Antonio Teixeira – O Ensino Da Ciência E Da Evolução – IV – Religião E Ciência

O ensino da ciência e da evolução – parte IV

– O que deve ser ensinado nas escolas? –

Durante mais de um século se confirmou que a evolução darwiniana é uma teoria fértil que gera conhecimento novo, de interesse econômico-social porque inspira a pesquisa que cura doenças, aumenta a produção agropecuária, e promove qualidade de vida e bem estar.

Antonio Teixeira

Luiz Antonio Barreto de Castro*

 

A sociedade do conhecimento fincada na biologia da evolução que inspira pesquisa que cura doenças, aumenta a produção agropecuária, promove qualidade de vida e bem estar, deve ser inserida sem mais delonga no sistema educacional brasileiro.

A resposta ao ponto fundamental da pergunta é uma garantia de que os jovens estudiosos no sistema educacional recebam a melhor ciência em qualquer circunstância. Com esse objetivo, no sistema educacional a liberdade de pensar deve optar pelo diálogo sobre qualquer tipo de controvérsia de teor científico. Todavia, o ensino deve proceder para ensinar o modelo darwiniano da biologia da evolução que inspira a melhor ciência. Durante mais de um século se confirmou que a evolução darwiniana é uma teoria fértil que gera conhecimento novo, de interesse econômico-social porque inspira a pesquisa que cura doenças, aumenta a produção agropecuária, e promove qualidade de vida e bem estar. Marie Curie, que singularmente ganhou prêmios Nobel de Química e Física, disse que a ciência não deve ser temida, mas entendida. O que se deduz desse ensinamento de Madame Curie é que a ciência deve ser ensinada nas escolas sem restrições ainda que o tema seja controvertido. A dúvida é ingrediente inerente à ciência.

A tradição cristã histórica provê discernimento suficiente para distinguir qual ciência moderna foi posta em evidencia e amadureceu mais robusta. Esse reconhecimento reside na responsabilidade de todos os cidadãos. Os cientistas religiosos acham que o ensino da biologia da evolução aos jovens deve ser uma missão cristã. Possivelmente, alguns jovens ao concluir o ensino fundamental se perguntarão: deverei colocar minha vida a serviço da ciência? A resposta sincera para essa pergunta não pode ser contaminada por quem identifica na fé cristã alguma coisa contra a teoria da evolução darwiniana ou contra a ciência em si mesma. Pelo contrário, a fé cristã pode remover tais barreiras que obstaculizam o caminho dos jovens em busca de conhecimento científico. Neste sentido, o pensador, teólogo e paleoantropólogo, Teilhard de Chardin afirmava em vida que a teologia e a ciência devem prosseguir juntas1. Sua obra que descreve o Fenômeno Humano a partir de sua formação de religioso ensina que ciência e teologia são compatíveis. Entretanto, seu ensinamento não tem sido adotado por muitos teólogos e cientistas.

 

Evolução: Amo Jesus e gosto de Darwin

 

Deus levou a raça humana à existência mediante a evolução da mesma forma que o Espírito Santo inspirou os que escreveram o Novo Testamento. B.B. Warfield (1851-1921).

 

Os cristãos examinaram os argumentos contra o modelo de evolução de Charles Darwin e concluem que os Criacionistas Científicos e os Relojoeiros Inteligentes são orientados por argumentos diferentes e pela fé em Deus. Porém, a veemência com que esses cristãos se opõem ao darwinismo sugere que a fé em Cristo evita o ensino da biologia da evolução, como se a compreensão dos primeiros os colocasse contra a teoria científica de Charles Darwin2, 3. Entretanto, muitos que professam a fé cristã aceitam a seleção natural como teoria científica da macroevolução. O padre jesuíta Pierre Teilhard de Chardin (1888-1951), paleontologista, descobriu o fóssil do homem primitivo de Pequim, combinou a evolução darwiniana com as doutrinas cristãs, criou um modelo de história do mundo desde épocas imemoriais e chegou ao desenvolvimento da vida a partir da matéria inanimada1.

Os cientistas concordam com o modelo de história da evolução de Teilhard de Chardin em sintonia com a atual compreensão teísta evolucionista. “Tal sintonização sugere que novas estratégias de alianças sadias entre a ciência da evolução e a visão da criação devem ser agregadas em conformidade com o alcance da iluminação: as lâmpadas iluminam, mas não têm a claridade da verdade absoluta”.

Os cientistas acreditam que o conhecimento científico na teoria da evolução é um modelo que lança luz, reflexão e orienta a pesquisa científica4-6.  Todavia, jamais haverá teoria eterna. Com esse olhar, conclui-se que a teoria da evolução darwiniana inspira a melhor ciência, com possibilidade de alcançar melhor qualidade de vida para todos7.

 

Conclusões:      

O cientista tem pressa; quem não tem pressa é a ciência.

Deve ser obrigação de todo sistema educacional o provimento de educação completada mais alta qualidade, sem limitações. Tal responsabilidade requer professores bem qualificados e atualizados quanto ao conhecimento científico recente. A responsabilidade da iniciação da capacitação de jovens para o mundo de amanhã recai na escola e nenhuma justificativa teológica existe para incitar ataques que resultem em impedimento ao ensino de qualquer teoria científica, ainda que de qualidade inferior. Os cientistas concordam que, não obstante as boas intenções, as posições do Criacionismo Científico e do Relojoeiro Inteligente, não representam a melhor ciência. A qualidade da teoria científica é medida pela sua fertilidade, significando a habilidade reconhecida na geração de projeto que leva a conhecimento novo, encaminha solução de problemas de interesse econômico e gera bem estar social.

Há necessidade de mais diálogo de toda sociedade com aqueles que ainda se opõem aos avanços da ciência, mesmo sabendo que os benefícios sociais são inequívocos. A negação ou restrição ao ensino da ciência não produz o bem comum. Para que isto seja alcançado é preciso que seja regulamentado em Lei o ensino da biologia da evolução em todo o sistema educacional brasileiro, sem restrição à liberdade de pensar e divergir para avançar o conhecimento.

Este avanço requer mais resiliência no diálogo com Relojoeiros Inteligentes e Criacionistas que municiam ataques contra a teoria da evolução porque temem a sua possível influência nas ideologias anticristãs. Ao contrário, a história contemporânea mostra que essa versão encerra o mesmo tipo de mal-entendido ético que sugere que a evolução biológica justifica o mais rico tomar tudo de quem quase nada tem, ou seja, falácia do capitalismo salve-se quem puder.

O pensamento crítico movido pela dúvida persistente suscita a fertilidade que leva a programa de pesquisa continuada que avança o conhecimento sobre o mundo natural; o cujo avanço do conhecimento científico leva a inovação tecnológica, e a terapia médica? A teoria atualmente conhecida como biologia da evolução neodarwiniana preenche esses critérios porque produz conhecimentos valiosos, constantemente. Esse é o caminho que deve ser ensinado aos jovens que avançam academicamente nas ciências e serão profissionais competentes na medicina humana e veterinária, nas ciências agrárias, nas ciências biológicas, exatas, e humanas afins que geram riqueza, com potencial inesgotável de resultar em bem estar social e compreensão sobre cada detalhe dos mistérios e encantos da vida que potenciam a compaixão.

Os cientistas neodarwinianos deixam claro que evolução ocorre quando há tolerância, aproximação, colaboração, associação, simbiose e solidariedade, atributos da compaixão.

Citações

  1. Teilhard de Chardin P. The Phenomenon of Man. NY: Harper, 1959.
  2. Charles Darwin. The Cambridge Encyclopedia of Human Evolution, ed. by Steve Jones, et.al. Cambridge UK: Cambridge University Press, 1992.
  3. Ruse M. Can a Darwinian be a Christian? Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
  4. Klein J &Takahata. N. Where do we come from? The Molecular Evidence for Human Descent.Springer, Berlin, 2002.
  5. Margulis L. Symbiotic Planet: A New Look at Evolution. Science Marster Series, 1st edition. 2000.
  6. Hawking S. O Universo numa Casca de Noz. Editora Mandarim, 2a edição. SP. 2002.
  7. Teixeira, Antonio. O Caçador de Ilusão. Editora Kiron, Brasília, 2018.

*Agrônomo, pesquisador da EMBRAPA/CENARGEN tem pós-doutorado em biologia molecular de plantas na Universidade da Califórnia, e Ex-Secretário Executivo do PADCT/MCT/BR.

Imagem de destaque: Blake Cheek / Unsplash

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *