A Imprensa e o Golpe: relações educativas no movimento da história

O escritor mineiro Bernardo Guimarães publicou, em 1865, um  longo poema sob o emblemático título de Dilúvio de Papel. Nele, o narrador é assolado pelo pesadelo de ver o fim do mundo, invadido por um dilúvio de papel. O poeta remetia ao crescimento exponencial do número de jornais brasileiros nas décadas anteriores e, ao mesmo tempo, mostrava grande ceticismo quanto à possibilidade de as folhas cumprirem suas promessas de ilustração e esclarecimento da população. Não por acaso, pergunta: “Oh! século dezenove, Ó tu, que tanto reluzes, És o século de papel?!…”. 

De lá para cá, a imprensa se constituiu numa grande empresa e os jornais não cessaram de inundar nosso dia a dia com notícias e opiniões sobre os mais variados assuntos. E não apenas por meio dos diários impressos, cada vez mais em crise e buscando modos nem sempre honestos de se manter. Iniciativa individual ou de pequenos grupos políticos, como no século XIX, ou grande conglomerados empresariais transnacionais, como hoje, a imprensa sempre teve uma face educadora. 

Nessa semana em que a sociedade brasileira se viu foi, mais uma vez, surpreendida e confrontada com a mais dura realidade da corrupção e da criminalidade organizada que tomou conta da República, é preciso perguntar sobre o papel da imprensa nisso tudo.  

A desfaçatez como, mais uma vez, foram “vazadas” para as organizações Globo as informações que provam o envolvimento direto do Presidente da República, Michel Temer, e do Senador da República, Aécio Neves, em crimes de corrupção (e outros mais) e a forma como a empresa utilizou o privilégio que lhe foi concedido pelas autoridades da polícia federal e do judiciário indiciam as faces mais obscuras das relações entre a imprensa e o poder no Brasil. 

Ao trazer á luz as revelações de um dos delatores envolvidos em corrupção, parecia que era a primeira vez que os nomes do Presidente da República e do Senador apareciam relacionados à corrupção.  Os comentaristas e jornalistas da empresa que cresceu sob as benesses da Ditadura Civil-Militar queriam passar a impressão de que aquilo tudo que se dizia era uma absoluta novidade. Ali, revelava-se, mais uma vez, o investimento da imprensa no obscurantismo e no esquecimento.  

Fazer tabula rasa de tudo que já se sabia e se cantava, em verso e prosa, sobre o envolvimento de Michel Temer e Aécio Neves com a corrupção é, sem dúvida, uma corrupção das finalidades e das possibilidades da imprensa. Do mesmo modo, é corrupta a aliança dos meios de comunicação brasileiros com setores do Judiciário e da Política Federal no investimento ilegal contra os sujeitos e as organizações considerados seus inimigos políticos. 

O esclarecimento, como uma das faces da imprensa e da educação, é uma possibilidade. Mas isso somente ser realizará quando a corrupção da própria imprensa foi objeto de nossas discussões coletivas. Mas não basta isso. É preciso considerar que a própria corrupção da imprensa e das práticas corruptas que atravessam de fora a fora as sociedades modernas não são improdutivas para todo mundo. Há que se identificar e expor a produtividade da corrupção e aqueles e aquelas que lucram com ela. Sem essa crítica à corrupção estruturalmente organizada em sua forma capitalista e ao capitalismo como uma forma de corrupção organizada globalmente, corremos o risco de, como o poeta, apenas sonhar com a resolução do problema e continuar a viver os pesadelos do cotidiano. 

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