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Diversidade e desigualdade foram tema de debate em mesa-redonda na 69ª Reunião Anual da SBPC

 

No último dia 19, as professoras doutoras Elisa Maria da Conceição Reis (UFRJ), Tânia Mara Campos de Almeida (UnB) e Miriam Pillar Grossi (UFSC) reuníram-se em mesa-redonda para discutir diferentes aspectos da desigualdade em nossa sociedade. A mesa, intitulada “Diversidade, desigualdade e diferenças: para onde vamos?”, foi parte da programação da 69ª Reunião Anual da SBPC e coordenada pela professora Elisa Reis.

A primeira exposição – “Desigualdade de gênero e raça no Brasil: reflexões, avanços e desafios” –  foi da cientista social e professora Tânia de Almeida, que falava do reconhecimento ainda recente das desigualdades de gênero e raça no Brasil pela comunidade acadêmico-científica, “tanto por meio da identificação de dados a esse respeito como por meio de elaborações teóricas que possibilitem a formulação de matrizes interpretativas da nossa realidade”. A professora também destacou a importância de interseccionar esses dois fatores – gênero e raça – ao analisar as desigualdades no país.

Ao traçar um panorama dos estudos de desigualdades no Brasil, a professora Tânia de Almeida diz que até o fim do século passado não haviam estudos relevantes sobre o assunto. Segundo ela, foi “os anos 1980 e 1990, quando se retomava o processo político democrático no país, [que] foi dedicada especial atenção ao tema das desigualdades sociais e ao crescimento econômico. Uma relevante bibliografia sobre resultados e impactos do dito desenvolvimento em relação a classe, gênero e raça começou a imergir na época”, e, como exemplo de tal bibliografia, a professora citou trabalhos de Lélia Gonzales, Sueli Carneiro e Heleieth Saffioti. No entanto, ela comentou que as obras da época não tiveram suficiente alcance no que diz respeito a mudanças estruturais na sociedade brasileira sobre raça e gênero, uma vez que se interpretava que negros e mulheres sofriam preconceito apenas por serem pobres e não por serem negros e mulheres.

A professora Tânia de Almeida ainda lembrou a dissertação de mestrado de Virgínia Bicudo, de 1945, da primeira turma da Escola Livre de Sociologia e política, ligada à USP, em que Virgínia defendia que a ascensão social não apagaria as distâncias entre brancos e negros e que estariam sempre as mulheres negras nas piores posições na pirâmide social.

Em seguida, a antropóloga e professora Miriam Grossi introduziu sua fala sobre gênero, sexualidade e diversidade, deixando claro que falaria sobre as políticas voltadas para estes temas instituídas nos treze anos de governo que tivemos com os presidentes petistas Lula e Dilma Rousseff, pois tais políticas sociais inexistem no atual governo Temer. A professora ainda apresentou as três teorias com as quais trabalha: a teoria feminista, a teoria queer e a teoria crip. Mais uma vez foi levantada a questão da interseccionalidade, destacada pela professora Miriam Grossi na teoria feminista, que pensa as posições de sujeitos entre homens e mulheres amparadas em outros elementos, como questões raciais, geracionais e de deficiências.

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Também fazendo uma ponte com o conceito de interseccionalidade, a professora insere as primeiras formulações da teoria queer, como a de Gloria Anzaldua, uma das primeiras pesquisadoras a usar o termo queer. Andalzua, como disse a professora, ao referir-se à categoria queer “vai sempre se referir a um imigrante mexicano, de origem indígena, travesti. Ou seja, a forma como chega esse conceito à teoria social norte-americana vem já por esse campo de várias interseccionalidades”. Em contrapartida, a professora Grossi diz que, ao se falar em teoria queer, sempre se pensa na retomada da categoria por autoras dos anos 1990, como Judith Butler e Teresa de Lauretis, quando começa uma onda da chamada branquitude na teoria queer, que passou a ser ligada apenas a uma série de autoras lésbicas brancas.

Já no que diz respeito às contribuições da teoria queer para o debate sobre desigualdades e diversidades, ela diz que a temática das orientações sexuais é sobre o ser diferente e destaca, ainda, a discussão um pouco mais recente sobre a transexualidade, que segundo a professora possui um “potencial de transformação das relações sociais e de pulsão de conflitos no interior das relações de sujeitos muito fortes e muito importantes”.

Quanto à teoria crip, que fala das relações sociais envolvendo pessoas com deficiências, a professora lembrou que todos nós, em algum momento da vida, temos grandes chances de ter alguma deficiência, seja ela congênita ou adquirida e, por isso, deveríamos nos afastar de conceitos capacitistas e nos dedicar mais a pensar o lugar da pessoa com deficiência na sociedade. Em seguida, a professora Miriam Grossi falou sobre a produção científica relacionada a essas minorias sociais que tem crescido muito no Brasil e como isso é importante, em especial num momento político tão conturbado quanto o que vivemos.

A última fala da mesa foi da cientista política, professora e coordenadora da mesa Elisa Reis, cuja apresentação sobre desigualdade de classe foi baseada em seu estudo sobre a percepção que as elites têm da pobreza e desigualdade em dois momentos históricos, sendo estes em 1993 e em 2013. Seu estudo é baseado em pesquisa empírica aplicada a representantes das elites políticas, burocráticas ou tecnocráticas e empresariais.

Para introduzir o estudo, a professora apresentou como a desigualdade deixou de ser algo natural para tornar-se um fenômeno social: “antes dos estados nacionais as pessoas se percebiam como naturalmente diferentes na Europa Ocidental, então um nobre e todos os seus filhos, netos, bisnetos seriam nobres e os plebeus seriam sempre plebeus. As pessoas eram naturalmente desiguais. A grande reviravolta vem quando a ideia de igualdade social toma conta de cultura europeia e se espalha pelo mundo e isso coincide com a formação dos estados nacionais. A grande novidade dos estados nacionais foi exatamente juntar Estado e nacionalidade, porque nação era o que dava às pessoas o sentimento de pertencimento. […] E com isso muitas diferenças foram jogadas pra debaixo do tapete.”

Sobre a separação entre desigualdade e diferença, ela afirmou ser extremamente necessária e a definiu da seguinte forma:

Falando mais especificamente de seu estudo, a professora Elisa Reis disse que a motivação por trás do fator escolhido – a visão das elites sobre os pobres – era descobrir “em que condições pessoas que não são pobres, que não estão lá embaixo na estrutura social podem pactuar pra diminuir a desigualdade, pra combater a pobreza”. Como contexto histórico do estudo no Brasil, ela diz que em 1993 nossa democracia ainda estava fragilizada e em processo de reconstrução, as poucas políticas sociais existentes eram universais; já em 2013 a desigualdade social entra em declínio em um Brasil mais democraticamente estabelecido e com mais espaço para políticas sociais focalizadas. Os resultados específicos de sua pesquisa podem ser analisados em seu artigo Percepções da elite sobre pobreza e desigualdade.  

É interessante ressaltar que boa parte do auditório estava ocupada por mulheres e negros jovens. Um dos poucos homens brancos, o único vestindo terno e gravata, pediu para fazer um comentário ao fim das palestras e ninguém se surpreendeu com o fato de ser um americano, que estava aqui especificamente para a SBPC como membro representante do International Social Science Council. No entanto, num debate voltado para diversidades e desigualdades, não havia a presença de indígenas, pessoas com deficiência ou transexuais – no geral, ninguém se posicionou como membro da comunidade LGBT. Na mesa, apenas mulheres brancas e que certamente não estão abaixo da classe média, falando de desigualdades de raça e classe.

Durante os aproximadamente quarenta minutos de debate foram levantados pontos sensíveis como o afastamento da Universidade em relação ao ensino básico – uma relação que poderia ser mais estimulada, como disse um professor de ensino médio presente na plateia – e como essas desigualdades são naturalizadas ou não na educação das crianças e adolescentes, como destacou uma professora do ensino fundamental. Uma secundarista – essa talvez tenha sido a mesa em que eu mais pude notar a participação de um público não acadêmico – falou sobre como sente que pessoas tendem a jogar a responsabilidade pelas mudanças sociais sobre os jovens, deixando tudo sempre nas mãos de uma geração futura.

Maria G. Lara

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