“O Brasil não pode parar”? Legados da escravidão em um meme

Montagem Debret (Escravos carregando o patrão) e O Brasil Não Pode Parar. Fonte: Twitter Michel Melamed/Reprodução

Alexandra Lima da Silva

O “Brasil que não pode parar” foi o último país a abolir a escravidão nas Américas. Dos 12 milhões de africanos traficados para o continente americano, a maioria veio para o Brasil.

O país que hoje identificamos como Brasil, mas que dos séculos XVI a princípios do século XIX era entendido como América Portuguesa, recebeu o maior número de africanos na diáspora. Estima-se que 4,8 milhões de pessoas, desembarcaram compulsoriamente nos portos brasileiros, “com as primeiras levas chegando em 1550 e as últimas na década de 1860, já que existem registros de envio ilegal de africanos entre 1858 e 1862 (Gomes e Schwarcz, 2018, p. 18).

Diferente dos Estados Unidos, onde a escravidão se reproduzia, a forma de escravidão vigente no Brasil se alimentava do tráfico (atlântico e interno) e possibilitava um número maior de alforrias. A liberdade custou caro no Brasil.  Foi paga com o sangue e o suor dos próprios escravizados.

À vista.

Parcelada.

Condicionada.

Negada.

E era a possibilidade de compra de alforria e a ideia de mobilidade que legitimavam a escravidão por aqui.

Na Inglaterra, a condição para a abolição foi a indenização dos proprietários. Afinal, o direito a propriedade precisava ser resguardado no país em que a revolução industrial floresceu. No Brasil, o tráfico negreiro era ilegal desde 1831. Mas esta lei não foi respeitada. E ilegalmente, muitos foram os africanos que chegaram nos portos brasileiros. Por aqui, os senhores também queriam ser indenizados para que a abolição acontecesse. Eles queriam uma compensação financeira para algo que não lhes pertencia, a vida humana.

Uma das perversidades da escravidão no Brasil é a defesa que muitos fazem de que por aqui, foi algo brando, suave. Ruim mesmo foi nos Estados Unidos!

Negar a existência de um crime é também uma das estratégias dos criminosos. É preciso lembrar que os pilares que estruturam o Brasil vêm do tráfico e da escravização, conforme pontua a historiadora Hebe Matos, no documentário A última abolição, realizado em função dos 130 anos da abolição no Brasil.

País em que “a mão da limpeza é negra” e que a maioria da população se autodeclara negra (pretos e pardos), os legados da escravidão no Brasil, são a extrema desigualdade social e o racismo estrutural. E se hoje há o entendimento de que sim, a escravidão foi um dos crimes contra a humanidade, o Brasil tem uma dívida histórica com a população negra.

É preciso que haja o entendimento de que viver não pode ser um privilégio. Viver é um direito de todos, e está acima do direito de propriedade. Portanto, é hora de parar o Brasil e redistribuir a riqueza da nação, incluindo aqueles que dela foram expropriados historicamente.

 

Para saber mais:

A última abolição (Filme documentário). Direção: Alice Gomes, 2018.

SCHWARCZ, L. M.; GOMES, F. D. S. Dicionário da escravidão e liberdade: 50 textos críticos. 1ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

This Post Has 2 Comments
  1. Achei a comparação sem lógica. Uma apelação. A escravidão foi um sistema longevo no Brasil e precisa ser levado a sério, mas nada que tenha como ser comparado à situação que estamos vivendo. É preciso por mais lógica no pensamento senão qualquer coisa vale.

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