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A Dor Como Recompensa – Priscila Paula

A dor como recompensa

– heranças de uma ditadura –

Ivane Perotti

“Amar é um ato de coragem.”

Paulo Freire

Notas de um violino ausente caíram sobre o corpo do menino. Acordes  colaram-se à pele com a velocidade do castigo. O espaço entre as notas e a violência do responsável desfizeram-se em vergões. No chão do quarto, lágrimas erguiam ondas.

A dor ganhava o lugar do insuportável.

Abria buracos na pele da alma. Uma carreira de marcas invadia o não dito.

Doía o corpo e se fazia doer o medo, a incompreensão, a força. O menino gritara acima das notas. Chorava agora por uma vida inteira.

Quatro anos de vida não lhe conferiam a compreensão do fato. Fragmentos do pai rodavam estilhados na ótica do quarto. Na sua ótica, estava só. Em estado de castigo, a criança gemia a morte da razão.

— Vê se aprende! Desobedeceu, apanha! E vai apanhar mais.

Apanhou.

A voz de chicote ganhou um rosto. As mãos, uma envergadura de castigar. Repetidamente tomado de surpresas, o menino sucumbiu. O luto fez-se arpão. No estreante barco de suas representações, o poder do pai e o poder do adulto transferiu-se para a zona dos costumes.

Não aprendeu a apanhar, mas aprendeu a repetir.

Aprendeu a ausentar-se. Exercitou o exílio e os jogos de poder. Não amou e não se fez amar. Subjugado, subjugou. Desamado, desamou.

A voz que ganhava a sala era a do professor de química. Contava aos seus alunos as próprias lições de coragem. Aplicado à vida, depois de viver arrastado por ela, deitara-se nos braços das questões e indagara às figuras de sua opressão: o que fizera? Ouviu além do tempo que fora um menino desobediente. Os castigos, as surras, haviam constituído a métrica da educação com êxito. Tivera êxito.

— Pai, eu não existo. Sou um homem pela metade.

— Então, merece apanhar de novo.

A narrativa em tom afetivo inquietou os alunos. Como que saindo das páginas fechadas, abriram-se eles para perguntar detalhes ao professor:

— E você chorou?

— Ficou mal?

No rastilho que as narrativas acendem, muitos contaram de si. Juntaram espaço para discutir as questões das relações de poder, das formas de educar, da educação na família, da educação na escola…do amor pela educação e da educação pelo amor. Falaram das dores que não se apagam e dos espaços vazios que o medo constrói. Também discutiram sobre a precariedade da vida e as possibilidades de aprender, de recriar, de exercitar as gentilezas, de permanecer em estado de diálogo.

— Professor? O que você contou aconteceu mesmo?

— Sim!

— Por que você trouxe este assunto agora?

— O que vocês acham?

A neutralidade inexiste. A educação faz parte de uma instituição maior, atravessada, com ou sem consentimento, de intenções e conflitos. Então, para se pensar em “[…] um mundo onde seja mais fácil amar.” (FREIRE, 1970), há de se aprender sobre sentimentos e emoções. Há de se aprender sobre dignificar a vida, sobre o amor e as ciências e o trânsito entre eles. Há de se pensar em equidade, em projetos de vida, em cidadania.

— Professor? Isso é bom!

Isso é Paulo Freire. Um educador-pensador que aprendeu e ensinou pelo respeito e amor às gentes. Mas não é tudo. Temos muito a aprender e a discutir.

— É o “carinha das pedagogia”, né?

O bom riso sempre acolhe as ideias e faz delas fundamento.

— Ó, profs, isso foi aula de quê?

— Faz parte do currículo que nos une.

— Pode ensinar isso na escola?

— Deve! Ou vocês imaginam que continuo a ser um “homem pela metade”?

Entre os risos de cumplicidade e os risos de provocação, o professor pensou no tom que dava lugar aos discursos sobre educação no momento atual: ranços de uma ditadura?

A inextinguível conversa dos alunos carregou de leveza o sorriso professoral: heranças podem ser contestadas.

Referências:

FREIRE, Paulo. A pedagogia do Oprimido. 17ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970.


Imagem e destaque: Priscila Paula

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