Escola pública: são suas qualidades, e não suas mazelas, que preocupam nossas elites.

Por Luciano Mendes de Faria Filho

Nunca  houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo. (W. Benjamin, Teses sobre o conceito de história, 1940).

Nas últimas semanas temos buscado discutir as estratégias que nos possibilitariam sair do acantonamento a que temos sido empurrados pelas pautas conservadoras e reacionárias que inundam o espaço público brasileiro. No campo da educação, mal temos conseguido reagir aos ataques que buscam desconstruir valores, práticas e Defesa da Escola Públicapolíticas que, de forma muito lenta, conseguimos produzir na defesa de uma escola minimamente republicana, laica, gratuita e obrigatória.

Não resta dúvida que nossa escola pública padece, ainda hoje, de grandes problemas, muitos dos quais são conhecidos e reiterados desde o século XIX. No entanto, acompanhando esse histórico e, atualmente, o desmonte das políticas e do Estado brasileiro no campo da educação, há que se perguntar se o que mais preocupa as nossas elites é, como enchem a boca para dizer, a baixa qualidade da escola pública ou, ao contrário, algumas de suas muitas qualidades.

Nunca é demais lembrar que desde pelo menos meados dos anos de 1960, quando a classe média “resolveu”, de forma coletiva, abandonar a escola pública  e educar seus filhos e filhas na escola privada, nossas elites políticas e intelectuais, sobretudo aquelas encasteladas nos meios de comunicação, vêm fazendo uma campanha sistemática pelo reconhecimento da superioridade da escola privada em relação á escola pública.

Tendo a ver, hoje, que o que tem preocupado os principais setores que investem contra a escola pública e, mesmo, alguns que dizem estar preocupado com a melhoria mesma, é muito mais o fato de que esta instituição, apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelas professoras e professores públicos, consegue apresentar qualidades que desafiam as lógicas economicista e minimalista que tentam lhe impor.

Se tivermos uma visão temporalmente mais ampliada poderíamos indagar sobre o papel da escola pública, essa mesma que tem sido vilipendiada e que suas (seus) profissionais são destratadas(os) nos meios de comunicação, na educação das mulheres e homens negros, pobres e trabalhadores que, hoje, ocupam o espaço público para defender  e fazer as políticas de reconhecimento  e expansão de direitos no Brasil. Onde foram educados? Quais escolas freqüentaram?

Do mesmo modo, onde será que boa parte da população brasileira – quase 90% para falar a verdade! – tem contato com livros e  materiais didáticos de excelente qualidade, menos sexistas e racistas do que boa parte da produção cultural brasileira? Onde, a não ser na escola pública,  as mulheres, as meninas negras e pobres, podem vivenciar (e aprender) relações que, por mais desiguais que sejam,  são muito menos discriminatórias do que aquelas que as mulheres que vivem na rua, no trabalho, na política e nas principais religiões professadas no Brasil?

Não seria na educação pública que, a despeito da violência que grassa em nosso país em relação á comunidade LGBT, assistimos a avanços muito importantes em relação  ao reconhecimento e à promoção dos direitos  dessa parcela da população? E qual é a instituição social que é, hoje, mais inclusiva do que a escola pública?

Mais ainda, não foi na escola pública que a população pobre e negra que hoje ocupa os espaços universitários brasileiros estudou? Não foi dessa escola, continuamente mostrada como de péssima qualidade, que vieram as(os) alunas(os) pobres e negras(os) que, entrando na universidade pelas políticas de ação afirmativa, se mostraram tão ou mais capazes do que aquelas(es) que vieram as escolas privadas?

Uma das formas de sairmos da pauta conservadora e reacionária que tentam nos impor, inclusive por meios de sofisticados discursos, é a reafirmação das qualidades da escola pública. A despeito das enormes dificuldades pelas quais passam essas instituições e aos regimes de trabalho e de salário a que são submetidos suas (seus) profissionais, a escola pública resiste e demonstra a tenacidade de milhões de pessoas, professoras(es), profissionais da educação, mães e pais trabalhadores, ativistas sociais e muito outros, na defesa de um bem coletivo.

São essas resistência e tenacidade, que não têm preço e não podem, portanto, ser compradas no mercado, que tanto incomodam aqueles que querem impedir que a escola pública funcione. Definitivamente, não é a falta de qualidade da escola pública que preocupa as nossas elites. O que as  preocupa, o que as leva a cortar as verbas para a educação ao invés de aumenta-las,  é que se as escolas públicas fossem melhor aparelhadas e suas (seus) profissionais mais reconhecidas(os) e respeitadas(os), uma multidão de “outras(os)” iria demonstrar ao brancos, masculinos, heterossexuais e cristãos que eles são parte da diversidade de nosso país, e não o padrão pelo qual todos os outros devem se definidos. Iria demonstrar, talvez, que é absolutamente necessário conviver com nossas diferenças e diversidades, mas não é possível, nem necessário, conviver com a monumental barbárie das nossas desigualdades econômicas e sociais. É disso que nossas elites têm medo! É a isso que tentam evitar a todo custo!

This Post Has 13 Comments
  1. Boa reflexão, Luciano! Esse texto pode servir de mote para algumas discussões em sala de aula. Vou usá-lo em minha aula da EJA. Abraços e obrigado pelas reflexões tão marcadamente contemporâneas e verdadeiras.

  2. Parabéns, Luciano! Sua escrita registra a realidade da escola pública, suas qualidades e principalmente, valoriza os trabalhadores da educação, professores e administrativos, que todos os dias estão no chão da escola enfrentado diversos problemas e, ainda assim, realizando um excelente trabalho. Vi minhas concepções e diálogos realizados continuamente com meus pares e estudantes das licenciaturas organizadas em palavras e aqui expostas em seu texto. Vc disserta de forma clara, precisa, coesa, coerente e muito bela. Aceite meu respeito e receba meu abraço!

  3. Sua reflexão nos leva para um caminho que tem sido evitado sistematicamente pelas elites brasileiras e até mesmo por muitos educadores: as boas práticas da escola pública. Gostei da sua abordagem demonstrando a diversidade e o acesso aos livros que mesmo com as deficiências funcionam levando nossos jovens aos bancos da universidade.
    A esperança é um dos temperos da vida que nunca se pede menos.

    1. Prezada Sebastiana, obrigado pelo comentário. Para avançarmos em direção a uma escola de qualidade para todos é preciso retomar, valorizar e problematizar o muito que tem sido feito. Sem isso, continuaremos insistindo nos “salvadores da pátria”, ou da escola, seja lá quem encarne essa representação. Ab. Luciano

  4. Maravilhosa escrita. Algumas de nossas reflexões aqui na na zona sul, tem ido nesta direção também. Vou propor a leitura na reunião do Grêmio Estudantil. Abraço Fraterno!

  5. Prezado Luciano, boa noite!

    Parabéns pelo texto.

    Meu nome é Daniel Maldonado e sou professor do Instituto Federal de São Paulo. Estudo a escola pública na minha tese de doutorado, especificamente a Educação Física Escolar.

    Apresento em minha tese resultados de docentes extremamente desmotivados pela realidade de condições de trabalho e salariais em que atuam há décadas. Por outro lado, temos encontrado na literatura diversas boas práticas em Educação Física (não entender como educação esportiva, pois uma boa educação física faz com que o aluno reflita sobre a produção científica e popular das diferentes práticas corporais).

    Essa é uma grande contradição. Péssimas condições de trabalho e bons projetos educacionais.

    Embora conheça uma quantidade razoável de professores picaretas, também trabalhei e ainda trabalho com docentes que se dedicam amplamente com a educação das futuras gerações.

    Seu texto me fez refletir sobre algumas questões e vou usar esse material nas minhas aulas com os alunos da licenciatura.

    Abraços

    Daniel Maldonado

    1. Olá Daniel, obrigado pelo seu retorno. Quando puder, por favor, nos envie um resumo de sua tese para que possamos divulgar em nossas mídias. Ab.

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