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A falácia do sujeito passivo

Wojciech Andrzej Kulesza

O desenrolar do processo eleitoral no ano passado espalhou em nossa sociedade um de seus fantasmas mais assustadores: a possibilidade de manipulação de seres humanos por outros seres humanos. Assombrada pela perspectiva de que eleitores pudessem vir a se comportar como marionetes de um poderoso Big Brother orwelliano, sorrateiramente acobertado pelas novas tecnologias de informação e comunicação, a opinião pública passou a questionar nosso livre arbítrio, fazendo estremecer valores fundamentais da democracia. Os educadores então, ficaram simplesmente horrorizados. Com seu zelo em assegurar a autonomia dos educandos, eles não podiam admitir tamanha intromissão na consciência de seus alunos, uma vez que tal ação seria compatível com uma lavagem cerebral em regra. Se fosse possível dispor desse poder de interferência, iria por água abaixo a crença de que as experiências vividas pelo sujeito seriam determinantes para a construção do seu conhecimento do mundo.

 Essa negação da autonomia do sujeito ao elaborar seu próprio entendimento e sua consequente passividade face à toda poderosa realidade exterior tem alimentado toda sorte de frustrações, desilusões e, porque não dizer, desencanto com a condição humana em nosso tempo. E o pior é que essa negatividade independe do valor ético das ideias que estariam sendo insinuadas nessa manipulação. A simples possibilidade de que uma coisa assim possa ser realizada, mesmo em pequena escala e temporariamente, fez soar o alarme anunciando que o futuro da sociedade está em risco. Por isso, a investigação sobre os fundamentos desse fenômenonos parece urgente para mitigar sua influência em nosso cotidiano e subsidiar os esforços dispendidos no sentido de esclarecer seu modus operandi, principalmentepara determinar a quem esse fenômeno beneficiaria.

Em primeiro lugar, a alegada passividade dos sujeitos face aos dispositivos tecnológicos não resiste à menor crítica. De fato, no mundo digital a ação dos sujeitos é também digital! Quando a telinha no seu aparelho pergunta se você permite que sua localização pode ser utilizada e você, ansioso por dispor daquele aplicativo plenamente, clica yes, pronto, você já está enredado na web, passando a receber ofertas de lojas próximas e aumentando a estatística dos que buscam aferir o afluxo de clientes aos centros comerciais. É mais ou menos o que acontece quando você procura na internet o preço de uma geladeira e, imediatamente, surgem no seu computador inúmeros reclames oferecendo todo tipo de refrigerador. Ninguém está obrigando você a nada: foi você mesmo que revelou que, eventualmente, precisava de uma geladeira!

Veja que quando você dispara um impulso na rede você o faz anonimamente, ninguém precisa saber quem você é, mas o que você quer, o que você precisa. É claro que se a sua ação na rede for julgada prejudicial para alguém existem meios para identificar o aparelho por meio do qual você realizou a ação e em nome de quem ele está registrado. Basta porém, que em suas operações, você esteja fazendo uso do seu e-mail ou do seu celular, para que essa informação possa ser usada para revelar coisas sobre você, por onde você anda ou do que você gosta e daí estimar qual deve ser o seu perfil. É simples assim: quanto mais você age na rede, mais você se revela para os outros. Consciente ou inconscientemente, mas de uma forma espontânea, você desempenha um papel importante no tipo de informação que você recebe. Vemos assim que a pretensa passividade dos receptores, eventualmente eleitores, é totalmente ilusória, sujeito passivo nada mais é do que um oxímoro.

Vimos como se pode inferir informações sobre você naturalmente, apenas observando como você se comporta quando tem oportunidade de agir na rede. Quem estiver de fato disposto a traçar o seu perfil – de consumidor por exemplo – pode testar as hipóteses feitas com base nas estimativas acima lhe enviando mensagens para ver como você se comporta, começando por saber, antes mesmo de você responder, quando você fica online ou o tempo que você leva para abrir uma mensagem no WhatsApp (facilmente detectado pela coloração dos dois tracinhos indicadores). Tecnicamente, o que se faz é disparar essas mensagens-teste para um número grande de consumidores com o mesmo perfil estimado, elegendo-se assim os clientes cuja probabilidade de propensão ao consumo de um determinado bem seja alta. Até aqui estamos num cenário totalmente legal: você permitiu que todas essas ações fossem realizadas. Se agora porém, eu obtiver ilegalmente os dados pessoais desses clientes, tais como eles postaram no facebook, além de aumentar minhas certezas sobre o perfil desses consumidores, posso estender minhas inferências para outros aspectos de seu comportamento, testando-as da mesma forma.

Uma vez identificado um determinado comportamento, será muito fácil, como ensinam os behavioristas, reforçar esse comportamento, até o ponto de ele surgir como uma característica “natural” daqueles clientes. Este é o momento no qual este comportamento parece ter sido induzido do exterior, sendo apropriado passivamente pelo sujeito. Contudo, como vimos, para se chegar a esse resultado foi necessário que o sujeito realizasse uma série de ações na rede, acessos, permissões, compartilhamentos, indicando uma certa predisposição dele para se comportar da forma por mim modelada. Ou seja, mesmo usando os mais complicados subterfúgios eu só consigo modelar o sujeito dentro dos limites por ele mesmo estipulados. Claro que o sujeito pode se comportar em determinadas situações da forma que eu imagino, mas apenas de uma forma acidental – equivocadamente, por exemplo – nunca racionalmente comandado por meus cometimentos. Esta autonomia parece ser uma propriedade comum a todos os seres vivos, uma vez que as consequências de qualquer ação externa sobre o organismo são determinadas pelo próprio organismo. Nas palavras do biólogo Humberto Maturana, todas as ações do ser humano“estão subordinadas à invariância de nossa autopoiese”.


Imagem de destaque: ROBIN WORRALL/Unsplash

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