O coronavírus é uma pandemia. E agora?

Na última quarta-feira, a Organização Mundial da Saúde declarou o COVID-19 uma pandemia, mas isso não quer dizer que o vírus tenha se tornado mais perigoso

Em fundo cinza vemos duas reproduções da representação do coronavírus, uma à direita, fora de foco e quase fora de quadro, e uma mais ao centro, em boa definição. O vírus é representado como uma forma esférica e acinzentada, de textura rugosa, coberta por pequenos pontos cor de laranja, além de triângulos avermelhados em relevo em toda sua superfície.

Representação colorizada do novo coronavírus. Fonte: CDC

Os primeiros casos de uma doença desconhecida, posteriormente classificada como uma pneumonia, foram reportados em dezembro do ano passado na cidade de Wuhan (China). De lá pra cá, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já interviu, novos vírus foram descobertos e vendedores de máscaras de proteção têm estado bastante satisfeitos.

A origem da tal pneumonia que surgiu na capital da China central foi caracterizada como COVID-19, uma nova variação dos coronavírus, conhecidos pela ciência desde os anos 1960. A família de vírus corona é bastante extensa e seus efeitos podem variar de um resfriado comum a complicações respiratórias graves. Segundo a OMS, o COVID-19 não é uma das variações mais agressivas, considerando que cerca de 80% dos infectados com o vírus se recuperam sem precisar de tratamento especial.

Apesar das informações técnicas tranquilizantes, o vírus também tem se espalhado de forma ágil e difícil de prever – e é essa velocidade de contágio que torna o novo coronavírus uma pandemia. Já são mais de 138 mil casos em mais de 100 países, incluindo o Brasil. Os números do COVID-19, porém, não contam a história toda, de acordo com a Organização Mundial da Saúde: “mais de 90% dos casos ocorrem em apenas quatro países, e dois deles – China e Coréia do Sul – têm epidemias em declínio significativo”, segundo o médico da OMS Tedros Adhanom Ghebreyesus. Além disso, os números totais contabilizam os mais de 75 mil casos encerrados – 93% dos quais resultaram em cura. “Não podemos dizer isso numa voz alta o suficiente, ou com clareza suficiente, ou com frequência suficiente: todos os países ainda podem mudar o curso dessa pandemia”, disse o médico, e talvez seja pra esse lado que nossas atenções devam se voltar. 

No país do SUS e com tantas instituições de pesquisa capacitadas, incluindo a responsável pela decodificação genética do vírus menos de 48h depois da confirmação do primeiro caso no Brasil, a medida mais urgente é manter essas estruturas funcionando em toda sua capacidade. Num vírus em que a grande maioria dos casos são leves, a rede de Atenção Primária composta pelos nossos postos de saúde é capaz de atender 90% dos casos do COVID-19, segundo o Ministério da Saúde. São 42 mil postos espalhados pelo país, com 1.520 operando em horário estendido em 238 municípios. O Ministério está tomando medidas para elevar esse número, ampliando o atendimento em até 6,7 mil unidades, o que deve beneficiar mais de 40 milhões de pessoas.

Os esforços do Ministério da Saúde também está em parceria com o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), que vai investir R$ 10 milhões em pesquisas sobre o COVID-19 através da Rede Vírus, que envolve cientistas e laboratórios nacionais numa espécie de força-tarefa de pesquisa. Outra parceira da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que já criou um portal de notícias e informações sobre o novo coronavírus, começou ontem um programa de capacitação de laboratórios para realizar os testes do vírus. Além da capacitação, que até o fim de semana deve ter preparado laboratórios públicos de doze estados, a Fiocruz também já está produzindo kits de insumos para a realização dos testes. Em Minas Gerais a Fundação Ezequiel Dias (FUNED) também faz parte da rede entidades no esforço de lidar com o avanço da doença. Desde a ultima quinta feira, 12, a FUNED passou a realizar os exames para identificação do Covid-19 nas amostras dos casos suspeitos no estado. Além disso a equipe da fundação já havia realizado treinamento com profissionais da saúde da capital mineira.

O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, disse no último dia 10 que o vírus não passava de uma “fantasia da grande mídia”. De lá pra cá, porém, o Secretário de Comunicação Fábio Wajngarten foi testado positivo para o COVID-19 e agora o presidente aguarda o resultado de seus testes. O resultado deve sair hoje, mesmo dia em que o presidente deve assinar uma medida provisória que libera R$ 5 bilhões para o combate ao coronavírus, de acordo com live realizada ontem à noite

Por hora, a população brasileira não está desamparada, como está a estadunidense, com a Casa Branca declarando sigilo de suas decisões sobre o vírus e um acesso à saúde precário e elitizado que já contabiliza mais de 30 mortes pelo vírus. Ao classificar o COVID-19 como pandemia, a OMS não nos alerta para a gravidade do vírus, que continua relativamente baixa, mas para a velocidade com que ele se alastra e para a importância de medidas eficientes de saúde pública, como as que vêm sendo tomadas por países como China, Itália, Cuba, Canadá e, como fica claro, Brasil.

Mais do que um momento para temer e estocar máscaras de proteção, essa é uma grande oportunidade para conhecer, acompanhar e divulgar o trabalho feito pelos órgãos e entidades que cuidam da nossa saúde e da nossa ciência, que são nossa rede de segurança contra um vírus que se propaga com tamanha velocidade. Boa parte de nossas redes e estruturas já existiam e já estavam ativos antes mesmo do coronavírus chegar até nós – seja numa numa resposta a ele quando os primeiros casos foram confirmados na China, ou em processos contínuos para a compreensão de outras doenças, como a zika e a dengue. Ficar atento às comunicações dos Ministérios, universidades e laboratórios é o melhor caminho para se informar sobre o vírus, mas também sobre as inovações que são feitas diariamente por pesquisadores de todo o país. 

Sobre o vírus, os sintomas principais são febre, coriza, tosse e falta de ar. Como prevenção, o que o Ministério da Saúde e a OMS recomendam é lavar as mãos com água e sabão ou usar álcool em gel, cobrir o nariz e a boca ao respirar ou tossir, evitar aglomerações se estiver doente, manter ambientes bem ventilados, e não compartilhar objetos pessoais. Pessoas que fazem parte dos grupos de risco – idosos e pessoas com problemas de coagulação sanguínea ou sintomas de septicemia – devem ficar ainda mais atentos.

Maria G. Lara

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