Criança E Policiais Na Favela – Tomaz Silva Agência Brasil

Tô aqui, pelo amor de Deus: mãos pro alto, eu lamento

por Otavio H. F. da Silva

Talvez alguns dos que começarão a ler esta mensagem, não passarão das duas primeiras linhas, talvez porque são sabedores demais ou de menos e preferem continuar em sua “bolha”. A indiferença de vocês não ajudará a pensar nisto aqui.

Este é um texto principalmente para quem tem um pouco de paciência para refletir além do que costuma ver, ouvir e julgar.

A cada dia que passa é mais evidente que temos um governo assassino no poder, ele tem nome e endereço: Bolsonaro – Palácio do Planalto.

Meu amigo, amiga, você aí que votou em Bolsonaro, lembre-se: suas mãos estão cheias de sangue.

O governo de Bolsonaro não teme em fazer gestos que remetem à simbologia nazista, como tomar leite durante uma live. Prática esta adotada como símbolo da purificação racial e supremacia da raça branca.

Bolsonaro fez isso bem no dia em que aconteciam protestos contra a morte de um homem negro americano por um policial branco dos Estados Unidos. #Luto por George Floyd.

Bolsonaro fez isso bem nos dias em que o Brasil presenciou a morte de um homem negro da Angola que aqui se refugiou, por um brasileiro que se achava superior a este e o matou para que ele não recebesse o auxílio emergencial, aliás, morto para que nem mesmo pronunciasse que também era ser humano e tinha isto como um direito humano. #Luto por João Manuel.

Bolsonaro fez isso bem na semana em que quase alcançamos a triste marca de 29 mil de mortes por coronavírus. Enquanto isso ele continua radiante a todo momento , fazendo questão de continuar aglomerando multidões em lanchonetes e outros lugares, não usa máscara, pega nas mãos das pessoas, não apresenta propostas para o combate da doença e abertamente DEFENDE O USO DA CLOROQUINA PELOS POBRES, já que o mesmo disse abertamente que este remédio é “especialmente” para os pobres deste país. Ressalta-se, que a organização mundial da saúde não recomenda o uso deste medicamento, pois em alguns testes realizados, quem faz o uso da cloroquina tem mais chance de morrer.

Está aí sendo disseminado no imaginário social outra metodologia do projeto genocida de Bolsonaro que, vê na classe pobre o mal da sociedade brasileira. Os pobres para ele são os que dão prejuízo ao Estado brasileiro. Por isso, seu governo os condena a morrer, estão marcados para morrer. Aos olhos dele, cada pobre que o coronavírus matar ou a cloroquina, é menos um problema para ele resolver.

Mas não para por aí o projeto genocida deste governo antidemocrático.

Bolsonaro tomou o copo de leite puro em uma live, dez dias depois da morte do menino João Pedro, de 14 anos, morto dentro de casa no Estado do Rio de Janeiro, berço político do Capitão presidente.

E ao ver uma reportagem, fiquei ainda mais surpreso sobre como a polícia brasileira MENTE quanto ao genocídio que executa contra a população pobre e negra. Será que temos policiais lúcidos e humanizados em nosso país? Caros policiais se existirem, apareçam logo por favor, porque do jeito que as coisas caminham está indo muito mal. Precisamos que vocês nos ajudem a mudar a lógica que tem orientado esta corporação. Aqueles que deveriam servir a população, já que são “servidores públicos”, além de matar, escondem o que fazem. Sempre alegam que são as vítimas que os atacaram primeiro.

Voltando a reportagem, é evidentemente claro que a morte do garoto João Pedro foi uma execução premeditada sem direito de defesa. Vendo a reportagem é possível ver que os meninos, João Pedro e os outros cinco amigos, estavam brincando no quintal de casa. Uma casa com piscina, gramado e terreiro grande, na periferia de São Gonçalo/RJ. Pense comigo, havia lugar melhor para reunir a molecada do que um lugar como aquele e bem num período em que as aulas estão suspensas, as ruas estão isoladas de gente, e a molecada está aí cheia de energia e disposição para brincar e se divertir? Claro que não.

Eu me imaginei ali.

O que eu estaria fazendo com meus 14 anos de idade num contexto como este?

Claro que provavelmente ali, com os amigos.

Só que a molecada foi avistada pela polícia que sobrevoava a região de helicóptero. E o pensamento hegemônico racista e estrutural que há em nosso país, diz em seu receituário que: “Seis jovens pretos reunidos em algum lugar qualquer de uma favela, na rua ou em alguma casa, só pode ser bandidos”. E “se os suspeitos ao avistarem o helicóptero sobrevoando correrem, é porque estão escondendo alguma coisa. Também são bandidos”.

João e os amigos viram a aeronave e correram para dentro de casa, daí começou a perseguição a eles e o resultado disso foi mais de 70 tiros disparados contra seis meninos, dos quais sobreviveram cinco deles, menos João.

Ao me imaginar ali com os moleques, me lembro da reuniãozinha de amigos que sempre fazia aqui na rua de casa, no terreiro e dentro de minha casa e na casa dos meus amigos de vizinhança. Cresci e ainda moro aqui em uma região periférica de Contagem/MG. Cresci com o hábito de correr sempre que um helicóptero sobrevoava minha casa. Confesso que sempre tive medo de uma aeronave militar voando por cima de onde eu estivesse. Acredito que não é um medo só meu, mas também eram daqueles meninos que foram brutalmente violentados.

Este ano mesmo, estava eu aqui no meu quarto, trabalhando na leitura de livros e escrita de minha tese de doutorado, quando escutei o barulho do helicóptero. Fui lá, corri e fechei a janela. Fiquei olhando da gretinha. Saí logo de perto da janela, porque fica aquela sensação “eles podem me confundir”. E realmente há casos em que confundem.

Mas o projeto genocida em vigor no Brasil, nos leva a perceber que a recorrência de casos de violência contra jovens negros da periferia trata-se de execução, e não de atos de confundição. Em nossa cabeça, isto é de nós jovens negros, às vezes passa a ideia de que podem nos confundir porque, ingenuamente, nós jovens negros acreditamos também que somos “cidadãos de bem”. Mas infelizmente, não temos sido tratados como cidadãos de bem. É um risco ser jovem, negro e favelado no Brasil.

Ao ver o que aconteceu com João Pedro, me lembrei de uma situação que já já vou contar, onde reforça mais ainda o quanto a polícia brasileira e talvez a instituição polícia de um modo geral (vide o caso de George Floyd nos EUA), é negligente, desrespeitosa e autoritária em sua repressão nas periferias. Situação esta que é assinada embaixo por Bolsonaro, que com seu governo, fortalece este tipo de atuação truculenta por parte dos militares.

É lamentável que enquanto o presidente militar está em seu banquete carnificínico à la copinhos de leite, famílias choram por tragédias. O presidente-psicopático ri da tragédia, das tragédias, da nossa destruição.

Agora vou contar o que me aconteceu.

Há uns três anos atrás, em um dia de semana, não me lembro ao certo se era uma quinta ou sexta-feira, estava aqui na sala de minha casa sentado em um sofá. No outro estava minha mãe. Isso era umas dez da noite. Nós dois ali juntos e vendo novela, um dos poucos momentos em que ficávamos próximos um do outro no dia.

De repente eu comecei a escutar um barulho no terreiro de casa. Um barulho diferente do tipo “garrafa de cerveja se esbarrando”. Fui lá na janela do banheiro olhar e percebi que tinha gente no terreiro da minha casa.

Putz grila!

Que medo da porra me bateu!

Me lembro de gritar para minha mãe: “Mãe desliga a luz. Tem gente no terreiro”.

Entre a sala e o banheiro aqui de casa tem a cozinha. Saí correndo do banheiro sem saber o que fazer em direção à sala, aí lá de fora gritaram: “Abre essa porta que eu sei que você taí aí.”.

Adivinha quem era?

Isto mesmo: “Mãos pro alto. É a polícia”.

Minha mãe começou a chorar e dizer: “Não faça nada com meu filho. Aqui não tem nada não. Ele é trabalhador. Pode olhar minha casa”.

Começaram o interrogatório. Me pediram o documento de identidade. Obviamente não tinha nada. Depois me disseram que estava liberado, isto é, dentro da minha própria casa. Nessa altura, já estava empoderado e disse que dentro da minha casa eles não entravam. Pois havia algum motivo para isto afinal? Não. Minha mãe continuou chorando, ficou muito assustada.

E lá se foram, saíram da minha casa pelo portão, é claro, dizendo que haviam entrado aqui (na verdade pulado o muro) porque quando os bandidos avistaram o carro da polícia fugiram passando por minha residência. Isso, na verdade, foi só eles que viram. Disse várias vezes a eles que além dos inusitados não havia entrado mais ninguém.

Na retirada da tropa fiz questão de dizer a um dos policiais: “Nem todo mundo que mora aqui é bandido”. Ele estufado, me falou: “Eu disse isso por acaso?”. Fiquei calado. Afinal, depois do que passamos precisava ser dito mais alguma coisa?

Talvez ele tenha achado que ficamos felizes e satisfeitos com a visitinha surpresa que fizeram a mim e minha mãe. Mas infelizmente tivemos medo, nos sentimos violados e violentados.

Ao lembrar dessa experiência que vivi, não tenho dúvida do tamanho de medo que aqueles meninos passaram quando viram o helicóptero da polícia fazendo batida acima da casa em que estavam em São Gonçalo.

Não há dúvidas que nem mesmo dentro da nossa própria casa estamos seguros e imunes à truculência da polícia brasileira.

Não há dúvidas que as leis deste país são descumpridas por aqueles que deveriam ser defensores da segurança pública e da manutenção da paz.

Não há dúvidas que jovens negros quando estão na mira da polícia não tem vez. Não tem voz.

Não há dúvidas que o projeto genocida que Bolsonaro fortalece quer nos erradicar.

Olha que no meu caso eu sou negro e estava acompanhado da minha mãe que é branca. Naquele momento eu tinha outra voz para me defender. E se estivesse sozinho? Com as mãos minhas para o alto sabe lá o que iriam dizer.

No caso de João, ele estava sozinho com seus amigos, que eram meninos negros e periféricos assim como ele. A João só restou naquele momento gritar e implorar “Tô aqui, pelo amor Deus”. Infelizmente, a polícia de Bolsonaro está acima de tudo e de qualquer condição de ter fé nos meninos e homens negros periféricos ou diplomados. É uma polícia racista!

Alias, entretanto, todavia, num foi o mesmo Bolsonaro que disse em seu projeto político o “Brasil está acima de tudo, Deus acima de todos”?

Cadê a presença de Deus neste momento? Já que estamos em um governo religioso, cadê o cumprimento dos mandamentos cristão de não matar, não pecar e não levantar falso testemunho?

Quanta hipocrisia.

Bolsonaro é o presidente da Fack News. O presidente da mentira e da enganação.

Covardes!

Mesmo diante da clemência de João Pedro a Deus para que em alto e bom tom todos ouvissem, a polícia o matou. Depois alegaram que prestaram o socorro. Nestas horas, afinal, a caridade não pode estar ausente do homem, mesmo se tiver um coração duro como é o do policial.

Quanta hipocrisia! Covardia!

Este socorro, diz eles, que é um dever do servidor público.

Francamente, não cumpriram o dever. Usam o socorro pós extermínio apenas como uma justificativazinha, que costuma colar, para tentar convencer a população que estão ali para a manutenção da paz e do bem estar social.

E pensando nas coisas que estão acontecendo no Brasil, no que estamos vivendo, no que aconteceu com João e no que aconteceu comigo, é difícil saber o que nos restará daqui pra frente.

Correr?

Ficar em casa?

Será que podemos deixar nossas crianças brincarem de agora pra frente no terreiro de casa?

Será que teremos paz até mesmo para ver uma novela?

Como diz o ditado, “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Assim…

O que vamos fazer?

O que podemos fazer?

O que será de nós?

Contar com a sorte?


Imagem de destaque: Tomaz Silva/ Agência Brasil

This Post Has 2 Comments
  1. Muito bom seu texto, é preciso que seja dito: “Não há dúvidas que o projeto genocida que Bolsonaro fortalece quer nos erradicar.” Necropolítica, racismo estrutural e desigualdade social, esse é o Brasil de 2020…

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