A última ditadura Argentina, memórias possíveis

Alexandre Fernandez Vaz

Há quarenta anos, em 24 de março de 1976, começava na República Argentina sua última ditadura militar, com a deposição de María Estela Martínez de Perón, a Isabelita, presidente que sucedia seu falecido marido, de quem fora vice, desde a morte dele em 1974. Eu estava na Argentina quando Juan Domingo Perón faleceu e lembro-me bem dos dias de luto, da pauta monotemática dos meios de comunicação, da apreensão e do silêncio aflito dos adultos enquanto brincávamos no quintal ou líamos sob as árvores, cuja sombra amainava um inusitado calor nas férias escolares de julho.

Nos quase dois anos de governo de Isabelita, os conflitos políticos, já descontrolados sob seu antecessor, inclusive no interior do movimento peronista, se acirraram ainda mais. O golpe não tardou – a presidente em helicóptero rumo à base área militar de Ezeiza e de lá para o exílio na Espanha, eis do que me lembro – e, como é de praxe, foi saudado na Argentina pelas elites e por amplos setores das camadas médias. Conheço gente que até hoje se refere àqueles anos não como os da ditadura, mas como os da “subversão”, outorgando caráter necessário e legítimo ao golpe. São minoria, por sorte. Com a anuência e a colaboração de muitos civis, o movimento militar se proclamava Proceso de reorganización nacional. Chama a atenção como na história da democracia moderna, renunciado com rapidez à autonomia, tão facilmente apoiamos modelos autoritários e suas promessas de reconstituir a “ordem”, o “orgulho”, aquilo que “foi roubado”, “usurpado”, “degenerado”.

Até 1983, quando foi eleito Raúl Alfonsín, do Partido Radical, a ditadura argentina fez aquilo que os governos de exceção costumam fazer: ameaçou, censurou, perseguiu, torturou, matou, roubou, frequentemente na clandestinidade, mesmo que, paradoxalmente, à vista de todos. Destruiu grande parte da escola pública, da ciência e da Universidade. Instalando o terror como norma, justificou seus atos pelo combate a uma guerra que haveria sido provocada por inimigos da pátria, da ordem, da moral. Nesse contexto, entre tantas “obras”, os ditadores organizaram uma Copa do Mundo de Futebol, a de 1978, para a qual construíram estádios que permaneceram às moscas durante décadas – como o de Mar del Plata, onde a seleção brasileira jogou a primeira fase da competição – e que receberam equipamentos de segurança europeus. O Brasil, como se sabe, chegou ao terceiro lugar, mas a imagem que entrou para a história foi a do presidente da FIFA, João Havelange, ladeando placidamente Jorge Rafael Videla, o chefe da junta militar que se impunha como governo, nas tribunas da partida final entre os anfitriões e a seleção da Holanda.

Foi sob o governo de Videla e seus asseclas que começou, o rapto de bebês, geralmente recém-nascidos, filhos e filhas de moças sequestradas, torturadas e logo assassinadas, fato que deu origem ao Movimento das Madres de la Plaza de Mayo, que em seu protesto silencioso, lenços sobre as cabeças, desafiaram durante anos os ditadores de plantão na Casa Rosada. Para eles eram as “locas de la Plaza de Mayo”, que em delírio falavam de crianças que não haviam nascido, de filhos e filhas que simplesmente não se sabia onde estavam. Houve quem acreditasse nisso naqueles anos, sempre há os que creem no que lhes é mais conveniente.

O sequestro dos bebês e sua clandestina adoção por casais diversos é tema de um filme emblemático do cinema argentino, La Historia Oficial (1985), de Luis Puenzo, vencedor em Cannes – melhor atriz, para Norma Aleandro, no ano de seu lançamento – e do Oscar de filme “estrangeiro”, em 1986. Nele, uma professora de história oficialista, Alicia, com uma filha adotada, vai pouco a pouco se defrontando com o lado obscuro de seu país. Estamos no epílogo da ditadura, durante a catastrófica Guerra das Malvinas, última tentativa dos militares de se segurarem no poder. Antes de debater-se consigo e seu entorno doméstico – o marido é colaboracionista –, o embate de Alcia se dá em sala de aula, um lugar sempre prestes a, de alguma forma, explodir. Finalmente, ela também coloca um lenço sobre a cabeça e se junta, solidária, às mães que circundam a praça defronte à Casa Rosada.

A escola também é palco de um importante romance cuja temporalidade é a mesma de La Historia Oficial. No premiado Ciencias Morales, Martín Kohan tece um pequeno drama sob narrativa que anda ao ritmo dos atos e fantasias de uma preceptora do Colegio Nacional, instituição masculina sesquicentenária, uma das marcas da ideia de nação entre os argentinos. No breve livro de 2007, que recebeu uma tradução ao português no ano seguinte, a guerra no sul do mundo é uma amargura silenciosa, presente em cartões postais de um irmão, com nenhuma ou quase nenhuma inscrição. Na escola, não é na sala de aula que a trama se desenrola, mas nos pátios e corredores, onde a moça vigia, e no banheiro dos rapazes, onde ela perscruta, que as coisas acontecem. É de desejo, surgido nas brechas da demanda e se segurando como pode, que se trata a coisa. E é nele que mora, ainda que oculta – ou por isso mesmo –, a força do totalitarismo, a tentar o impossível: tomar o corpo em sua inteireza. Os regimes de força sabem o que atenta contra eles.

Em processo longo e não isento de dores, os argentinos julgaram e condenaram seus ditadores e muitos dos que colaboraram com o regime militar. Mesmo com concessões, equívocos e mesmo algum oportunismo, o avanço em direção a uma elaboração do passado que possa superar o trauma deu passos importantes no país vizinho. Às vezes tenho a impressão de que muitos dos desacertos que entre nós vivemos nos dias de hoje, quando sobra grito e falta palavra, guardam forte relação com a inépcia em lidarmos com nossa história, em estabelecer para ela narrativas que possam de alguma forma apaziguar os ânimos, não pelo esquecimento, mas pela recordação capaz de superar culpas, traumas, ressentimentos. Narrativas que façam, sem medo, assumir responsabilidades. Não, isso não se deu assim, tão perfeitamente, na Argentina, mas houve e há passos nessa direção. Poderíamos olhar para além da fronteira e de lá buscar coragem.

Berlim-Kreuzberg, março de 2016.

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