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Nossa Ciência – “Ainda temos muito que avançar na formação de professores que estimulem a experimentação”

O físico premiado internacionalmente, Cid Bartolomeu de Araújo (direita) esteve no Espaço Ciência, em Recife, e falou sobre os desafios na formação de cientistas

Primeiro brasileiro a receber o prêmio Galileo Galilei, da International Commission for Optics (ICO), o físico Cid Bartolomeu de Araújo esteve no dia 24 de maio no Espaço Ciência, em Recife, para conhecer e contribuir com a exposição “De Olho na Luz”. Ao lado do diretor do Espaço, Antônio Carlos Pavão, Bartolomeu disse que museus e exposições interativos motivam muitos estudantes a pensar em Ciência. Ele também relatou alguns desafios na formação de físicos experimentais.

Professor do Departamento de Física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Cid é graduado em Engenharia Elétrica pela UFPE (1968), tem mestrado (1971) e doutorado em Física (1975) pela PUC do Rio de Janeiro e pós-doutorado na Harvard University, nos Estados Unidos (1976-1977).

Além do prêmio Galileu Galilei, concedido pela ICO em 2004, ele foi eleito Fellow da Optical Society of America (OSA) e da Academy os Sciences for the Developing World (TWAS). É membro da Ordem Nacional do Mérito Científico e fez parte do Conselho Editorial da Applied Physics Letters e do Journal of Applied Physics.

Também foi professor visitante e pesquisador na Université d’Angers, École Polytechnique-Palaiseau e Université Paris-Nord, na França; e na I.B.M.-Thomas J. Watson, em Nova York (EUA). Já atuou como supervisor/orientador do Student Chapter da Optical Society of America; foi coordenador do Instituto Nacional da Fotônica (INFo), vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (Regional Nordeste e Espírito Santo) e membro do Conselho Técnico Científico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF).

Confira a entrevista.

Espaço Ciência – O que mais lhe fascina no universo da ótica?

Cid Bartolomeu – É muito difícil dizer o que mais me fascina nessa área. Já no curso secundário, eu achava interessante, por exemplo, observar a superposição de dois feixes luminosos. Na época, a ótica não era valorizada. Eu não entendia essa área como algo ao qual eu pudesse me dedicar. Já como estudante de Engenharia, comecei a me interessar pela Luz para ser aplicada à materiais. Hoje, a gente sabe que a importância do estudo da Luz vai muito além…

EC – E como foi essa transição da Engenharia para a Física?

Cid Bartolomeu – Meu Mestrado já foi nessa área. E foi nessa época, por volta de 1969, que tive meus primeiros contatos com o laser. Fizemos boa parte da pesquisa experimental com ele. Mas, quando chegou no final, na hora de apresentar os resultados, o laser morreu. Na época, a substituição ou conserto era praticamente impossível. Tivemos que fazer todo o resto da experimentação usando lâmpadas. E isso aumentou meu envolvimento com a ótica por que era preciso um estudo bem mais aprofundado para usar os componentes adequados…

EC – Seu mestrado e doutorado foram feitos onde?

Cid Bartolomeu – Na PUC do Rio de Janeiro. O doutorado foi desenvolvido aqui, no Recife. Como a infraestrutura não era adequada, a tese acabou sendo direcionada à área teórica. Já no pós-doutorado, na Harvard University, eu pude me dedicar melhor à Física Experimental. Hoje, tudo o que faço é pensando em Luz…

EC – Atualmente, o Brasil dispõe de infraestrutura para a formação de físicos experimentais?

Cid Bartolomeu – Sim. Temos universidades muito bem equipadas. No entanto, temos outros problemas. Muitos estudantes não se sentem interessados pela experimentação. Preferem estar sentados à mesa do computador. Isso é importante também, mas a Física Experimental, por exemplo, exige muito mais do que isso. Além disso, os melhores pesquisadores da área não querem ser professores, querem ser físicos. E, com isso, nossas universidades perdem na qualidade da formação.

EC – O que falta para os alunos se interessarem pelas áreas experimentais?

Cid Bartolomeu – Acho que as formas de ensino, desde a Formação Primária e Secundária,  ainda são muito dogmáticas. No final da década de 60, o IBECC (Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura), junto com a Fundação Ford, investiram na criação de vários centros de formação de professores de Ciência. Foi o caso do CECINE (Centro de Ciências do Nordeste), de onde fui bolsista. E havia também o PSSC (Physical Science Study Committee), programa norte-americano cujos materiais didáticos estimulavam a ciência experimental, que foi adotado por vários centros e escolas do Brasil. Lembro que, quando fui professor do Colégio Marista, consegui convencer a direção a comprar o laboratório de Física do PSSC. No entanto, depois que eu saí da escola, o laboratório foi abandonado. E isso é algo que continua acontecendo. Ou seja, ainda temos muito que avançar na formação de professores que estimulem a experimentação.

EC – Qual o papel de instituições como o Espaço Ciência nesse processo?

Cid Bartolomeu – Elas motivam muitos estudantes a pensarem em Ciência. Mesmo que, no futuro, esses jovens não se tornem cientistas, eles serão cidadãos bem mais conscientes. Muita gente ainda pensa que só existem cientistas no Hemisfério Norte. Aqui as pessoas percebem que a Ciência está mais próxima do que elas imaginam.

Redação,com informações da Ascom/Espaço Ciência

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Fonte: Nossa Ciência

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