Editorial(1)

A fragilidade das informações diante do enfraquecimento da reflexão: a internet não acabou com a ignorância

Tiago Tristão Artero

Fenômeno da era da internet, a facilidade em encontrar informações sobre determinado assunto é notável. Mais do que isso, a enxurrada de informações que chegam até as pessoas não permite a devida reflexão necessária, relativa a cada uma delas.

O fato é que, se não encontrarmos uma estratégia de classificar cada uma das informações por características similares e, certamente, mais importante do que isso, se não reservarmos uma parcela de tempo proporcional para refletirmos sobre as mesmas, serão simplesmente notícias ou dados que, ou não farão muito sentido, ou estarão vinculados a motivos específicos de determinado veículo de informação.

Este fenômeno não é decorrente exclusivamente do acesso à internet ou da visualização de programas televisivos, também se dá na interação entre as pessoas e no processo formal de ensino e aprendizagem, como escolas, universidades e cursos em geral. Diversas informações são transmitidas sem a vinculação com seu processo histórico, as motivações e contextualização. Para as boas e os bons docentes, a relação das informações com elementos históricos vinculados a estas e com a organização social não são furtados da reflexão construída nos ambientes de aprendizagem.

Parece que, propositalmente, novelas, jornais e os mais diversos programas televisivos quase sempre inserem superficialidade no trato com as informações, à exceção de alguns poucos programas que passam em horários pouco disputados. Não é difícil concluir (pelo menos para os que se pautam no materialismo histórico para analisar os processos sociais) que este tipo de mídia pode ser chamado de mídia empresarial, pois vem cumprir e atender interesses da iniciativa privada (ou seja, seus patrocinadores).

Nas redes sociais, não raramente, são postados links que nos levam a “reportagens” (se é que podemos assim chamá-las) cada vez menores, esvaziadas e com muitos erros gramaticais. O título da matéria e a imagem vinculada a ele parecem ocupar maior relevância do que a própria matéria em si. Estamos assistindo um fenômeno de distanciamento entre o título da matéria e a possível reflexão contida na integralidade da mesma. Além das matérias, há memes e diversos formatos de posts que assumem roupagem de verdade, quando vistos de maneira pouco cuidadosa ou quando vistos por um público cativo que, de antemão, já se identificava com as ideias contidas nas respectivas postagens.

Quanto menos reflexivos forem as leitoras e leitores, mais as fakenews encontrarão terreno fértil no bojo das ideologias que orbitam a sociedade. Certamente que os grupos dominantes buscarão formar consensos sobre determinados conceitos para que a hegemonia de suas ideias se mantenha. Não medirão esforços para isso, a fim de consolidar seus interesses, mesmo que por coerção.

Quando houve o advento da internet, dos livros digitais e das ferramentas de pesquisa, a impressão era de que a escola se tornaria obsoleta e qualquer pessoa poderia se informar sobre qualquer tema e aprofundar o conhecimento, fazendo com que os indivíduos se tornassem “mais inteligentes”.

Oras, por que isso não ocorreu?

Primeiramente que a mediação docente é fundamental na formação de conceitos e no oferecimento de ferramentas que permita a superação da percepção imediata. Também, não podemos afirmar que estamos tendo contato com um maior volume de conhecimento, uma vez que estamos consumindo notícias que, não raro, podem confundir-nos, dada sua condição de fragmentação e, infelizmente, estão sujeitas a terem sua veracidade alterada. Parece que ainda não criamos mecanismos de verificação das fontes na magnitude da população, mesmo que estes mecanismos já existam.

É a formação de conceitos que permite a superação da ignorância. O desafio que se coloca é se a relação entre o volume de informações ao qual estamos expostos é diretamente ou inversamente proporcional à capacidade que temos de refletir sobre os assuntos ou acontecimentos abordados. É um desafio da sociedade como um todo e, especificamente, da escola e da mídia utilizar-se de metodologias que permitam a formação de conceitos por parte da sociedade que está tendo contato com as informações diluídas nos mais diversos ambientes, físicos ou digitais.

É a reflexão que permitirá o aprofundamento e a compreensão das informações e, consequentemente, o desenvolvimento social e humano. A falta desta reflexão poderá gerar a decadência de toda uma sociedade, advinda do avanço do obscurantismo que, a todo o momento, nega a ciência e o próprio conhecimento.


Imagem de destaque: @TAYLORCKT1

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