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A proletarização da profissão docente na escola pública: palavra de professor

Roberta Poltronieri

Não é por acaso que este tema tenha que vir a ser mais falado, tanto dentro da categoria professoral quanto pelos órgãos públicos. Me refiro neste momento a pensarmos na quantidade de professores que se afastam durante a profissão; quando não, estão submetidos a licenças-saúde sucessivas, devido ao adoecimento durante e até mesmo após suas aposentadorias. Mas vale a pena refletirmos sobre os possíveis motivos que inserem os professores nesta condição de adoecimento.

A escola pública passa hoje talvez, desde a implantação da LDB, por um dos piores momentos, no que se refere a investimento financeiro na medida em que interligamos nosso contexto de trabalho ao contexto nacional do país. Estamos com salas superlotadas. Somos responsabilizados por tirar licenças e abonadas, não há atendimento de qualidade para alunos que não aprendem no ritmo esperado, visto que o professor leciona muitas vezes com mais de 30 alunos ao mesmo tempo, inserindo-se em condições de trabalho cada vez mais escassa, o que contribui para seu adoecimento (DEJOURS, 1987; JESUS, 2007).

No ato educativo estamos relacionados com a demanda de problemas sociais dentro das escolas. Há muitos alunos que necessitam de acompanhamento com psicólogos, assistentes sociais, ajuda pedagógica extraclasse e acompanhamento de outros profissionais. Porém, os mecanismos de avaliação da escola enquanto instituição ainda cobram notas para os boletins e o Governo Federal aplica avaliações nacionais semelhantes em várias regiões do país, o que acaba por desconsiderar as particularidades do ensino, a exemplo disso temos a Prova Brasil.

Colocando-os assim, em condições de partida semelhantes, já que temos alunos que relacionam-se com o conhecimento de inúmeras formas, sem contar com os determinantes sociais que influenciam na aprendizagem. Somos culpabilizados em todos os momentos onde os resultados sobre a educação é publicizado.

Quando vamos aos cursos de atualização e palestras, alguns nos ensinam que a escola de hoje é a escola do século passado, e ainda hoje usamos giz branco, escrevemos no quadro verde escuro e a criança escreve no caderno. Ensinam-nos que devemos fazer aulas diferenciadas, trabalhar com o conhecimento cotidiano do aluno, usar jogos e atividades lúdicas, ao invés de reproduzir sequências didáticas já usada a anos, por nossos professores e os professores dos nossos professores, mas as condições reais para isso não nos dão esta possibilidade.

Neste cenário atual e com altíssimo absenteísmo de professores e alunos cada vez mais distantes da relação com o saber, nos cabem algumas perguntas. Precisamos buscar o conhecimento e a formação continuada sem dúvida, porém, somos vítimas de um sistema de precarização, que nos insulta a todo momento, quando nos pede para reproduzir as velhas e arcaicas práticas de ensino todos os dias, quando pede para avaliarmos os alunos por prova. Quando desprestigia nacionalmente a figura do professor em discursos políticos ou midiáticos, e não percebem que os professores estão adoecendo em sua forma mais primitiva. Adoecendo em sala de aula, impossibilitado de gestar seu próprio saber e próximo cada vez mais, aos limites que adentram o adoecimento mental e físico circunstanciado pelo seu contexto de trabalho.

Referências

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: um estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo. Editora Cortez, 1987.

JESUS, Saul Neves. Professor sem stress: realização profissional e bem-estar. Porto Alegre: Mediação, 2007.

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