Cópia De Imagem Observatorio

Da pesquisa pro boteco, do boteco… pra tela?

Os organizadores do Pint of Science Brasil se reuniram pra dividir uma cerveja e muita experiência do sofá de suas casas

Não é novidade que rotinas e calendários vêm sendo alterados por todo lado nestes últimos meses. Desde a classificação do covid-19 como pandemia, nossas vidas cotidianas e os eventos que as pontuam têm tido que se adaptar às condições do distanciamento social e do isolamento. Não foi diferente com o Pint of Science, festival internacional de divulgação científica que acontece todos os anos desde 2012 e chegou ao Brasil em 2015. 

Em seus oito anos de história, 2020 marcou a primeira vez em que o mundo todo estava impossibilitado de circular pelas cidades e se reunir em bares, botecos e pubs, Como nas anos anteriores, tivemos três dias de papos descontraídos sobre ciência – mas, dessa vez, a cerveja veio direto da geladeira de casa, e ao invés dum banquinho de bar tivemos sofás, camas e tantos outros cantinhos confortáveis espalhados pelo Brasil e pelo mundo.

Nesse Pint Of Science Online os organizadores aproveitaram as condições a que a pandemia submeteu o evento – uma reorganização 100% digital, com transmissões ao vivo nos dias e horários que seriam dedicados ao encontro nos bares – para descentralizar as atividades e promover encontros que não seriam possíveis numa esfera apenas presencial. Na última segunda-feira, pouco antes das 19h, gente do Brasil todo já estava reunida num chat do YouTube aguardando a primeira live do Pint. A programação seria um encontro dos coordenadores regionais pelo Brasil, com a mediação informal de Luiz Almeida, diretor nacional do evento este ano.

Luiz apresentou seus colegas de organização: Denis Soares (regional nordeste), Eduardo Bessa (regional centro-oeste), Ana Laura (regional Rio de Janeiro e Espírito Santo), Jerusa (regional norte), Cíntia Milagre (regional São Paulo), Ney Nascimento (regional sul) e Marina Andrade (regional MG). O objetivo desse encontrão era dividir com o público o que é e como vem evoluindo o Pint of Science, um momento do que é a organização e quais os desafios de fazer acontecer essa ideia de falar de ciência no boteco que parece tão maluca à primeira vista.

Fala recorrente entre os organizadores do Pint no Brasil é a surpresa mais do que positiva do crescimento que o festival viu por aqui. Nosso país lidera a lista de participantes com o maior número de cidades: este ano seriam mais de 180 no evento presencial, com todas as capitais brasileiras garantidas – o triplo das cerca de 60 cidades do segundo país com maior participação, a Espanha. O número continua surpreendendo todos os envolvidos, considerando que o festival começou tímido por aqui – acontecendo em apenas São Carlos (SP) em 2015 e alcançando sete cidades no ano seguinte.

Luiz conversou com cada coordenador regional, trocando ideias e histórias sobre as experiências que marcaram a passagem de cada um no Pint of Science. Cintia Milagre, por exemplo, acompanha o Pint desde 2016 e foi a responsável por levar o evento para Araraquara, no interior de São Paulo, em 2017. As vitórias e anseios de Cintia também estavam refletidos em outras falas do grupo, em especial no tocante à inclusão – que pra ela tem sido uma conquista constante nos encontros em São Paulo, correndo atrás da garantia de acessibilidade em todos os eventos – e à expansão do Pint para regiões periféricas das cidades – o que ainda tem se mostrado um desafio para os organizadores.

O professor da UnB Eduardo Bessa tem feito desse um de seus principais objetivos na coordenação da regional centro-oeste. Essa realização é desafiadora nos seus dois extremos, segundo ele, porque não é apenas preciso encontrar organizadores pra levar o Pint pra essas regiões, mas também encontrar donos de estabelecimentos dispostos a abrir numa segunda-feira à noite pra falar de ciência. Mas o trabalho da coordenação tem trazido frutos em Brasília, onde as última edições já contaram com espaços mais distantes do centro e das universidades.

Em Minas Gerais, cuja capital é também capital dos botecos, o Pint of Science curiosamente chegou de forma mais institucional, como conta Marina Andrade, que coordena o festival por aqui. À época, Marina trabalhava na Secretaria de Ciência e Tecnologia do estado e foi ela a responsável por chamar a atenção para o evento recém-chegado ao Brasil. Nos dois primeiros anos da versão mineira do festival, o Pint foi realizado numa parceria entre a Secretaria e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais, a FAPEMIG. Foi essa parceria e abertura institucional que adiantou o trabalho de expandir o evento para o interior do estado em 2018.

Durante essa primeira hora e meia de Pint of Science em 2020 o que nós, o público, vimos foi mais do que uma reunião da coordenação do evento. O que vimos foram rostos que fazem a ciência e a divulgação científica brasileira de norte a sul do país – literalmente. Vimos a resistência em não secundarizar a divulgação científica num momento em que seria tão fácil cair na armadilha da instrumentalização.

Vimos os desafios e percalços e dificuldades de tirar o debate científico das paredes da academia e levá-la pro mundo – pra um mundo vivo, reativo, pronto pra jogar perguntas tão sensíveis quanto esquisitas no colo dos cientistas, em especial quando se adicionam uma ou duas cervejas à equação. Conhecemos as estratégias e caminhos diversos percorridos por esses cientistas, voluntários no desafio de falar de ciência sem as amarras dum aulão.

O Pint of Science no boteco, pra valer, deve acontecer em setembro deste ano – se nossos cientistas tiverem o suporte necessário pra atravessarmos essa pandemia tão cedo quanto possível. Até lá, você pode assistir na íntegra esse encontro do pessoal que faz o Pint acontecer por aqui (e, de bônus, um papo com Natalia Pasternak sobre fake news na ciência, a partir da marca dos 1h35).

 

Maria G. Lara

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *