A distância que nos falta

Aleluia Heringer Lisboa

Num tempo não muito distante, a forma de se apresentar para as pessoas era, na sua essência, bem diferente da forma como é feita hoje.

Para falar algo como comunicar um nascimento, morte, receber os parabéns de aniversário, havia alguns caminhos. Um deles era o telefone fixo que ficava na sala onde todos escutavam o que você falava. Muitos desses aparelhos tinham um cadeado pequeno e somente o pai ou a mãe, como era na minha casa, sabiam onde ficava a chave. Era preciso autorização e, nem é preciso dizer, dada somente para assuntos de alta relevância. A astúcia para driblar esse entrave era repassada de um para o outro. Já que o cadeado impedia o giro do disco, a opção era bater os números como se fosse um telégrafo.

Vencidos todos esses obstáculos, era possível falar com o outro. Lembrando que a conversa não podia passar de 3 minutos, por conta do preço da chamada, e sempre depois das 20h, pois a partir desse horário a tarifa era mais barata.

Outra opção era ir pessoalmente levar a notícia, o que demandava uma organização e o desprendimento físico e do próprio tempo. Aprontar, sair, deixar o que estava fazendo, esperar o transporte etc. Levava tempo e a espera fazia parte do ritual da comunicação. Enquanto se esperava era possível pensar: o que é mesmo que vou dizer?

Para aqueles que moravam em outra cidade era comum escrever uma carta. De próprio punho, com data, assinatura, envelope, CEP, destinatário, remetente, correio, selo, e aguardar semanas para receber a resposta de volta. Receber uma carta era algo muito desejado e fazia palpitar o coração.

Emitir opinião, discorrer sobre algum assunto de forma a alcançar um raio maior que a própria família, era algo de grande formalidade. Falar onde? Lembro de meu pai, todos os sábados, à tarde, na Academia Municipalista de Letras. As pessoas preparavam a fala e, com isto, escolhiam melhor as palavras para cada situação. Enfim, a comunicação e o encontro com o outro era um acontecimento. O olho no olho fazia com que a polidez regrasse o diálogo, caso contrário, a coisa não ficava boa para o seu lado. Proferir um comentário tinha um peso real.

Hoje desfrutamos do rompimento das barreiras físicas, espaciais e temporais. Quantos ganhos! Dispensável aqui reconhecê-los, entretanto creio que, nessa revolução tecnológica, perdemos a noção do indispensável distanciamento. Ficar virtualmente disponível durante todo o dia é altamente escravizador. Depender dos likes dos “amigos” para se sentir aceita ou amada é uma tortura. Estar off-line é vital para a nossa saúde psíquica e social. O mundo privado, os segredos e a intimidade ainda existem. Precisamos estabelecer determinadas interdições, que são os limites que dizem aos demais que “eu sou eu”. É neste espaço e tempo que nos definimos e nos organizamos como pessoas. Construímos, neste tempo, aquilo que irá se apresentar, de forma única e ímpar no coletivo: nossas leituras, reflexões, contemplações ou, os sem glamour atos da vida diária.

Eliminamos a ausência, tão imprescindível para que a minha presença ganhe sentido na vida do outro. Minha mãe mencionava um provérbio que nunca esqueço: “Não ponhas muito os pés na casa do teu próximo; para que se não enfade de ti, e passe a te odiar; ou, “não faça visitas frequentes à casa do seu vizinho”. Imagine que, escrito no tempo de Salomão, ainda há uma sabedoria em dizer que estar, com frequência, com os pés na casa do teu próximo, mesmo no mundo virtual, não é algo bom. Neste tempo de constantes e ininterruptos voos, ilumina-nos a poesia de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, “a abelha fazendo o mel vale o tempo que não voou”.