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15 de outubro

Marileide Lázara Cassoli

Caderno de Lucimara

A menina adorava o uniforme escolar. Afirmo sem sombra de dúvida. Afinal, esta tornou-se a mulher que agora procura transformar em palavras as recordações que vêm lhe rodeando insistentemente nos últimos dias. O motivo? Esta mulher é professora, logo, como não ser assaltada por sentimentos ambíguos à medida que o 15 de outubro bate à porta…Retomando. O uniforme era lindo! A saia pregueada azul-marinho, a blusa branca – com abotoamento nas costas – tinha a gola e as mangas debruadas com delicadas fitas também azul marinho. Havia ainda uma gravata branca trazendo estes mesmos detalhes de mangas e gola. As meias eram brancas. Os sapatos eram azuis com detalhes em branco, mais semelhantes a um tênis, eram conhecidos pelo estilo “Topo Gigio”. A lancheira, era de plástico azul turquesa, a alça branca e o botão de fechamento, vermelho. Ainda havia o avental a ser colocado sobre o uniforme durante as atividades de educação artística. Era xadrez, daqueles bem miudinhos, em vermelho e branco. Nem sempre cumpria sua função… Saíamos pintadas de tinta  guache, de giz colorido ou qualquer outro material utilizado para colorir, colar e soltar a imaginação… Era o Jardim de Infância. E a professora, a mais doce de todas, a Tia Méris. Quanta saudade daquela doçura com a qual nos recebia! A menina acreditava que ela era a melhor e a mais linda de todas daquele colégio! Ah, o colégio… Era imenso… proporcionalmente inverso ao tamanho da menina… E havia o perigo do outro lado do pátio: as turmas de primeira à quarta série. Por sorte, o parquinho era logo ali, ao lado da sala de aula. E sempre havia aquele anjo por perto, a Tia Méris! Proteção garantida. Nos anos seguintes, a doçura da Tia foi substituída pelo rigor de novas professoras, duas em especial: a Irmã Marinês – sim, o colégio era “de freiras”. A mãe da menina fazia questão de uma boa escola. Inúmeros vestidos lindos, por ela costurados, garantiam o pagamento da mensalidade – e a Dona Clotilde, que “comandava” a turma do então primeiro ano do Ensino Fundamental. Mesmo com os rigores das mestras, a escola morava no coração da menina… O método montessoriano talvez? As amigas? As brincadeiras na hora do recreio? As festas juninas? A biblioteca? Cabe explicar que somente ao chegar a então denominada 5ª série o colégio admitiu a matrícula de meninos… uma verdadeira “balbúrdia”, que causou pânico nas famílias e muita curiosidade em nós, meninas… Tudo isso junto e misturado. E mais. Os professores e professoras. A cada ano, cada um e cada uma, a seu modo, foram deixando marcas indeléveis – para o bem ou para o mal – em nossas vidas. Lembranças saborosas das aulas de português e literatura com Yara e Ana Helena – esta última também responsável pelas primeiras lições de inglês. Foi por meio dessas mestras que se descortinou o universo da leitura, da literatura e da escrita do qual nunca mais consegui me separar. As aulas de História e de Geografia. Professora Regina e professora Clélia. Viajar sem passaporte, sem barreiras de tempo ou de espaço. Tornei-me Historiadora e permaneço nessa viagem sem fim. Havia, claro, um preço a pagar por tanta imaginação livre: aulas de matemática, física, química. Júlio, Mirian, Eleonor, Valdir, eram responsáveis pelas inúmeras horas despendidas em decifrar o indecifrável – pelo menos para mim, que logo me compreendi como pertencente às humanidades. Outros mestres e mestras admiráveis vieram. Na graduação, nas especializações, no mestrado, doutorado, pós-docs… Profissionais que me inspiraram e inspiram ainda hoje nessa caminhada que vem se tornando a cada dia mais árdua. Inspiração resultante da relação de compromisso e afeto com o ensino, a pesquisa e os alunos, que pude presenciar em suas aulas e orientações. Da Tia Méris ao pós-doc, muitos anos se passaram. Por isso, após muita reflexão, optei por atender ao apelo das doces recordações e passei toda uma longa trajetória escolar pelo coração novamente. Esta é a minha forma de demonstrar gratidão pelas “lições extras” que a convivência com mestres e mestras me proporcionou, seja como profissional, seja como pessoa. E sigamos na luta!

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