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Periódicos de humanidades enfrentam o desafio da internacionalização

A internacionalização dos periódicos de ciências humanas e sociais, exigida pelos critérios das agências de fomento e certificadoras, devem obedecer ao critério da relevância científica e não apenas ao incremento de indicadores de produtividade. Esta foi a síntese da conferência intitulada “Edição de Periódicos em Humanidades no Brasil: desafios na produção e na gestão”, realizada durante a 69ª Reunião Anual da SBPC, na UFMG. A mesa teve a participação dos professores Maíra Baumgarten (editora da revista Sociologia da UFGRS), Peter Shulz (Departamento de Ciências Aplicadas da UNICAMP) e Adrian Lavalle (editor da Revista Brasileira de Ciências Sociais – USP).
Maíra Baumgarten abriu a discussão definindo os periódicos como “instrumentos estratégicos de produção e difusão da ciência”, bem como “meios de formação de redes e de trocas”. A professora salientou a função mediadora exercida pelos periódicos entre o conhecimento científico e a sociedade. Para ela, apesar dessa importância, os editores não são suficientemente valorizados, pois faltam políticas de apoio à sua profissionalização, carência de pessoal técnico e até de espaço adequado para trabalhar. Soma-se a isso a crescente exigência por produtividade científica, o que sobrecarrega revistas A1 e A2 com excesso de artigos, por outro lado há pouca demanda para revistas com qualificações inferiores. Com a exigência de internacionalização, afirma a docente, essas questões se agravam.

Edição de Periódicos em Humanidades no Brasil: desafios na produção e na gestão

Edição de Periódicos em Humanidades no Brasil: desafios na produção e na gestão Foto: Claudia Fonseca

O professor Peter Shulz concorda com a colega, e explica como os indicadores de produção científica se tornaram problemáticos, em especial para as humanidades. Shutz lembrou que nessa área a tradição de disseminação de resultados de pesquisa é oral, baseada em argumentos, o que encarece bastante o custo de publicação, uma vez que os artigos são mais extensos e precisam ser traduzidos para o inglês. Além disso, o professor da UNICAMP observou, os indicadores têm servido mais para garantir a prioridade intelectual sobre um determinado resultado de pesquisa do que realmente disseminar resultados. Dessa forma, acrescentou, “o processo da descoberta, imprescindível na atividade científica, é esquecido em favor da valorização do produto final”. Ele afirma que a internacionalização é, em alguns aspectos, um mito que se vem consagrando na comunidade científica.
A internacionalização não necessariamente gera impacto, concordou o professor Adrian Lavalle, “por isso devemos problematizar quais seriam as características desejáveis, pois o fato de serem escritos em inglês não garante qualidade aos artigos”. Além disso, a internalização não deveria inviabilizar financeiramente os periódicos, o que já vem acontecendo em algumas áreas do conhecimento. Segundo o docente da USP, a editoração científica tornou-se tão complexa que deveria ser uma atividade full time, tantos os requisitos exigidos do profissional editor. Ele afirma que conciliar as atividades docentes com a editoração vem causando estresse adicional e baixo reconhecimento acadêmico aos envolvidos.

Claudia Fonseca

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