Priscila Paula – Didatica Da Violencia III

Didática da não violência

a arte instala pontes de atravessamentos

 Ivane Laurete Perotti

“[…] onde quer que haja mulheres e homens há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender.” Paulo Freire

 

_ Profs! Profs! Quem se escreveu?

_ Inscreveu?

_ É… foi isso que eu disse. Quem se escreveu?

_ Inscreveram-se no Show de Talentos?

_ É!

Quando as pedras criam orelhas, é hora de afinar as vozes no horizonte, pois camadas de sedimentos nem sempre formam rochas.

_ Profs, a gente tem umas ideia.

_ Muito bom. Gosto de ideias.

_ Sabe a… a Tina…

Quando as pedras rolam caminhos, flui das profundezas do planeta a marca do carbono: diamantes têm estrutura única.

_ A gente quer fazer umas coisa para dizer, entende?

_ Estou ouvindo.

_ Hum! A gente fez mal, entendeu?

_ Querem conversar sobre isso? Eu também gostaria de dizer algumas coisas. Penso que… eu, eu poderia…

Quando as portas das salas de aula retiram as dobradiças, lubrificam-se as ferragens dos universos. Até as estrelas param de bocejar. A lua, mãe de tantos olhares, esvazia os detritos das lágrimas vertidas na palma das intolerâncias. E também sendo mãe de muitos sonhos, asperge milhares de iniciativas luminosas sobre a cabeça bamba dos viventes: daí pipocarem na terra as palavras enluaradas. Quando as portas da escola vêm abaixo, a linha do horizonte desfaz as rugas provocadas pela indiferença. As faces da vida ruborizam-se diante do poder das conversas: sem maquiagem, a vida chora feliz. E do choro feliz, brotam outras vidas possíveis e desejadas. Quando as portas das salas de aulas abrem círculos imbricados no diálogo, o conceito de escola explode em protagonismos: vozes de alunos mediados pela poética das didáticas dizem de si e do outro. O outro recebe título de importância e lugar. Não passam frases de distanciar. Nem palavras de separação. As sílabas colam modos de ser que se reinventam sem medo. As dúvidas não criam muros, nem culpas, nem julgamentos. As perguntas enchem o pote da confiança e as pesquisas fincam-se em espaços de direito. Salas de aula sem portas de trancar são teclas de piano: uma ao lado da outra, criando cadência, superação e poder.

Foi assim que a passagem de Tina ganhou um começo feliz. O caderno roto e coberto por desenhos foi tocado por todas as mãos ali representadas. Reconheciam-se e conheciam-na. A menina estranha distribuíra sentidos agora tomados em si mesmos e para cada um: ela os vira assim? Tão sorridentes? Tão cheios de movimentos? Tão belos? Quebrava-se o silêncio das estranhezas. As diferenças viravam pó, fino pó que subia, subia e subia até a escada que a lua tomara por empréstimo de algum astro qualquer. Qualquer astro estava abaixo daquelas vozes encorpadas pelo entendimento e pela leveza.

A escola comprou duas passagens de ônibus: os pais de Tina, encurvados pela surpresa, deitaram a dor em seu lugar. E na primeira fila de um auditório improvisado, pouco compreenderam do que se passava. Apenas passava-lhes que a filha, tão calada, tão carregada de dores e medos, ali fora amada. Ali ela fora feliz. Ali curara a sua alma penalizada por miríades de sonhos. Choraram, sim. Mas os sulcos do rosto e os calos das mãos de trabalhadores da terra amaciaram-se, lentamente, como se fossem nutridas por cálido orvalho. Os desenhos de Tina pareciam multiplicar-se. Qualquer retalho de papel servira-lhe de tela. Telas da vida real. Telas da vida sonhada. Telas de uma menina que estranhara a insubstancialidade do mundo.

Mediados pela vontade, os alunos da sala onde Tina permanecera durante o difícil tempo de estranhamentos, procuraram dizer da voz que ouviram por uma única vez. Ninguém identificou a autoria das músicas. Ficara-lhes tão somente a memória sonora de um evento irrepetível. Mas no desejo de traduzi-lo e compartilhá-lo entre os que ainda duvidavam, encontraram pessoas que indicaram outras pessoas que também conheciam pessoas disponíveis para cantar. Mais de uma dezena de músicas ecoaram pela escola. E para a surpresa da instituição, a maior parte das pessoas disponíveis e capacitadas eram os próprios alunos. Alunos que abriram as portas das salas de aula para dizerem de si e dos outros. O evento recebeu outro nome: A GENTE CONVERSA.

_ Profs, a gente se escreve de novo?

_ Inscreve, inscreve sim! A gente se inscreve…

 

 

REFERÊNCIA

 FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas a outros escritos. São Paulo: UNESP,2000, p. 85.


Imagem de destaque: Priscila Paula

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