A escola primária noturna em Minas Gerais (1891-1924)

João C. R. Andrade*

 

O livro escolhido para apresentarmos ao convite à leitura é a edição pela Mazza Edições, em 2012, da tese de doutoramento da Professora Dra. Vera Lucia Nogueira, hoje, coordenadora do PPGE/FAE/UEMG. O trabalho integra as publicações do Projeto “Pensar a Educação Pensar o Brasil (1822-2022)”, da FAE/UFMG.

Aquele trabalho oportuniza-nos compreender os processos de construção da “Escola Primária Noturna Em Minas Gerais (1891-1924)”. É apresentado na forma de um prefácio, introdução, quatro capítulos, considerações finais e as referências. Se pode apreender da leitura do mesmo uma relação entre os referenciais da história social e cultural, buscando explicitar através de uma análise de documentos – tais como leis, relatórios de inspetores, decretos, legislações educacionais, alguns dos processos – os sujeitos que “atuam” naquela construção. Durante a escrita, buscou-se evidenciar as disputas acerca de suas elaborações, suas práticas, e representações. Ou seja, buscou-se explicitar e compreender, através da análise desses documentos, as múltiplas vozes dos vários sujeitos e instituições que participaram daquele processo de conformação da escola primária noturna em Minas Gerais. A compreensão daqueles documentos foi fundada na perspectiva da análise do discurso.

Durante o primeiro capítulo, a pesquisadora prioriza uma análise das escolas noturnas a partir de uma compreensão das variadas tensões e disputas, sobretudo entre poder executivo e legislativo, e mesmo entre os legisladores, tendo em vista atender seus interesses locais e construir uma escola moderna, com vistas a adentrar ao suposto “mundo civilizado”, europeu. Nesse movimento, o trabalho da pesquisadora nos possibilita compreender, sobretudo, as tensões várias naquilo que se refere a configuração das escolas primárias noturnas. Dessa forma é possível acompanharmos o movimento em torno da tentativa de afirmação, e configuração daquelas escolas, com suas idas e vindas, silêncios ou mesmo negligenciamento.

No segundo capítulo, sobretudo através de relatórios dos inspetores, no jornal “O confederal”, a professora explica-nos os movimentos de inciativas de construção de escolarização noturna dos trabalhadores mineiros. Um desses relacionados a iniciativas das fábricas, e outro, realizado por parte do movimento dos trabalhadores. Em certa medida, e com diferentes perspectivas, ambas convergem para uma afirmação da escola primaria noturna moderna, a busca de uma educação iluminista para os trabalhadores, crianças, jovens e adultos.

No capítulo seguinte, apreendemos alguns dos processos da tentativa de elaboração da identidade da escola noturna, através do esforço de se compreender a construção dos programas de ensino para essa escola. Analisando alguns discursos do legislativo e do executivo, podemos compreender através da escrita analítica de Vera Nogueira a pouca atenção às especificidades da escola noturna. De outro lado, acompanhando a pesquisadora, não se pode deixar de apreender um movimento de discussão, de tensões acerca do programa para essa escola. Não obstante, ao final predominará a elaboração de um programa “mais prático e útil” aos sujeitos da escola primaria noturna mineira, à época.

No último capítulo, o trabalho oportuniza-nos compreender aspectos fundamentais da identidade dos sujeitos da escola primária noturna – os estudantes, professores, diretores. Além da questão de gênero e das lutas por condições de trabalho, relacionadas às professoras, há as tensões entre trabalho e escola, e escola e trabalho, sobretudo quando se trata dos alunos. É desse movimento que, potencialmente, se configurara, no caso dos estudantes, uma identidade de classe dos mesmos, pois a experiência com o trabalho é aí fundante.

Enfim, nesses tempos de “negacionismo histórico”, essa pesquisa, traz contribuições às dimensões da historicidade, reveses, tensões, negociações várias, entre variadas instituições, sujeitos, acerca da configuração da escola primaria para os/as sujeitos da EJA, que emerge durante a intencionada, mas talvez, ainda a ser efetivada, proclamação da república, em terras dos botocudos. Aspectos esses analisados a partir de estudos dos discursos escritos em vários documentos e o cruzamento entre algumas vozes, tanto institucionais quanto de relações entre sujeitos, que emergem, cientificamente, da análise deles.


Fica o convite à leitura desse trabalho:

NOGUEIRA, Vera. L. A escola primária noturna em Minas Gerais (1891-1924). Mazza Edições. Belo Horizonte. 2012.

*João C. R. Andrade é mestre em Educação pela FAE/UEMG e professor de história com a EJA, na rede municipal de Betim. Também faz parte do grupo de pesquisa Polismnemosine/PPGE/Fae/UEMG e é colaborador do Projeto “Pensar a Educação, Pensar o Brasil”. Contato: andrade1968@gmail.com

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