja necessário observar como tal postura compõe um quadro geral de anti-iluminismo, e quais são algumas de suas consequências. É igualmente importante observarmos o lugar que a Universidade ocupa nesse processo.

Antes disso, vale mencionar outro movimento governista em direção semelhante. Há poucos dias surgiu na imprensa e em rodas diversas o anúncio da inusitada ideia de fundir a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), formando apenas um órgão nacional de fomento à pesquisa. Estivesse a proposta ancorada em um projeto de nação em que a pesquisa e a formação de pesquisadores ocupassem lugar de destaque, então seria o caso de se pensar em uma grande reforma do sistema, buscando aperfeiçoa-lo, sempre no sentido de sua ampliação. Mas não é nada disso, se trata de desconhecimento de causa que nos levará, se a coisa for a termo, ao desmonte de um sistema que a duras penas e com muito esforço tem trazido bons resultados. Entre vários problemas que a fusão nos traria está o alinhamento ainda mais radical da pesquisa com a pós-graduação, que já é grande e com efeitos não desejáveis, a exemplo da exagerada pressão por resultados de curto prazo.

A meta parece ser não exatamente acabar com a produção científica, mas reduzi-la à utilidade, o que significa, nos termos que hoje imperam, ao que potencialize a reprodução e a acumulação capitalista. Para tanto, encolhe-se o sistema federal de ciência e tecnologia (que está longe de ser robusto), desidratando o apoio às pesquisas inúteis e fazendo com que sobreviva apenas o que se vincular aos interesses do mercado.

Ambas ações do atual governo, nos direitos humanos e na ciência (mesmo que em relação a essa efetivamente não aconteça, o propósito se mostra), correspondem a um projeto que é a outra face das massacrantes medidas econômicas que estão sendo implementadas. Esse projeto é o de inviabilizar tudo aquilo que for razão, autonomia, dúvida, pensamento. Fanáticos em cruzada contra a emancipação humana e neoliberais em defesa do deus mercado estão a todo vapor. Diante de nós coloca-se o desafio de defender o legado iluminista contra o ataque institucional que ele vem sofrendo. A Universidade deve cavar suas trincheiras e colocar-se com todas as suas forças na proteção dessa herança, ao mesmo tempo que precisa fazer alguma autocrítica, uma vez que não foi pouco o descrédito que nos últimos tempos atingiu a ciência e a razão intramuros acadêmicos.

Em boa medida, a onda segundo a qual qualquer discurso tem o mesmo valor, independente de apresentar ou não base racional, ocupou parte importante do espaço universitário em anos recentes. Em nome da crítica à razão em sua face obscura, colocou-se a opinião, contra o discurso científico erigiu-se o mero jogo de palavras, a denúncia do eurocentrismo fez lugar à elaboração paroquial. Se a ciência não precisa ser escutada porque é não mais que um conjunto de enunciados cujo valor é o mesmo da opinião, então por que não aceitar que a terra pode ser plana e que nossa origem talvez seja um milagre? Um pouco de atenção à objetividade da ciência e a defesa de uma ética universalista, assumindo que ambas devem ser objeto constante de autocrítica, não farão mal à Universidade. O obscurantismo também está entre nós. Quem sabe devêssemos reler Alan Sokal.

*Tratei do tema aqui no Pensar, quando da campanha eleitoral, em Algo sobre fé em tempos impolíticos.


Imagem de destaque: Alan Santos – PR/Agência Brasil

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