Pesquisa Google – Coronavirus

Informação em tempos de pandemia

De ataques ideológicos a curas milagrosas, a produção de fake news não entrou em quarentena – e os esforços para combatê-la são tão necessários quanto aqueles contra o vírus

Ao longo das últimas semanas, o novo coronavírus tem sido debatido de muitos lugares diferentes. De uma nova doença estranha do outro lado do planeta a uma pandemia que atinge novos lugares todos os dias, passando por fantasias de carnaval e comparações com todo tipo de doença respiratória e epidemias anteriores, a Covid-19 tem sido pauta mais que constante nesses quase dois meses. Em meio a tudo isso, a novidade do vírus e a velocidade de sua propagação pelo mundo geraram uma demanda por informações que não será completamente suprida tão cedo.

As buscas por “coronavírus” no Google começaram a subir ainda em janeiro, mas se intensificaram no final de fevereiro e atingiram o pico no mês seguinte. Créditos Google Trends

As pesquisas por “coronavírus” no Google deram um salto. Grande parte delas está associada aos “o que é” e os “como fazer” da doença, justamente as perguntas que mais vem sendo respondidas de formas incompletas ou mentirosas em conteúdos que se espalham tão rapidamente quanto a própria Covid-19. Redes sociais e mecanismos de busca vem se adaptando, redirecionando as pesquisas para sites oficiais e fontes confiáveis, como a Organização Mundial da Saúde e o Ministério da Saúde. Mas o perigo mora em locais onde não há lupa pra fazer essa conferência, espaços onde as informações circulam de indivíduo para indivíduo, sem que seja necessária pesquisa. É o caso, por exemplo, do WhatsApp, que há pelo menos dois anos tem sido protagonista quando o assunto é disseminação de fake news.

Às vezes em forma de áudio, às vezes em forma de texto, mensagens circulam pelo WhatsApp e outras redes com a aparente intenção de alertar e esclarecer seus receptores sobre a doança. Por ali, supostas curas naturais milagrosas e fraquezas do vírus são conteúdo frequente. Alimentadas pelo medo de uma ameaça desconhecida à nossa saúde, mensagens desse tipo vão longe e são tão difíceis de controlar e combater quanto um novo vírus – algumas, identificadas como danosas à população, visto que enfrentamos uma crise de saúde, viraram até caso de polícia. Em resposta, institutos de pesquisa, órgãos públicos e veículos de comunicação vem realizando um trabalho incessante de divulgação científica e fact checking sobre esses conteúdos pouco confiáveis, além de darem cada vez mais destaque para a cobertura do coronavírus.

São dois efeitos diametralmente opostos, mas que se retroalimentam – quanto mais se produz desinformação, mais se tornam necessários os trabalhos para produzir informação confiável; motivando, talvez, um esforço ainda maior do outro lado para suprimir ou negar essas informações novas. Exemplo de destaque dessa dinâmica na última semana foi a participação de Átila Iamarino, divulgador científico, youtuber e doutor em microbiologia, no programa de entrevistas Roda Viva na última segunda-feira.

Desde o “estouro” da Covid-19, Átila tem usado de seus canais de comunicação para comunicar o que pesquisadores e organizações de saúde tem descoberto sobre o vírus. Sua participação no programa da TV Cultura foi completamente voltada para a pandemia que enfrentamos, respondendo a perguntas que iam de questões técnicas a políticas públicas adequadas ao contexto. Durante boa parte do tempo o biólogo se dedicou a esclarecer informações questionáveis que tem circulado no debate público sobre o vírus – por vezes reproduzidas mesmo pelos entrevistadores – como a ideia do “vírus chinês” produzido em laboratório e teorias sobre a sobrevivência do vírus no clima brasileiro. Não demorou pra que as conspirações e informações duvidosas anteriores fossem substituídas – ou sobrepostas – por novas. Desde manipulações de informações científicas até descredibilização do trabalho e formação de Átila.

A desinformação é insistente e sempre tem espaço para aparecer. Sua produção é rápida e a disseminação, incentivada pelo medo do desconhecido, ainda mais. Do outro lado, temos os esforços da ciência para produzir conhecimento e dos comunicadores científicos, para difundí-los, ambos operando num ritmo muito diferente das fake news, mas tendo de apertar o passo para que estas não dominem a opinião pública. O cenário político que vem favorecendo uma postura anticientífica não facilita o trabalho desses divulgadores, mas talvez haja alguma esperança em meio ao caos de Covid-19. Gradativamente, as narrativas de que o vírus não é nada demais, de que se pode curá-lo com chás quentes ou de um suposto isolamento “vertical” vão  sendo confrontadas com a mais dura das realidades: os casos que só aumentam, eventualmente, chegam aos incrédulos.

Para Átila, esse pode ser o momento de um retorno da credibilidade à ciência e ao jornalismo, as duas fontes de informações das quais se espera testes, apurações e um mínimo de confirmação do que se publica. Ao passo que as descobertas científicas avançam, as mentiras, venham elas do presidente da República ou daquele seu tio que compartilha sem muito critério, vão sendo postas à prova – e o lugar onde encontraremos nossas respostas seguirá sendo a comunicação científica.

Dos grandes aprendizados que ficam dessa pandemia, um dos maiores será o da importância de não apenas fazer ciência, mas comunicá-la. A ciência que se limita aos laboratórios, congressos e grupos de pesquisa é a mesma que poderia diminuir, ou mesmo impedir, a disseminação das fake news. Esse é um esforço vem crescendo e é preciso que se estabeleça não como medida emergencial, mas como o padrão – bem como as medidas de reforço às estruturas de pesquisa e saúde nestes últimos dois meses. Até que saibamos se isso se concretizará, temos a chance de usar a mesma capacidade de espalhamento de desinformação para divulgar o trabalho de pesquisa e fact-checking que tem sido feito em torno do coronavírus. 

Além do trabalho do Átila, com vídeos que esclarecem os números do vírus no Youtube e uma presença forte no Twitter, temos o nosso Ministério de Saúde, que conta inclusive com canal contra as fake news no Whatsapp. Temos nossas instituições de pesquisa, como a Fiocruz que capacitou laboratórios por todo o país e as universidades públicas, que tem produzido insumos e sido responsáveis por descobertas importantes. A nível internacional, a OMS é a maior referência. Não são poucas as fontes de informações seguras e confiáveis, mas é fácil que elas sejam engolidas em meio à velocidade com que comunicamos hoje. É imprescindível que daqui a alguns meses, quando essa crise já não for novidade, que continuemos combatendo a desinformação como o elemento viral que é, articulando os esforços institucionais e coletivos para produzir e checar informações, aos individuais, para que discursos mentirosos não mais passem batidos.

Maria G. Lara

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