O Golpe e o fortalecimento da ação conservadora: o caso da educação

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Há muitos meses temos discutido no Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil, e em diálogo com colegas de várias partes do Brasil, sobre os possíveis impactos das articulações em torno do golpe que se desenhava para a deposição da Presidente da República no campo da educação.
Tínhamos a convicção de que, de certa forma, havíamos avançado muito na produção de um arcabouço jurídico e no estabelecimento de políticas que se voltavam para garantia de direitos e a promoção de uma educação mais diversa, mais plural e, portando, de melhor qualidade. Falávamos, com certa alegria, que “estamos hoje muito melhor do que estávamos há 20 ou 30 anos”! E isso é bem verdade.
No entanto, também prevíamos que toda a articulação em torno do impedimento ilegal da Presidente estava associada a um movimento muito maior de fortalecimento das ações de grupos conservadores em todas as dimensões do campo social. Tais grupos, agindo de forma muito mais articulada do que possa aparecer, viriam combater de forma cada vez mais contundente e, mesmo, violenta, as conquistas democráticas e sociais.
Parece-nos, hoje, que o pior de nossos pesadelos ainda era pouco para descrever o que já se desenha no cenário nacional. O golpe, além de permitir a organização do medonho e vergonhoso ministério montado por Temer, traz uma implicação muito mais grave: o fortalecimento político-cultural daqueles grupos que, dentro e fora do parlamento, lutam pelo retorno do país à velha e longa tradição do Estado religioso e de cultura política racista e antidemocrática.
Os comentários do Ministro da Saúde de que somos (ele incluía a educação), agora, um ministério conservador e que, portanto, não há espaço para as políticas de reconhecimento e respeito da diversidade sexual, desgraçadamente nomeadas pelos grupos conservadores de “ideologia de gênero”, ou de que não dá para o SUS “atender todo mundo”, já prenunciam o que vem por aí.
No âmbito específico da educação, não bastasse a entrega das administrações municipais da educação a grupos privados em todo o país, temos as ações de incentivo ao culto religioso cristão nas escolas e, mesmo, a distribuição de material impresso, incluindo bíblias, para os pais e alunos das escolas públicas, a pretexto de incentivar as boas maneiras e o bom aproveitamento escolar dos estudantes. Desse mesmo movimento religioso e conservador vem, sem dúvida, a ação orquestrada contra os capítulos e artigos dos Planos Estaduais e Municipais de Educação naquilo que se refere ao combate aos preconceitos os mais diversos.
Ousamos, nas últimas décadas, fazer uma escola pública muito melhor do que aquela que tínhamos anteriormente, mesmo que seja uma escola que esteja muito aquém daquela que almejamos para todos. Somos chamados, agora, à luta pela defesa dessa escola mais laica, menos sexista, menos racista e mais igualitária. A sanha conservadora não quer isso. A luta, portanto, será árdua e, certamente, longa. Mas, felizmente, hoje estamos também mais preparados para ela do que estávamos anteriormente. E isso é motivo de alegria, apesar do escuro da noite que se abateu sobre nós.

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