Futura Se E As Universidades Públicas

O Future-se e o futuro das Universidades Públicas

Por Luciano Mendes

Desde o século XIX o ensino superior foi pensado e organizado, no Brasil, como o ápice da formação das “elites condutoras”, ou seja, um lugar para poucos e privilegiados filhos – homens! – das elites brancas brasileiras. Não é por outro motivo que, desde o império, este nível da educação é de responsabilidade do governo geral (Imperial ou Republicano).

Essa perspectiva, fortemente cultivada pelo alunado que conseguia ultrapassar os umbrais das academias, foi, de um modo geral, abraçada e reproduzida pelo corpo docente, também ele recrutado nas famílias brancas e mais ou menos abastadas. Ao longo da história de quase dois séculos de ensino superior no Brasil, docentes e discentes se mobilizaram para a defesa quase intransigente desses privilégios.

A “comunidade científica brasileira”, fortemente dependente da universidade pública, não conseguiu se desvencilhar do ethos elitista que marcou (e marca) as suas instituições de origem. Não é sem razão que toda a organização do “Sistema Nacional de C&TI” esteja fundada numa canhestra noção de meritocracia e de relevância acadêmica que resultou em enormes distorções e desigualdades entre pessoas, áreas, regiões e instituições e num desconhecimento e/ou desconsideração brutais, por parte desta “comunidade”, das grandes mazelas do país.

No entanto, nenhuma dessas considerações pode apagar a importância fundamental que as instituições públicas de ensino superior adquiriram no país nas últimas décadas, seja no campo da pesquisa, do ensino ou da extensão. Não apenas elas são responsáveis por mais de 90% da pesquisa que aqui se realiza, mas são também as responsáveis pela formação de um novo alunado, de origem diversa daquela original, que tem feito a diferença na cena política, cultural e profissional do país.

Do meu ponto de vista, são estas as duas razões fundamentais pelas quais as universidades vêm sendo objeto de um ataque sistemático dos grupos a quem o governo Bolsonaro representa, ou seja, as elites brancas brasileiras e o capital internacional. Para este, a produção de conhecimento científico no país representa a possibilidade de fortalecimento de um projeto nacional mais autônomo e menos dependente, ainda que nos marcos do capitalismo. A descoberta do pré-sal demonstrou, de uma só vez, duas potências brasileiras que precisavam ser anuladas: a dos recursos energéticos e aquela doas potencialidades tecnológicas.

De outro lado, a ocupação das vagas das universidades públicas, historicamente reservadas à elite branca, por um alunado oriundo das camadas mais pobres, da população negra e indígena, é visto pela nossa elite como uma violenta usurpação de um “natural direito a privilégios” das pessoas brancas e ricas (ou pretensamente ricas) ao ensino superior público, sobretudo naquelas carreiras de maior prestígio social e econômico.

Não é por outras razões que o projeto apresentado pelo Ministro da Educação para a reestruturação das IFES, o Future-se, reúne, perversamente, todas as iniciativas apresentadas anteriormente para o enfraquecimento das universidades e radicaliza a submissão do ensino superior público ao capital financeiro, numa clara tentativa de retirar das IFES qualquer potencial disruptivo face à situação de desigualdade e de déficit democrático que hoje vivemos. E, de quebra, aumenta as distorções do Sistema de C&T com uma cada vez maior subordinação das pesquisas aos “interesses do mercado”.

Apesar de elaborado ás pressas, o Future-se não é um projeto sem pé nem cabeça. Dialogando com o pior de nossas tradições autoritárias e de cultivo de privilégios, ele tem uma lógica e estabelece estratégias de desmonte do atual sistema. E, por se ancorar em profundas raízes políticas e culturais, não pode ser combatido da noite para o dia, nem muito menos por ações intempestivas.

Na luta contra o Future-se, ou melhor, na luta pelo futuro das IFES, vamos precisar de todo mundo. Neste sentido, é preciso que a própria comunidade acadêmica brasileira, ou seja, àquelas e àquelas que trabalham e/ou estudam nas IFES, revejam suas posturas e seus postulado face às necessidades da população, à democracia, às nossas desigualdades e, por que não, face às relações entre as diversas áreas do conhecimento.

As ciências humanas e sociais, especialmente as licenciaturas, por exemplo, que sempre foram consideradas as áreas menos nobres do sistema e cujo financiamento sempre foi criticado por parcela significativa dos “cientistas”, têm um papel fundamental a cumprir nessa luta de longo prazo. Elas sempre cumpriram um papel importante de mediação das relações do Estado com a população e de fortalecimento dos movimentos sociais e das políticas públicas que precisa ser aprendida e cultivada pelas outras áreas.

Um enfrentamento do ataque bolsonarista às universidades baseado apenas nas antigas estratégias acadêmicas e intelectuais – manifestos, greves, pressão midiática e ação parlamentar – está fadada ao fracasso. É preciso que a comunidade acadêmica e científica brasileira se aproprie de repertórios outros e, ao mesmo tempo, se reinvente para neste e para este enfrentamento. A questão é a de saber se esta “comunidade” quer se reinventar, estabelecer uma cultura de maior igualdade entre as diversas áreas e se abrir para o diálogo efetivo com as forças democráticas da sociedade e com a população, única situação, me parece, para que consigamos garantir um futuro digno para nossas instituições universitárias.

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