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Comunicação científica foi ponto de partida da Marcha Pela Ciência Minas

Aconteceu ontem a quarta edição da Marcha Pela Ciência no Brasil. A versão mineira do evento, liderada por instituições como SBPC e Fiocruz, abriu suas atividades logo cedo, às 08 da manhã, com transmissão ao vivo no YouTube.

Após breve, mas potente, introdução, deu-se início à primeira de muitas atividades programadas para a última quinta-feira. A live mediada pela professora da UFMG Débora d’Ávila e contou com a presença dos professores Yurij Castelfranchi (Departamento de Sociologia e coordenador da Especialização em Divulgação Científica da UFMG), Leonardo Gabriel (professor de Física do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais – CEFET MG) e Valéria Raimundo (Departamento de Comunicação Social da UFMG e coordenadora do Observatório). As contribuições giaram em torno dos embates discursivos que têm cercado a pandemia e das estratégias para uma comunicação científica mais eficiente neste cenário.

O primeiro convidado a falar foi o professor Leonardo Gabriel, que abordou o discurso recorrente que iguala conhecimento científico a opinião. O professor dedicou-se a explicar os processos de elaboração de um trabalho científico, da pesquisa inicial à publicação, para exemplificar o rigor científico, que impede que simples opiniões ocupem o lugar de ciência. Partindo deste ponto, Leonardo destacou a importância de um dos elementos mais vitais ao conhecimento científico: as evidências. Segundo o professor, mesmo o conhecimento científico de nível escolar não costuma ser transmitido acompanhado das evidências e processos que permitiram uma dada conclusão, o que transforma esse conhecimento numa mera questão de autoridade – “todo mundo sabe disso, na escola fala isso, tá na internet”.

Se aproximando do tema que mais tem gerado debates em torno da ciência atualmente, a pandemia do Covid -19, o professor disse que o momento é crítico no que toca à disseminação do conhecimento científico. Se a desinformação e a falta de diálogo podem levar a consequências mais ou menos inofensivas, como fóruns de discussão de terraplanismo, quando o assunto é uma crise de saúde pública com as dimensões da que enfrentamos, as consequências são muito mais imediatas – e letais.

A contribuição do professor Yurij Castelfranchi seguiu o ritmo da fala de Leonardo., que encerrou sua fala falando dos perigos da desinformação. Yurij, por sua vez, trouxe como mote o combate a ela. Segundo o professor, tem sido comum apresentar como estratégia a produção de boa informação , como forma de prevenção e resposta à desinformação e as fake news, mas isso não tem se mostrado suficiente. “As fake news não são fruto de histeria coletiva, pânico, analfabetismo científico e informacional. Elas são construídas, em muitíssimos casos, por pessoas de alta escolaridade e que são pagas pra isso. Então é claro que fazer divulgação científica de qualidade é necessário, mas não é suficiente”, disse o pesquisador. Segundo Yurij, as inclinações de um indivíduo a acreditar em ou disseminar fake news tem mais a ver com grupos de pertencimento que com alfabetização.

“O que impede que a nossa informação, mesmo quando é bem feita, chegue não é o fato das pessoas não terem conhecimento, é o fato de determinados grupos não terem confiança nas instituições, nos cientistas, nas universidades”. A solução, para o professor, é ampliar as relações da universidade com os grupos fora dela através da extensão universitária, que aproxima instituições de indivíduos. É preciso “construir uma relação com as pessoas que vejam que são os cientistas, o que eles estão fazendo, por que a informação que a universidade produz é confiável”.

A última convidada da mesa foi a professora Valéria, que coordena o nosso Observatório da Comunicação Pública da Ciência. Sua fala trouxe uma perspectiva de gestão governamental, abordando o conhecimento científico como política pública e direito. “Tanto a comunicação pública dos governos quanto a comunicação pública da ciência, a divulgação científica, vistas como um direito […] de toda a população, de todas as camadas sociais”, disse a pesquisadora, abrindo sua fala. Trazendo para o contexto da pandemia, Valeria disse que o cenário, onde crises sanitárias, políticas e econômicas de entrelaçam, eleva a complexidade da gestão da comunicação pública que se faz necessária.

Um dos elementos que devem ser considerados, segundo ela, são as disputas discursivas que têm estado em jogo. “A gente vê o discurso científico confrontado pela vertente negacionista, a gente vê crenças e valores ligados à religiosidade, a gente vê a politização da crise, que gera outra crise por questões político-partidárias… E a gente também vê uma ausência de interlocução com a sociedade civil.” Esses são desafios à gestão da comunicação pública como direito, que deveria garantir a presença desses diversos sujeitos no debate. A professora destacou ainda que essa gestão eficiente é necessária hoje, mas que não deveria se restringir apenas a situações de crise, como recurso emergencial, mas ser tratada como política pública.

Uma das grandes dificuldades que a professora observa nesse processo é o alcance às camadas mais vulneráveis da população, onde a comunicação pública não costuma chegar e, portanto, escutar.

A live se estendeu por cerca de uma hora e meia, incluindo a abertura de Luciano Mendes e Ildeu Moreira, secretário regional e presidente da SBPC, respectivamente. O vídeo completo está disponível no YouTube, junto aos demais conteúdos disponibilizados pela Marcha Pela Ciência.

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