Cartaz Do 2º Congresso De Mulheres Na Ciência

Dificuldades enfrentadas por mulheres cientistas são pauta de congresso

O segundo Congresso de Mulheres na Ciência aconteceu semana passada na UFMG e mesas discutiram diversidade, assédio e ascensão na carreira acadêmico-científica.

Nos dias 30 e 31 de agosto foi realizado o 2º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG, que trouxe discussões sobre a vivência e representação feminina no ambiente acadêmico-científico. A primeira edição do evento aconteceu ano passado e foi ideia de um grupo de graduandas das Ciências Biológicas “frente à falta de representatividade que sentíamos ao ir em congressos e encontros científicos”, disse Laila Blanc, uma das organizadoras. “Nosso objetivo era fazer um congresso que tirasse a temática de mulheres na ciência do lugar de ‘tabu’ para colocar em discussão pautas reais, com dados e vivências de mulheres professoras que já estiveram em nossos lugares. Além disso, queríamos mostrar que existem mulheres especializadas nas mais diversas áreas, tornando o argumento de que ‘não encontraram mulheres especialistas para compor a mesa’ inválido”, complementa.

A primeira edição do Congresso foi marcada por forte presença de pesquisadora das Ciências Biológicas e Exatas, mais próximo ao perfil da comissão organizadora. Este ano, a proposta foi de ampliar a discussão para os problemas estruturais com a presença de mulheres na academia. Isso ficou marcado desde a primeira palestra do Congresso realizada pela professora aposentada Nilma Lino Gomes, da Faculdade de Educação da UFMG. Ela abriu a programação com a palestra “Quando a diversidade interroga a ciência”. A pesquisadora de relações étnico-raciais trouxe em sua fala os ganhos que a diversidade traz ao ambiente acadêmico-científico, mas também os enfrentamentos que surgem desse encontro tardio.

A pauta que atravessou o Congresso foi a das vivências de mulheres na academia e das dificuldades delas no meio. Dentre as mesas, duas chamaram muita atenção por apresentarem temas que afetam mulheres em todas as áreas: uma sobre o efeito tesoura que ilustra a falta de acesso de mulheres à ascensão na carreira acadêmica e outra sobre os assédios morais e sexuais que elas enfrentam.

A pesquisadora Carolina Brito foi quem trouxe a palestra “O que é o Efeito Tesoura e como evitá-lo”. A palestrante, do departamento de Física da UFRGS, demonstrou a origem do termo através dos números aos quais ele se refere. A “tesoura” do efeito pode ter um sentido de corte, mas se refere antes a algo mais, literalmente, figurativo. São os gráficos sobre a progressão na carreira por gêneros que formam a tal tesoura.

O efeito é perceptível tanto numa visão mais geral da academia, calculando a progressão graduação-mestrado-doutorado-docência, quanto em áreas mais específicas. Em todas elas, os gráficos apontam o mesmo fenômeno: quanto mais se avança na carreira, mais distantes as pontas da tesoura ficam: se as mulheres são mais de metade dos graduandos brasileiros, na docência, nas bolsas de pesquisa de nível mais alto e na ABC, elas caem para uma média assustadora de 10%. A lógica se repete mesmo em países europeus onde a equidade de gênero parece ser uma realidade mais próxima.

Carolina defendeu que políticas públicas são o caminho mais eficaz para se fechar esse abismo entre homens e mulheres na academia. Essas políticas podem vir, inclusive, na forma de cotas. “Quando eles aprenderem a se comportar a gente tira as cotas”, disse a pesquisadora, referindo-se ao sistema de cotas como uma medida educativa necessária, já que o viés sexista não parece deixar a academia de forma voluntária tão cedo.

As dificuldades de ascensão acadêmica para as mulheres são diversas, incluindo mesmo as questões de representação. Se as graduandas se veem pouco representadas em seus professores, a tendência delas entenderem aquele espaço delas é menor. Outro fator importante é uma pressão externa ativa, que pode configurar assédio em suas mais diversas formas. A mesa “Lidando com o assédio no meio acadêmico” contou com a presença da psicóloga Monaliza Alcântara, da advogada Isabella Corby e da professora Joana Ziller que representava a Ouvidoria Geral da UFMG.

Monaliza, que integra a Comissão de Mulheres e Questões de Gênero do Conselho Regional de Psicologia, trouxe suas experiências enquanto voluntária na Defensoria Pública de Minas Gerais, atendendo mulheres vítimas de violência doméstica. A psicóloga e pesquisadora falou sobre um problema bastante comum que se impõe às denúncias de violência de gênero: o tempo entre a violência praticada e a compreensão da mulher de si como vítima. Isabella Corby, que advoga na Assessoria Popular Maria Felipa ecoou a fala de Monaliza, lembrando que esse tempo entre o ato e a denúncia é um dos recursos constantemente usados contra as vítimas.

A fala de Monaliza Alcântara prosseguiu para abordar uma concepção de assédio moral e sexual mais próxima do ambiente acadêmico, que inclui a desqualificação intelectual de mulheres. Essa forma de violência de gênero se constitui no silenciamento, na apropriação de falas e no descrédito ao trabalho acadêmico de uma mulher motivado pelo gênero. Por ser uma das formas menos chocantes de assédio, para muitas mulheres isso passa batido e não resulta em denúncias.

Isabella Corby e Joanna Ziller lembraram em suas falas da importância da denúncia e de órgãos de apoio – psicológico, legal e social. Professora da UFMG e membro da Ouvidoria da UFMG, Joanna lembrou que as ouvidorias são obrigadas, por lei, a registrar as denúncias e encaminhá-las às instâncias responsáveis, podendo ser o primeiro passo para a abertura de processo administrativo e um espaço onde a denúncia pode ser feita de forma anônima.

O Congresso ainda contou com mesas sobre nomes invisibilizados na história da ciência, vivências de mulheres em espaços científico-acadêmicos de Humanas e Exatas e divulgação científica. Um ponto que não era pauta mas que foi apontado por diversas palestrantes foi a composição do público. A cada turno de palestras nos dois dias de evento, podia-se contar nas mãos os homens presentes. Fosse por desinteresse, fosse por não ter certeza se aquele espaço também era pra eles, um convite foi feito pela grande maioria das mulheres que subiram ao palco do auditório: mais homens se dispondo a assistir esse congresso nos anos próximos, se educando sobre essas experiências que não os afetam – mas nas quais eles afetam tanto suas colegas de trabalho no dia-a-dia. 

O primeiro dia do Congresso de Mulheres na Ciência pode ser assistido no YouTube da CAC/UFMG.

Maria G. Lara

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