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A Educação em Saúde em tempos de pandemia: tecnologias e novos sentidos no campo

Bráulio Silva Chaves*

Polyana Aparecida Valente**

As epidemias mobilizam a sociedade e funcionam como uma lente de aumento sobre os problemas, sociais, políticos, econômicos, raciais e de gênero. Elas evidenciam a importância do Estado e das políticas públicas para estabelecer diálogos com a sociedade e ampliar o acesso aos direitos humanos. Com a pandemia do novo coronavírus não é diferente. Desde março de 2020, quando ela bate à nossa porta, a sociedade e seus diversos atores buscam construir respostas e “adaptar-se” aos planos de contingenciamento e mitigação dos impactos. O tema do isolamento e seus efeitos tornou-se pauta assídua e escancarou a desigualdade da sociedade brasileira.

Diante de uma sociedade tão diversa e desigual é possível criar estratégias que guardem tal diversidade? Os decretos, os pronunciamentos e as medidas emergenciais são suficientes? Como lidar com as vidas que vão e as que ficam? Como responder às condições de precariedade de algumas camadas da população assoladas pela fome, violência, desemprego e outras mazelas? Está nítido que as respostas a essas e a outras questões não estão dadas, precisam ser construídas. Nesse texto, ressaltamos como um caminho possível e promissor as ações no campo Educação em Saúde em diálogo com as tecnologias.

Entendemos que a pandemia do novo coronavírus reposicionou a Educação em Saúde em nossas vidas. As práticas de prevenção e cuidado estão – ou deveriam estar – em um lugar central no nosso cotidiano. O momento, mesmo com sua dramaticidade, nos ajuda a pensar na construção histórica da Educação em Saúde, em sentidos que foram incorporados e exigiram mobilizações e a construção de uma legitimidade. Foi necessário repensar as práticas para além de ações diretivas, autoritárias, algo que muito se fez – e ainda se reproduz – em ações verticalizadas, como grandes campanhas de medicalização que remontam ao início do século XX. O novo lugar da Educação em Saúde que foi tecido inclui afeto, interação, horizontalidade, respeito aos saberes populares e tradicionais e está balizado pelas importantes conquistas da ciência.

A união não é simples. A educação traz seu repertório de discussões em relação aos processos de ensino e aprendizagem e, no caso específico, da edificação de outros espaços do conhecimento. A saúde se faz presente como um conceito em mutação, ao se afastar da centralidade na doença, amplia seu foco em olhares multicausais, em que o bem-estar está interligado à nossa condição de seres sociais, no elo entre o humano, a natureza e a sociedade. Ao juntar essas variáveis, sobretudo a partir da década de 1960, a Educação em Saúde conecta alguns daquelas e daqueles que a fazem na prática, configurando-se como um ato comunicacional cheio de intenções. Com uma agenda democrática da saúde pública com a criação do SUS, em 1988, a Educação em Saúde passa a estar mais próxima da comunicação popular e da divulgação científica.

Hoje, na pandemia, o desafio é grande e as tecnologias são aliadas importantes para que certos princípios conquistados pela Educação em Saúde estejam garantidos. Nessa aliança, cabe também um resgate: da tecnologia como produção social, fruto do trabalho e que, por isso, deve ser apropriada coletivamente. O neoliberalismo potencializou o que podemos chamar de um regime tecnocientífico em que a produção tecnológica se separa de onde ela emerge e passa a ter um fim pragmático, instrumentalizado e a serviço de certos valores egoístas e individualistas do mercado. Tecnologias e educação em saúde não são uma discussão nova, mas há novos sentidos. Em um contexto em que estamos mais distanciados fisicamente do que socialmente, haja vista a intensificação do trabalho mediada pelas tecnologias, é momento de percebê-las também como potencializadoras da Educação em Saúde, resgatando seu conteúdo cooperativo, solidário e menos tecnocientífico.

Nesse trânsito de novos sentidos e reposicionamentos, as tecnologias no combate à Covid-19 poderiam se distanciar da precarização e se constituir como alternativas concretas para incrementar o trabalho de todos e todas que se envolvem com a saúde, dos laboratórios à linha de frente nas periferias. Não é a substituição do humano pela tecnolatria, muito menos dispensá-la pela tecnofobia. Se a hipertecnologia pode contribuir para decifrar o novo coronavírus e o seu controle, as plataformas livres, iniciativas de cooperação e diversos dispositivos podem garantir laços gregários e solidários em um momento político do Brasil em que instituições parecem derreter. A anunciada e desejada possibilidade de uma vacina na parceria entre a Fiocruz e a Universidade de Oxford, por exemplo, exigirá ações de Educação em Saúde, sobretudo, diante de movimentos negacionistas. Dessa forma, Educação em saúde e tecnologias unem-se como um esteio para a garantia de direitos fundamentais e da própria dignidade humana em meio à sensação de vazio e deriva sociais.

Referências

CUETO, M. El regreso de las epidemias. Salud y sociedadenelPerúdelsiglo XX, Lima, Instituto de Estudios Peruanos, 1997.

SCHALL, V. T. Science education and popularization of science in the biomedical area: its role for the future of science and of society. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (Impresso), v. 95, n.Supl. 1, p. 71-77, 2000.

VENTURA, D., RIBEIRO, H., DI GIULIO, G., JAIME, P., NUNES, J., Bógus, C., FERREIRA ANTUNES, J. L. &ALVES WALDMAN, E. Desafios da pandemia de COVID-19: Por uma agenda brasileira de pesquisa em saúde global e sustentabilidade.Cadernos de Saúde Pública. 2020 May 1;36(4).

*Pós-doutorando na Fiocruz/MG. É doutor em História pela UFMG e  Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG), no Departamento de Ciências Sociais e Filosofia. Atualmente, é coordenador do GEPTT (Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho e Tecnologias) e tutor do “PET-ConecTTE-CEFET-MG, Conexão Interdisciplinar: Trabalho, Tecnologias e Educação” (Programa Institucional de Educação Tutorial do CEFET-MG). Coordena projetos de extensão popular e divulgação e popularização da ciência em aglomerados de Belo Horizonte. Na pesquisa, trabalha com os Estudos CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), História das Ciências da Saúde e com a Educação em Saúde.

**Pós-doutoranda da Fiocruz/MG no campo da Saúde Coletiva. Professora da Universidade do de Minas Gerais (UEMG) em Ibirité. Doutora em História pela UFMG. Mestre em Ciências Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz/RJ. Atualmente suas áreas de interesse em pesquisa são: História das Mulheres na Ciência e na Saúde, Gênero e Ciências, Mulheres do Campo, Educação em Saúde, História e Cultura Afro-brasileira, Feminismo Negro.

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Este texto integra uma parceria entre o Pensar a Educação, Pensar o Brasil 1822/2022 e o Instituto René Rachou (Fiocruz) para promover ações e reflexões em torno da Educação para a Saúde.


Imagem de destaque: National Cancer Institute / Unsplash

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