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A educação e a ética para uma cidade aberta

Roberto Rafael Dias da Silva

Richard Sennett é um pensador social que marcou profundamente minha trajetória intelectual. Seu pensamento desafia-me a buscar novas interpretações e, mais que isso, a encontrar alternativas aos modos de vida capitalistas que hoje predominam. Ao longo deste semestre tenho construído, em minhas colunas no Pensar, um itinerário de leituras diversificadas que me acompanham nestes dias de quarentena. Para finalizar este caminho, neste mês de julho decidi comentar a obra “Construir e habitar: ética para uma cidade aberta”, cuja tradução foi publicada no Brasil no ano de 2018, em que Sennett interroga sobre a ética necessária para moldar o planejamento da cidade.

Após uma longa trajetória de estudos sobre o capitalismo contemporâneo, seus contornos para o mundo do trabalho e para a vida social, na última década o sociólogo dedicou-se a mapear possibilidades críticas e alternativas viáveis para o século XXI. Depois de examinar as potencialidades do trabalho artesanal (em “O Artífice”) e as políticas e práticas de cooperação (em “Juntos”), na obra atual Sennett encerra esta trilogia voltando-se para a vida urbana. Chama a atenção, já na introdução do livro, as três características que são indicadas para as cidades – “tortas, abertas e modestas”.

A vida urbana e seus modos de planejamento configuram-se como um tema crucial para o século que estamos iniciando. O pensador social lembra-nos que as cidades são tortas porque são diversas, construídas por pessoas diferentes e com intencionalidades variadas. Ao mesmo tempo, são abertas. Tais formas urbanas permitem a riqueza de experiências, de significados e de modos de vida. Sennett, em diálogo com a Matemática, sugere que “aberto implica um sistema de adequação entre o estranho, o curioso, o possível”. Por fim, descreve as cidades como modestas, isto é, capazes de atribuir sentidos e se ressignificar a partir do diálogo, da tolerância e da convivência democrática.

Por meio da defesa de uma “ética do fazer modesto”, Sennett expõe as tensões entre o viver e o planejar, ou ainda, como os urbanistas pensam em inovar um espaço urbano considerando os modos de vida estabelecidos. Não seria desejável que a prancheta do urbanista levasse em consideração os desejos, expectativas e experiências das pessoas que moram naqueles lugares? Com o sociólogo, delineia-se um urbanismo mais vigoroso que, em minha percepção, poderia servir de matriz de pensamento para aqueles que buscam inovar a escola.

“Um urbanismo mais vigoroso também precisa ser um urbanismo visceral, pois o lugar e o espaço ganham vida no corpo. Como tentarei mostrar aqui, urbanismo proativo pode combinar com modéstia ética. Modesto não significa subserviente; o urbanista deve ser parceiro do urbanita, e não mero criado – ambos em atitude crítica sobre a maneira como se vive e exercendo a autocrítica naquilo que constroem.”

Ao concluir este texto, reflito sobre as relações entre a educação e esta ética para uma cidade aberta. A atitude dialógica e crítica – típica deste planejamento modesto sennettiano – seria fundamental para os necessários movimentos de inovação das escolas. Mais que isso, podemos apostar com Sennett que inovação educativa e governança democrática podem estar articuladas em uma nova ética para a escola do século XXI.

Referências:

SENNETT, Richard. Construir e habitar: ética para uma cidade aberta. Rio de Janeiro: Record, 2018.

SILVA, Roberto Rafael Dias da. Sennett & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

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