A infância pede guarida

– Um “rito” de passagem cobra “passagem” –

Ivane Perotti

“Se a criança não receber a devida atenção, em geral, quando adulta, tem dificuldade de amar seus semelhantes.”

Dalai Lama

Por fora, os traços marcados forjavam máscaras de uma adultice precoce e decadente. Os sonhos descoloridos grudavam-se ao chão com o poder de garras amoladas na realidade desfocada. Pedras e moleiros construíam o mesmo castelo em cartas marcadas e masmorras emocionais: a infância escorria a céu aberto. Classificadas por categorias funcionais, algumas serviam ao propósito dos pais, outras ao propósito do Estado – instituído em poder de guarda –, outras moviam o poder capital – objetos de persuasivas estripulias comerciais –, ainda outras pagavam a pena dos genitores desconstruídos a sovéu curto; e havia mais, muitas mais, abandonadas, alijadas de seus direitos, esquecidas e violadas, assassinadas pela indiferença mundial, massacradas por interesses grupais.

Poucas, poucas crianças contavam com o sol para fazer-lhes companhia, com as nuvens a desenharem-se em fantasias, com abraços e mãos em conchas de afagar. A fuga do “rito” passava por vias indiretas e traçava rabiscos sem graça pelos corredores dos shopping centers, abandonava as praças ao sabor das pipas esquecidas, camuflava as ruas abarrotadas de rostos desprezados, mutilava corpos nas guerras deflagradas por bandeiras que arrastam o terror.

“Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância.”

Mário Quintana

Por que calçadas da vida caminham as nossas crianças?

Crescer tem gosto de prego enferrujado na boca dos pequenos desvalidos, ou transformados em jogos de querer (na Gramática de Casos de Filmmore, “querer” é analisado entre os verbos de entendimento e vontade que “afeta” o ser animado pelo estado ou ação identificado pelo próprio verbo). Afasta-se o fantasma da responsabilidade alimentando as cadeias de um sistema em pirâmides de desejos criados fora da alça da infância. Com quantas sacolas carregam-se os desejos de um ciclo cujas manobras são típicas do aprendizado tutelado? Ou não! A tutela exige participação e a infância gera trabalho, planejamento, conhecimento emocional, limites, e sobretudo… sobretudo exige amor. O famigerado sentimento desbotado nas agruras da semântica visceral.

Entre as baleias, os golfinhos e as crianças, falta um Greenpeace para salvaguardar as últimas dos Estatutos inoperantes, das leis impraticáveis e dos adultos sem tempo e sem lembranças.

“Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me ‘Por que um chapéu daria medo?’ Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jibóia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas.”

Saint-Exupery

A infância é um “rito de passagem” que cobra tarifas em um futuropresente/presentefuturo. O passado é um presente quantificado em pacotes de comportamento sem liquidação.

Se existe um destino e um dia, que a commemoratio nos traga à lembrança pragmática e aplicável os valores da criança primordial.

This Post Has One Comment
  1. Caríssima Ivane, olá!
    As voltas estou com o encontro de um novo espaço de trabalho, e nesse inusitado e indesejável percurso nos encontramos virtualmente, por palavras. A sensibilidade constantemente presente em você, neste seu texto, nos afeta, e lembrando minha querida Maria Auxiliadora Mattos Pimentel – “Afeto é tudo que afeta”. Adorei – e não – a ideia de um Greenpeace! Se levar a efeito, me chame.
    Sucesso, sempre.

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