Ilustração Currículos – Coffee Bean   Pixabay

Variações sobre o Lattes – II

Isso leva a um ponto que me parece nevrálgico. Trata-se de orientar o ofício não exatamente pelo Lattes, que é apenas uma plataforma, mas por aquilo que ele representa para nós. Os dados que podemos encontrar no currículo de cada um são muitos, não apenas aos que hoje creditamos mais pontos na maratona acadêmica.

 

Agradeço a Bruna Ávila Silva, sem responsabilidade.

 

A semana passada nos brindou com, finalmente, um novo Ministro de Estado da Educação. Depois que Abraham Weintraub deixou o país ainda na função, para logo ser exonerado em data retroativa, a cadeira vinha sendo ocupada de forma interina. Um candidato a ela foi demitido sem tomar posse, outro (que dedicou um livro à existência do dinheiro, mas diz hoje arrepender-se disso) recusou o convite, um terceiro aguardou o aval de seguidores de Olavo de Carvalho para a efetivação que não aconteceu. Aliás, que este senhor ainda seja referência de orientação para membros e apoiadores do governo, ano e meio depois do início do mandato de Jair Bolsonaro, é mostra (não que precisássemos de mais uma) do atoleiro em que estamos metidos. Diz-se que o ex-professor de astrologia é um intelectual conservador. Falso. É um anti-intelectual reacionário. Como escreveu o saudoso Ruy Fausto, o rigor de Olavo só se encontra nos palavrões que pronuncia. 

O recém-indicado Ministro é Pastor Presbiteriano. Fôssemos um país de efetivo republicanismo, não haveria qualquer problema nisso, a liberdade de crença é ponto inegociável numa democracia. Mas, dada a regressiva relação entre Estado e Religião, podemos supor a incorporação de novos tópicos na agenda de disparates com a qual já nos acostumamos. Posições sobre o caráter positivo dos castigos corporais na educação, ou a respeito da suposta libertinagem sexual ensinada em universidades, professadas em anos recentes por Milton Ribeiro, não nos dão muita esperança.

A absurda pauta que o governo e seus seguidores nos colocam – armadilha em que com frequência caímos – exige esforço para pensar em questões que seguem importantes, mesmo estando fora do que supomos ser a demanda do dia. Aproveito a demissão de Carlos Alberto Dacotelli, assunto já velho a essas alturas, para um comentário sobre as expectativas que temos sobre a etapa de formação que hoje habilita para a pesquisa e a educação superior de melhor qualidade, o doutorado. 

Já houve tempo e lugar em que o doutoramento se resumia à pesquisa, redação e defesa de tese, considerando que se tratar de processo que mostraria, por parte do autor, autonomia intelectual. O sistema de créditos expressa certa escolarização que se mantém na Universidade, como se um grau tivesse que corrigir os défices dos anteriores, como se a frequência e aprovação em mais seminários e disciplinas necessariamente redundasse em formação mais extensa e profunda. Sim, pode haver vantagens nos cursos, mas, tomá-los de forma programática no doutorado só prolonga a condição de estudante, procrastinando o momento de tornar-se intelectualmente adulto. Sei que a coisa não é assim tão esquemática, mas a direção é essa.

É uma estrutura que puxa para a mediocridade, e o fato de Dacotelli ter arguido a legitimidade da conclusão dos créditos como atributo para dizer-se doutor só torna mais nítido esse rebaixamento. É tal contexto que faz com que se dê excessivo peso ao estágio de pós-doutorado, considerando sua conclusão como a obtenção de um título – coisa que não é, ninguém é pós-doutor –, ou seja, mais um de grau distintivo para ver se as lacunas dos anteriores podem ser preenchidas. Sempre há défices na formação, e buscar o aprimoramento do próprio pensamento é cuidado de si, exercício de liberdade. Essa procura nem sempre coincide com os rituais da Universidade,mas isso não significa que eles não sejam importantes. A defesa de tese de doutorado é um deles, um exame a que um candidato à carreira universitária se submete. Não é mais que isso, embora não seja pouco.

Como o doutorado não é garantia de formação apurada, há casos de grandes intelectuais que não obtiveram o título. Olavo de Carvalho é um contraexemplo, já que seu problema não é a falta de um título universitário, mas ser incompetente e declarar-se filósofo quando é apenas oportunista e despreparado. Observe-se que o grande historiador Evaldo Cabral de Mello, de magnífica prosa e elaborada análise, tampouco detém um certificado de conclusão de curso de nível superior. Em 1992 a Universidade de São Paulo outorgou-lhe, no entanto, o reconhecimento de Notório Saber em História. Nada mais justo. Quanto a Dacotelli, só mesmo em um ambiente em que o doutorado é parte não da formação, mas da escolarização, é que seria possível ocorrer-lhe explicar o mal preenchimento do Lattes pela razão de haver cumprido os créditos, mas sem apresentar a tese. Embora se possa ter muitas dúvidas hoje a respeito do que é uma tese de doutorado (já não dá para esperá-la, na maioria dos casos, como algo de fato original, inédito, com contribuição decisiva para uma área de conhecimento), ela segue sendo o que importa.

Isso tudo conduz a um problema que me parece nevrálgico, o de orientar o ofício não exatamente pelo Lattes, que é apenas uma plataforma, mas por aquilo que ele representa para nós. Representa segundo certa interpretação corrente, já que a ênfase na valorização de publicações e orientações de trabalhos de conclusão é uma forma de seu uso, não a única possível. Os dados que podemos encontrar no currículo de cada um são muitos, não apenas aos que hoje creditamos mais pontos na maratona acadêmica.

É preciso que informações no Lattes sem correspondência com a realidade sejam corrigidas, que haja controle pelos pares e pelos órgãos de pesquisa, pelas comissões de concurso etc. Melhor ou pior, isso acaba acontecendo pelos mecanismos que citei no texto da semana passada e pela necessidade de apresentação de certificados em situações decisivas. Isso não deve ser confundido com uma dificuldade de outra natureza, que é tomar a plataforma – não exatamente ela, repito, mas nossa representação sobre ela – como orientação para as atividades de pesquisa.Por exemplo, currículos vistos como muito coerentes podem mostrar apenas uma espécie de compulsão ao sempre-igual.

Melhor seria desativarmos o dispositivo que, aliás, foi fabricado por nós mesmos. Longa vida ao Lattes, mas, antes de tudo, à liberdade de pensar e pesquisar.

Alexandre Fernandez Vaz


Imagem de destaque: Coffee Bean / Pixabay 

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