Mestres e Doutores – 2015: as faces da elite acadêmica brasileira.

Por Luciano Mendes de Faria Filho

CGEE

Como já tivemos ocasião de comentar em nosso Facebook, o CGEE acaba de lançar um importante estudo sobre os Mestres e Doutores no Brasil. Dando continuidade a estudos já realizados pela mesma instituição, a pesquisa representa uma ferramenta fundamental para a avaliação e para a elaboração de políticas para a pós-graduação no país.

Do conjunto de dados apresentados pelos pesquisadores do CGEE, selecionei para comentar alguns, relativos à Educação e às Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Letras, Linguística e Artes (CHSSA),    objetivando sobretudo convidar o leitor para acessar diretamente o livro, disponível para download gratuito na pagina do Centro.  Os dados, de um modo geral, se referem aos programas de pós-graduação existentes entre 1996 e 2014 e aos  mestres e doutores que obtiverem os seus títulos no mesmo período.

Em 1996, 27,96% os cursos de mestrado existentes no país eram das áreas de CHSSA; em 2014 esse percentual saltou para 32,54%. Neste último ano, os 142 cursos de mestrado em educação representavam 4,9% dos cursos do país, ficando atrás apenas das áreas Interdisciplinar (261 cursos), Medicina (204 cursos) e da Agronomia (166 cursos).  No conjunto dos mestrados de todas as áreas, é nítida a diminuição da concentração no Sudeste: em 1996, 62% dos mestrados estavam nessa região, enquanto em 2014 esse percentual caiu para 46%.

No caso do doutorado, em 1996, 23,9% os cursos de doutorado existentes no país eram das áreas de CHSSA; em 2014 esse percentual chegou a 29,8%. Neste último ano, os 65 cursos de doutorado em educação representavam 3,33% dos cursos do país, ficando atrás apenas das áreas de Medicina (173 cursos),de Agronomia (112 cursos) e  Interdisciplinar (65 cursos).  No conjunto dos doutorados de todas as áreas, também é nítida a diminuição da concentração no Sudeste: em 1996, 79% dos mestrados estavam nessa região, enquanto em 2014 esse percentual caiu para 54%.

Nos cursos de mestrado das CHSSA, se titularam, em 2014, 37,1% dos mestres formados no país (em 1995 foram 36,9%). No conjunto de todas as áreas, a educação ocupa o primeiro lugar, com a titulação de 3.071 mestres (6,12% do total).  Neste caso, chama a atenção que a Medicina, com bem mais cursos que a Educação, tenha titulado bem menos mestres (2.476), indiciando que os cursos de educação, de um modo geral, são maiores do que aqueles das demais áreas.

Na titulação no doutorado, a participação das CHSSA no conjunto das áreas é ligeiramente inferior à do mestrado: nos cursos de doutorado das CHSSA, se titularam, em 2014, 32,2% dos doutores formados no país, um acréscimo significativo em relação a 1996, quanto esse percentual era de 26,4%. No conjunto de todas as áreas, a educação ocupa o segundo lugar, com a titulação de 1.101 doutores em 2014(6,58% do total) .No caso do doutorado, a Medicina é a que ocupa a primeira posição em número de doutoramentos no país, com 1.507 titulados no mesmo ano, indicando que outros fatores além da quantidade e tamanho dos programas precisam ser levados em conta quando se analisa o total de titulados nas diversas áreas. Do mesmo modo, é importante analisar melhor a informação de que dos 25.005 mestres titulados no período de 1996 a 2014, apenas 6.534 (26,1%) fizeram também o doutorado; na biofísica esse índice chega a 61,3% dos concluintes do mestrado.

No que se refere à idade média da titulação não me foi possível organizar o dados para as CHSSA e, por isso, a referência é às Ciências Humanas especificamente: em 2014, é interessante notar que a idade média de titulação  estava acima dos 28 anos em todas as áreas, chegando a  33,9 anos  nas Ciências Humanas. Para o doutorado, no mesmo ano, a idade média de titulação era 32,8 anos nas Ciências Biológica, chegando a  40,9 nas áreas que compõem as Ciências Humanas.

O estudo traz pistas importantes para pensarmos também o grau de endogenia dos mestres e doutores em relação à unidade da federação em que trabalham. Afirma, por exemplo, que:

Ainda na comparação entre graus de endogenia, os mais elevados, nos casos de mestres (90,8%) e de doutores (96,2%), no ano de 2014, foram observados no Estado de São Paulo. O mais baixo grau de endogenia de mestres, no ano de 2014, foi o do Estado de Tocantins e correspondeu a 25,3%,enquanto o mais baixo grau de endogenia de doutores foi registrado tanto no Acre quanto em Roraima, ambos de 0,0%. (p.184)

 Ainda a respeito disso, chama atenção:

Curioso perceber que, embora o número de doutores titulados em São Paulo (58.034) seja muito menor que o número de mestres titulados no mesmo Estado (76.212), o número de doutores exportados pelo estado paulista (23.383) foi bem maior que o número de mestres exportados (17.487). Tal desproporção está associada ao fato de São Paulo ter exportado apenas 23% de seus mestres, enquanto exportou 40% de seus doutores, e é consequência do fato de a extensão de programas de doutorado pelas demais UF ter sido mais tardia que a dos programas de mestrado.

 (…)

Minas Gerais e Paraná, unidades da Federação que mais importaram doutores titulados em São Paulo, absorveram, respectivamente, 4.347 e 4.048 doutores. Esses valores foram, na mesma ordem, cerca de 50% e 90% superiores às suas importações de mestres. Por outro lado, Rio de Janeiro e Minas Gerais foram os Estados que mais exportaram doutores para São Paulo. No entanto, as exportações de doutores desses dois últimos Estados para São Paulo, respectivamente 402 e 294 doutores, representaram uma pequena fração do que eles importaram de São Paulo, ou seja, 4.347 e 2.094. (p.175)

O estudo traz, ainda, um conjunto muito interessante de dados sobre o número de titulados no período de 1996-2014 que estava empregado em dezembro de 2014, bem como sobre os salários médios recebidos pelos mestres e doutores de cada área de conhecimento. Mostra, por exemplo, que enquanto a remuneração média de um mestre em Engenharia Naval e Oceânica era R$17.878,00, a de um mestre em Educação era de  R$8.060,00. No caso do doutorado é mais ou menos a mesma coisa: um doutor em Educação recebia, em média, 50% da remuneração de um doutor em Direito, a área no topo da tabela de remuneração, com o valor de R$21.325,00.

Enfim, o estudo é amplo, profundo e complexo, apesar de suas evidentes lacunas: é indesculpável o apagamento das dimensões de gênero e de raça dos(as) mestres(as) e doutores(as) brasileiros(as), por exemplo. Os dados aqui comentados, como se disse, são apenas um aperitivo para o necessário estudo daqueles e daquelas que se importam com a pós-graduação brasileira, seus diagnósticos e prognósticos. Quem sabe eles nos ajudem a superar a avaliação como única política em curso atualmente na CAPES para esse nível de ensino, sobretudo no que se refere às Ciências Humanas, Sociais, Sociais Aplicadas, Letras, Linguística e Artes.

This Post Has 2 Comments
  1. Olá Luciano, sou uma das autoras do livro e gostei de ler suas impressões. A ausência de dados sobre minorias decorre da falta desses dados completos nas bases principais que utilizamos. Nos outros livros esses dados vieram do Censo Demográfico do IBGE, que só ocorrem a cada 10 anos. No caso de sexo, em breve vamos fazer uma análise específica sobre o tema. Várias de suas indagações também estão na nossa lista de interesse para aprofundamento!

    1. Olá Sofia, obrigado pelo comentário. Parabéns pelo trabalho que é, sem dúvida, muito importante para todos(as) nós! Alegro-me que as indagações postas do texto dialoguem com a preocupação do grupo. Gde Ab.

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