Pint Of Science On Line – Priscilla Bahiense

Um encontro com a ciência, para enfrentar a pandemia

Pint of Science Brasil movimenta pesquisadores de todo o país para que, mesmo à distância e virtualmente, a ciência seja brindada e esteja à disposição da sociedade

Nunca foi só sobre levar a ciência pro bar! Por mais que o Pint of Science tenha no seu nome uma intenção simples, brindar a ciência, o evento que desde 2013 se espalha pelo mundo é muito mais do que isso. Ocupar o espaço público com vozes, corpos e informações é política, cultura e pesquisa. Empolgados com um evento onde pessoas com doenças neuromusculares e esclerose foram convidadas para conhecer os laboratórios e ver de perto as pesquisas, Michael Motskin e Praveen Paul, então pesquisadores do Imperial College London e criadores do Pint of Science, talvez não imaginassem o que viria nos anos seguintes: o crescimento de movimentos anti-ciência, eleição de políticos negacionistas mundo afora e uma pandemia.

2020 é um ano único em muitos aspectos. Mas para a ciência, o desafio inclui a cobrança de governos, o clamor da sociedade, a corrida contra o tempo e a necessidade de manter o diálogo com toda a comunidade. Popularizar a ciência é ponto chave para o enfrentamento da crise. Adiar para setembro o festival internacional de ciência nos bares, tradicionalmente realizado em maio, foi uma necessidade imposta pela única forma comprovada de conter o avanço da COVID-19: isolamento social. Mas também parece um contrassenso, pois falar de ciência, de maneira direta e despojada, fora dos muros das universidades e centros de pesquisa, é necessário e, nunca antes, contou com tanto interesse das pessoas.

Então a equipe brasileira do Pint deu um ‘jeitinho’. Mesmo com o adiamento dos encontros nos bares, mantiveram a data prevista para o festival e organizaram um grande brinde virtual, em todo país. E como não poderia ser diferente, as demandas da sociedade em relação ao novo coronavírus foram a tônica dos encontros online. E saber melhor sobre todas as pandemias que já aterrorizaram a humanidade foi a intenção da mesa “De novo? As pandemias ao longo da História”. Ethel Leonor Noia Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo e pesquisadora de Epidemiologia, fez uma revisão histórica de como microorganismos já causaram mortes e medo pelos séculos. 

Praga na Cidade Antiga – Michael Sweerts, 1652 – Acervo do Museu Nacional de Arte de Los Angeles

Seguindo os caminhos marcados pelas artes, a professora contou sobre os vários momentos nos quais um vírus desconhecido deixou um rastro de corpos, dúvidas e descobertas. Pinturas, livros, peças, esculturas, filmes e fotografias contam como grandes moléstias eram interpretadas, vividas e enfrentadas. Quando um mal misterioso atingiu a cidade de Atenas em 430 a.C., em pleno certo espartano, Tucídides relatou que “Os curadores nada podiam fazer, pois desconheciam a natureza da enfermidade e, além disso, foram os pioneiros no contato com os doentes, e morreram em primeiro lugar. O conhecimento humano se mostrou incapaz”. Aquele mal, que hoje se sabe que foi Febre Tifoide, também deixou, assim como aos médicos, líderes espirituais e políticos impotentes. Mas  as coisas foram mudando. A curiosidade humana para entender essas doenças foi ganhando espaço e tendo resultados, enquanto as explicações religiosas, de castigo dos Deuses, não surtiam efeito.

Ethel seguiu na linha do tempo. Lembrou que quando a peste chegou à Europa e à Ásia no século 14, depois de já ter causado surtos em outros tempos e lugares, os médicos usaram as famosas máscaras de bicos longos e perfumados, para que a doença, que acreditava-se estar no ar, não os atingisse. Estavam errados, e a existência de microorganismos estava longe de ser descoberta, mas ainda assim, a busca por razões deste mundo para os males que afligiam o corpo ganhava cada vez mais força. Mas a narrativa chegou num ponto importante da evolução da epidemiologia quando o médico britânico John Snow rastreou os casos de contaminação por cólera em Londres, em 1854. Ao reconhecer a fonte de água no Soho como possível fonte da doença que afetava a Inglaterra Vitoriana, Snow e sua curiosidade marcaram a ciência para sempre.

E mais surtos, epidemias e pandemias vieram. Tuberculose, varíola, aids, influenzas… Mas a ciência também veio, caminhou e desenvolveu. Segue sendo desafiada como vemos, desde o fim de 2019, tentando compreender e enfrentar mais um mal . E nesse cenário Ethel destaca a importância da barreira entre a vida humana e os microorganismos na vida silvestre. As noções de cuidados sanitários desenvolvidos e fortalecidos a cada descoberta científica no campo da saúde, são fundamentais para que essas barreiras sejam mantidas no lugar, assim como  preservação ambiental. Ethel também lembrou a importância de popularizar estes conhecimentos para que cada pessoa no mundo entenda que microrganismos são mais letais que armas, e doenças, mais devastadoras que guerras.

A mesa coordenada pela professora Ethel foi seguida pelo painel “E agora quem poderá nos defender? Testes, diagnósticos e vacinas” que pensou o presente dessa história da ciência. Confira as duas mesas na integra aqui.

 

Yolanda Assunção

Imagem de destaque: Priscilla Bahiense

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