Passageira De ônibus No Terminal Bandeira, Adere Ao Uso De Máscaras Descartáveis Por Precaução Contra O Coronavírus

O Estado e os mais pobres em tempos de pandemia

por Tiago Tristão Artero

Diante das mórbidas declarações públicas dos grandes empresários brasileiros e da invisibilidade das moradoras e moradores das favelas, empregadas(os) domésticas(os) (que recebem as patroas e patrões de braços abertos, após o retorno da Europa) e moradores dos países historicamente explorados como colônias (muitos, no continente africano), transparece a objetificação da vida humana, ante o capital. O capital vale mais do que a vida humana?

A preponderância do capital perante a vida aparece, claramente, nas tentativas de burlar os protocolos de segurança, a fim de que se mantenha a capacidade do capital de se reproduzir, sem a exigência de lastro material. Os mais diversos índices criados para monitoramento de uma riqueza fictícia estão gerando pânico com suas quedas, muito mais do que a preocupação pela vida humana. Até porque, em tempos de pandemia, para além dos que podem pagar por um leito em hospital, estão aqueles que aparecem como os que valem menos. A desvalorização dos mais pobres está presente nos discursos públicos de políticos e grandes empresários.

Frases como “na favela não vai morrer ninguém porque todos são saudáveis” ou “na favela todos irão morrer de qualquer forma” corroboram este raciocínio. Historicamente, isto também pode ser notado, a contar pela diferença da expectativa de vida dos(as) moradores(as) de bairros nobres e de bairros pobres.

Com a pandemia do coronavírus, as elites não tiveram tempo de se organizar, por isso estão atordoadas e ficam contra o Estado, quando este se coloca como garantidor da vida humana no cenário caótico, com leitos e atendimentos a serem utilizados independentemente da classe social; com proibições de aglomeração e de movimentação nas rodovias e nas cidades, elemento que obviamente afetará as grandes corporações e também o pequeno empresariado; com multas e caça de alvarás para os que desrespeitarem as ações fundamentais para o enfrentamento da situação de pandemia com o mínimo de mortes possível.

Diante das disputas de narrativas, umas que, abertamente, minimizam a consequência de um número maior de mortes em função da valorização de aspectos econômicos, surgem algumas interrogações: Quando uma empresa é aberta, o risco é do(a) empresário (a) ou do(a) funcionário(a)? Fica como reflexão que se o risco é de todos então o lucro deveria ser de todos. Se o lucro não é socializado, por que o prejuízo haveria de ser?

Como alternativa da interrogação posta, há as cooperativas.

Esperar ajuda do Estado numa situação desta já não seria o que os defensores do neoliberalismo defendem como estado mínimo.

Partindo do princípio de que o Estado precisa auxiliar, irá ajudar quem?
Os empregados? Neste caso, também estaria ajudando as empresas, pois os empregados também são consumidores?

Mas se governo vai ajudar os / as empresários(as), neste caso, também não estaria ajudando os/as empregados(as), caso haja garantias de salário e da manutenção de seus empregos?

Dinheiro para injetar neste momento especial, há. Não restam dúvidas, especialmente se considerarmos o quanto se paga nos juros das dívidas e nos títulos da dívida pública.
Como ninguém come dinheiro, a questão agora são os recursos.

Produtos da indústria e uma maior diversidade na produção rural (que, infelizmente, não é a preocupação dos donos das grandes propriedades rurais) para atender as necessidades imediatas da sociedade são elementos fundamentais para todos os seres humanos, uma vez que os valores ganhos na exportação não abastecem o país com os recursos materiais que garantem a continuidade da vida.

Em relação às empresas, certamente, terão que migrar para outras áreas de atuação, relacionadas ao fornecimento dos recursos que a sociedade necessita. É preciso entender, também, que, talvez, as necessidades dos indivíduos nunca mais sejam as mesmas, tamanho o impacto que a mudança na rotina e na escala de prioridades pode mudar com esta pandemia.

Neste movimento, a tecnologia terá que ser usada a serviço do abastecimento das necessidades básicas e os serviços públicos (espero) terão que ser mais valorizados. Eles terão que ser dispostos de maneira perene e universal para as e os brasileiras(os), pois a qualidade de vida (e a própria continuidade dela) não pode ficar nas mãos de quem deseja, prioritariamente, o lucro.

O ministro da educação tenta “emplacar”, sem debates com instituições e movimentos da educação, o ensino a distância, neste momento tão delicado, buscando aproximar, ainda mais, o ensino público dos mecanismos existentes no ensino privado – formato que permitirá às/aos docentes atender um número ilimitado de alunas(os), com uma única aula gravada. Assim, o ministro precariza a educação da maior parte das brasileiras e brasileiros e elitiza ensino, pois há os que poderão pagar por aulas presenciais ou que terão os recursos materiais para cumprir os elementos necessários ao aprendizado por meio do EAD. Estes recursos, resumidamente são internet e computador de qualidade e capacidade de aprender sem a interação com os/as docentes.

Há serviços públicos que devem ser universalizados e ampliados, de maneira que a vida humana não fique na mão do setor privado que, no frigir dos ovos, não possui este compromisso garantidor. Há muitos países que estão adotando o compromisso de garantir às trabalhadoras e trabalhadores a manutenção do poder de aquisição do básico para suas famílias e dependentes. Este não é o caso do Brasil que, além do pânico da pandemia, cria um pânico social sem dimensões na história.

Se os(as) empresários(as) falirem sem a ajuda do governo, terão que recomeçar, assim como as/os empregados, também. Está desnuda a importância da frase “trabalhadores, uni-vos”, pois sem trabalhador(a), não há recursos para o abastecimento da sociedade e, nem mesmo, geração de capital (apesar das tentativas do capital financeiro tomar vida própria).

De maneira imediata, esperamos que, ao menos naquilo que é básico, como educação, atendimento de saúde, acesso a alimentos e moradia haja uma mudança de postura do poder público brasileiro em relação aos mais pobres.

No médio prazo, a esperança se direciona para a valorização daquilo que o Estado deve proporcionar (mesmo nesta sociedade do capital), a valorização da vida em todas as suas formas e dos modos de vida sustentáveis (facilmente encontrados em comunidades indígenas, em quilombos e em assentamentos rurais), a compreensão da imprescindibilidade das trabalhadoras e dos trabalhadores para a manutenção da vida e a busca por alternativas sociais que superem as barbáries produzidas pelo sistema social e econômico no qual vivemos.


Imagem de destaque: Passageira de ônibus no terminal Bandeira em São Paulo, adere ao uso de máscara descartável por precaução contra o coronavírus – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

 

This Post Has 2 Comments
  1. Sim. Tempo de repensar a vida e o mundo. Espera-Se que este -e outros governos -com a urgência que o vírus impõe, corrija a conduta em defesa da vida e dos valores que se aprende da vida em comunidades – e oxala- com as pandemias…

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