Editorial (1)

A Marcha pela ciência é também a marcha pelos museus e centros de ciência no Brasil

Jessica Norberto*

Martha Marandino**

A preocupação com a relação entre ciência e sociedade e as discussões sobre seus impactos não é recente, mas são temas que têm tomado proporções maiores nos últimos anos no mundo todo e, em especial, no Brasil. Várias pesquisas sobre percepção pública da ciência vêm sendo realizadas e, em 2015, foram publicados os dados da última enquete, realizada pelo Centro de Gestão e Estudo Estratégicos (CGEE), da série de estudos de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil, do antigo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Os resultados desta pesquisa indicam, em linhas gerais, que dos 1962 entrevistados em todo país, 61% dos brasileiros demonstraram interesse por ciência e tecnologia, sendo este o quinto tema que mais atrai a atenção da população, atrás de Medicina e Saúde (78%), Meio Ambiente (78%), Religião (75%) e Economia (68%), mas na frente de Arte e Cultura (57%), Esportes (56%), Moda (34%) e Política (27%).

Em contrapartida, essa mesma enqueteindica que dos entrevistados apenas 26,1% visitaram um zoológico nos últimos 12 meses e, menos ainda, 12,3%, visitaram um museu de ciência e tecnologia ou um centro de ciências. Pesquisas mostram que o perfil dos visitantes dos museus em nosso país é de pessoas empregadas com alta remuneração, que estudam e possuem elevado nível escolar, sendo em sua maioria adultos e jovens de cor branca e do sexo feminino.Estes levantamentos, mesmo que ainda poucos e restritos, revelam a desigualdade do acesso aos espaços públicos de cultura e ciência eevidenciam quanto os museus nacionais ainda são frequentados por uma parcela restrita da população.

Para enfrentar esses desafios, programas governamentais foram propostos buscando ampliar o acesso e qualidade das ações de educação e divulgação dos museus e centros de ciências. Especialmente nos últimos quinze anos, o país vivenciou o crescimento das áreas de divulgação científica e ensino não formal de ciências, fruto de políticas públicas voltadas à inclusão social. Editais de popularização da ciência lançados pelo MCTI, em parceria com outros órgãos, como o Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), empresas privadas,e pelas Fundações de Amparo à Pesquisa dos estados (FAPs) foram cruciais para a inauguração de museus e centros de ciências em várias regiões do país e a estruturação e diversificação de atividades dos espaços já existentes.

A curva de crescimento e fortalecimento dessas ações, entretanto, inverteu nos últimos anose o que se vê é a vulnerabilidade dos museus e centros de ciências diante do atual cenário de crise econômica e política em todos os níveis de poder. Em 2015, o Guia de Museus e Centros de Ciências lançado pela Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciências (ABCMC) listou 268 desses espaços no país. Porém, atualmente,não se sabe ao certo quantos desses locais ainda estão abertos ao público.

José Ribamar Ferreira, presidente da ABCMC afirma que “ainda não há uma pesquisa nesse sentido, mas temos conhecimento de vários museus, inclusive alguns icônicos na área, como a Estação Ciência (USP) e o Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia (MCT/BA), que há muito tempo vêm sofrendo longas interrupções no seu funcionamento e atualmente estão fechados, não se sabendo quando ou se serão reabertos”.Recentemente ainda assistimos as ameaças à extinção da Fundação Zoobotânica do RS: criada em dezembro de 1972, ela administra o Museu de Ciências Naturais, o Jardim Botânico e o Zoológico de Sapucaia do Sul. Entre as suas atividades, estão incluídos o monitoramento das espécies em extinção no estado e o fornecimento do veneno de serpentes para produção de soro antiofídico no Sul do país.

A carta da ABCMC enviada em março deste ano ao Ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação em defesa dos centros e museus de ciência e da popularização da ciência em geraldenunciaa situação preocupante de alguns espaços do país:em Vitória (ES), a precarização do Planetário de Vitória (1995), da Praça da Ciência (1999), da Escola da Ciência – Física (2000) e da Escola da Ciência – Biologia e História (2001); em Porto Alegre (RGS) a já citada extinção da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul (FZB); em Duque de Caxias (RJ) a dificuldade pela qual passaoMuseu Ciência e Vida.

O Museu Ciência e Vida, inaugurado em 2010 pela Fundação CECIERJ, vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Social do Estado do Rio de Janeiro, há mais de um ano vem sofrendo cortes nos recursos destinados a pagamento de pessoal e manutenção de infraestrutura por causa da crise financeira do estado. Com isso, os horários de funcionamento e o número de exposições e atividades reduziram significativamente. Como afirma a sua Diretora, Mônica Dahmouche, “uma vez que os compromissos com os prestadores de serviço não são honrados, esses acabam por serem descontinuados comprometendo o funcionamento dos programas em sua plenitude”. O museu, que é um dos poucos espaços científico-culturais da região da baixada fluminense, conta com recursos externos ao orçamento do estado, como aqueles vindos de agências de fomento, como CNPq e FAPERJ, e oriundos do MCTIC e BNDES para montagem de novas exposições e diversificação da agenda de atividades. Entretanto, para ela, “se não são renovados através de novas oportunidades, futuramente, teremos dificuldade em manter a variedade e oferta dessas ações. O impacto será a redução de oferta de tais atividades, refletindo em uma diminuição do acesso a atividades de cultura e educação, a médio e longo prazo, pela população”.

Diante dessa realidade, é necessário agir para impedir novos recuos e buscar a retomada do desenvolvimento das políticas públicas para a popularização da ciência. José Ribamar explica que as sociedades científicas, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a ABC, assim como a ABCMC, também se manifestaram em reuniões com as autoridades do MCTIC, na Comissão de C&T do Senado Federal e por meio de documentos, mas seus protestos estão sendo solenemente ignorados.

Recentemente, a carta enviada ao ministro pela ABCMC afirma que umaação urgente do Ministério, com iniciativas no seu próprio âmbito e de articulações com outras instâncias governamentais se faz imperiosa para reverter esse difícil momento e aponta que uma questão certamente viria atender a algumas necessidades imediatas de muitos museus: a liberação dos restos a pagar da Chamada MCTI/CNPq/SECIS nº 85/2013 – Apoio à criação e ao desenvolvimento de Centros e Museus de Ciência e Tecnologia com recursos do FNDCT. Segundo Ribamar, dos R$ 20 milhões previstos no edital, mais da metade desse valor ainda não foi liberado.

Douglas Falcão, pesquisador do Museu de Astronomia e Ciências Afins e último diretor do Departamento de Popularização e Difusão de Ciência e Tecnologia (DEPDI) da Secretaria de Ciência e Tecnologia para Inclusão Social (SECIS) do antigo MCTI, acredita que “talvez o nosso maior desafio nos próximos anos não seja necessariamente a ampliação e melhor distribuição destes equipamentos culturais pelo território nacional e, sim, lutar prioritariamente para que as instituições existentes se mantenham”.

A extinção do DEPDI e da SECIS, cujos papéis eram fundamentais para a manutenção de políticas públicas na área, com o Decreto 8877, de 18/10/2016, agrava a situação e revela um futuro incerto com menos recursos financeiros. Dentro da nova estrutura, as ações de divulgação de ciência e tecnologia foram reduzidas à responsabilidade da Coordenação Geral de Popularização e Divulgação da Ciência, que por sua vez, está vinculada ao Departamento de Políticas e Programas para Inclusão Social, no âmbito da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento. Douglas Falcão aponta que “trabalhamos para que os regimentos internos do Departamento e da Coordenaçãocontemplassem fortemente a popularização da ciência e possibilitassem uma ambiência institucional favorável amanutenção e a ampliação da política que estava em curso. No entanto, o que está por vir dependerá essencialmente da vontade política do novo Ministério”. Por esse motivo, ele recomenda que os gestores dos museus e centros de ciências e outras pessoas envolvidas com ações de comunicação da ciência no país “visitem Brasília. Escrevam documentos com sugestões e avaliações sobre as ações em curso. Procurem as autoridades que estão com a ‘caneta na mão’. Em geral, tais autoridades desconhecem a existência de uma comunidade de Divulgação de Ciência no país”.

Dia 22 de abril ocorrerá, simultaneamente em todo o planeta, a Marcha pela Ciência. Mais de 400 cidades em todos os continentes, sobretudo nos Estados Unidos, onde começou a iniciativa, e na Europa estão envolvidas. A SBPC está divulgando e apoiando a Marcha, pois trata-se de um evento mundial que pretende chamar a atenção de estudantes, professores, cientistas e pesquisadores, governantes e tomadores de decisão, e de toda a sociedade, sobre a necessidade de apoiar e preservar as instituições e a comunidade científica de todo o mundo. Segundo a carta da SBPC, amplamente divulgada, esse apoio é fundamental em um momento em que a atividade científica para o bem de todos sofre várias ameaças, como mudanças em políticas públicas, redução e desvio de verbas e financiamentos públicos, partidarização da política de C&T e, o que mais assusta, a tomada de decisões políticas que não levam em consideração as evidências científicas. Para a SBPC, esse cenário ocorre especialmente nos Estados Unidos, de maneira gritante em relação ao que vêm demonstrando as pesquisas relacionadas às mudanças climáticas, mas é, também, uma preocupação de nível mundial. No Brasil, a defesa do “Conhecimento sem cortes” (mote do movimento) irá acontecer em pelo menos 15 cidades, de grande e pequeno portes, de norte a sul do país, dentre elas: Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Belo Horizonte (BH), Goiânia (GO), Porto Alegre (RS), Belém (PA), Manaus (AM), Natal (RN), Petrolina (PE), Pato Branco (PR); Diamantina (MG), Brasília (DF), Florianópolis (SC), Petrópolis (RJ), Boa Vista (RR).

A SBPC está apoiando integralmente a realização da Marcha pela Ciência no Brasil e vemdivulgando e convidando todos os brasileiros a participar do evento. De nossa parte, conclamamos a todos a incluir mais uma luta nessa agenda que já está longa: a da preservação dos museus e centros de divulgação científica do país, para não corrermos o risco de que os tristes dados levantados sobre a baixa participação e conhecimento da população brasileira sobre estes espaços sejam ainda menores!

 

Notas:

1. Todas as atividades da Marcha da Ciência no Brasil, os contatos dos organizadores nas diversas instituições e cidades e outras informações estão sendo noticiadas no Facebook “Marcha pela Ciência no Brasil

2. No Rio de Janeiro a atividade será ampliada para a semana seguinte em várias instituições e universidades. Dia 25/04, 11h, haverá um debate na UFRJ com Helena Nader e Luiz Davidovich sobre o impacto dos cortes.

 

* Doutoranda em Educação na Universidade de São Paulo

** Professora Associada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

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